terça-feira, 30 de setembro de 2008

UBERABA E O PODER LEGISLATIVO - 1837 AOS DIAS ATUAIS


Nessa época, os cargos de presidente da Câmara e de agente executivo eram exercidos em separado, por dois vereadores. O nome de Anthero, não aparece nas atas da Câmara de 1901. Como agente executivo:
- Construiu a ponte sobre o pavilhão da Mogyana.
- Providenciou reparos no Theatro.
- Autorizou a criação de uma escola na fazenda "Ponte Alta" e a construção de uma hospedaria para imigrantes.
- Solicitou à Câmara que o agente executivo recebesse remuneração ou gratificação para exercer o cargo, alegando que o tempo gasto na função prejudicava o investimento em negócios particulares. A resposta da Câmara, em 07/05/1901, foi que a solicitação não fosse atendida, pois a lei rege a gratuidade da função.
- Calçou ruas com paralelepípedos.
- Definiu o perímetro urbano da cidade.
A Lei Municipal n°122, cassa os poderes de Antero, alegando incapacidade moral, por pretender implementar arrojado plano de obras para os quais o município não tinha recursos. Ele entra com recurso e volta ao cargo.
Em 1901, funda-se o Jóquei Clube de Uberaba e a Livraria Século XX.
Nessa época existiam os vereadores distritais de Campo Florido, Veríssimo e Conceição das Alagoas.

LEITURAS INTERESSANTES

COISAS QUE ME CONTARAM CRÔNICAS QUE ESCREVI


O livro de Jorge A. Nabut, cuja capa foi criação do arquiteto Demilton Dib, inicia-se com a história do Desemboque, “... o berço de nossa civilização triangulina” (p.5) e segue contando sobre o surgimento da aldeia e da cidade, as viagens de Saint-Hilaire, a estrada do Anhangüera e a luta contra os índios. Destaca a Rua Artur Machado, os cinemas, o comércio, a indústria, a música e os músicos: Rigoleto de Martino, Renato Frateschi, Loreto Conti e João Vilaça Júnior. Também relembra a vinda do Zebu, o caminho das Índias com João Martins Borges e os mascates e analisa os blocos arquitetônicos/ culturais de Uberaba, demarcando as épocas históricas (p29).

Com textos em forma de crônica, Nabut questiona o “estado de desprezo e desleixo em relação à cultura”, parafraseando Francelino Pereira: que país é esse? Na p.11, encontramos: “A amnésia cultural tem sido um mal comum do país, criando um vácuo insolúvel e principalmente, irrecuperável dentro da nação. A amnésia cria um povo sem história. Sem memória”.

Na crônica “Sentimento Urbano”, publicada em 1977, discorre sobre os acontecimentos de Uberaba e finaliza o texto com o trecho: “...Enquanto isso, o Major Eustáquio, fundador da cidade, salta dum carro de praça e aluga um apartamento apertado no edifício (é difícil, meu chapa) do Banco Nacional e me confessa confuso que não quer que lhe falem de Araras nem Pacholas, e que não quer outra vida pescando no rio de jereré...” (p. 23)

A obra dedica uma parte especial ao folclore e à cultura popular, com a história de Sebastiana: “na casa dum pessoal, um estranho barulho. Num havia nada. E a porta de casa rangendo que num quietava...” e com outros casos, desafios e contos. Aborda o tema carnaval e relata a história do bloco Maria Giriza, além de registrar as manifestações de Moçambique, Congo, Umbanda e a Festa de N.S. da Abadia e destacar os artistas plásticos Hélvio Fantato e Maria Hummel.

Com o jeito gostoso de escrever, o autor nos faz “ver”, “viajar” e revisitar locais de Uberaba. É uma importante fonte de consulta que busca a valorização da cultura de nosso povo.

Marise Soares Diniz
obras do acervo: A Igreja em Uberaba (1987), Desemboque Documentário Histórico e Cultural (1986), Fragmentos Árabes (1ª edição - 2001/ 2ª edição - 2007), Memórias de Mariana (1995), Paisagem Provincial (1984) e Sesmarias do Corpo (1986)

terça-feira, 23 de setembro de 2008

UBERABA E O PODER LEGISLATIVO - 1837 AOS DIAS ATUAIS


Após a fase de implantação da República, os governos municipais e as Câmaras foram recompostos. A primeira Câmara eleita em Uberaba, tomou posse em 1892. Como agente executivo:
- Autorizou a criação de uma escola rural na fazenda "Barreiro".
- Regulou as concessões para edificação em terreno desocupado e definiu o
perímetro da cidade.
- Permitiu a colocação de placas nas ruas, praças e largos.
- Propôs a criação da Biblioteca Pública,
- Reparou o Teatro e a Igreja Santa Rita, ambos em péssimas condições.
- Solicitou a verificação do desempenho do administrador do mercado, suspeito de
se servir do cargo para monopolizar o preço, causando prejuízos para o pequeno comércio.
Durante sua gestão, foi inaugurado o Hospital Santa Casa de Misericórdia (1898), fundado o Clube da Lavoura e Comércio de Uberaba e o Jornal Lavoura e Comércio (1899), [...] para cooperar na grande campanha que se fazia em todo estado contra o governo de Silviano Brandão que, para recuperar os grandes gastos feitos com a construção da nova capital, desejava criar o malfadado imposto territorial, que num crescendo contínuo, vem até hoje atormentando os possuidores de terra [ ...][1] O cargo de agente executivo é separado do cargo de presidente da Câmara pela Lei Municipal n° 99 e deixa de ser remunerado, o Cemitério Municipal é inaugurado e as duas torres da Catedral foram demolidas e edificada uma única. (1900)

[1] Revista Convergência

LEITURAS INTERESSANTES

TERRA MADRASTA


Orlando Ferreira, era filho do negociante Bento José Ferreira e nasceu em 1887, em Uberaba. Foi seminarista, recenseador, escritor e crítico ferrenho dos maus políticos, da igreja católica e de algumas famílias tradicionais da cidade. Faleceu 1957, aos setenta anos.


O livro Terra Madrasta (1928?), tece críticas à política mineira, afirmando que ela é a responsável pelo atraso do estado e exemplifica, com dados dos recenseamentos de 1872, no qual a população mineira era maior que a paulista, e de 1920, quando São Paulo já alcançava Minas em número de habitantes.

Critica também o governo político de Uberaba, qualificada como “...uma obra de liliputianos."[1] e afirma que as forças oponentes ao progresso do município são: a administração, a política, o clero, a empresa Força e Luz e algumas famílias tradicionais.

Afirma que, embora houvesse na cidade uma razoável arrecadação – mostrada por meio de quadros estatísticos da receita e da despesa, de 1836 a 1925 – ela não era bem aplicada e as ações dos prefeitos não iam além de tapar buracos com terra, capinar ruas, construir pinguelas, matar cachorros, nomear e demitir funcionários e arrecadar impostos. Questiona porque em um século, das 155 ruas da cidade, apenas 11 foram pessimamente calçadas e 3 praças, das 19 existentes, estão em bom estado. Ironicamente, aponta a falta de seriedade nos critérios para se classificar as cidades mineiras no ranking do desenvolvimento, pois, apesar de todo o retrocesso, Uberaba ainda conseguiu ocupar o terceiro lugar na classificação.

Apresenta como entraves do progresso municipal: uma gestão destrói as realizações da outra; administra-se a esmo, sem uma diretriz segura; emprega-se material barato nas construções; trabalha-se às pressas e falta espírito cívico aos administradores. Afirma ainda que edifício da Câmara é novíssimo e já apresenta “assoalho em falso que estremece e sacode os móveis.”
Descreve positivamente a administração do Dr. Leopoldino de Oliveira, apontando-o como o prefeito que não deixou dívidas para a gestão seguinte, exonerou funcionários inúteis, prestou assistência técnica às escolas, apoiado por Alceu Novaes, e elaborou um novo programa de ensino municipal que previa o aumento no salário dos professores, a realização de concursos e a seleção de pessoas habilitadas para o exercício do magistério.

Confronta por meio de quadros demonstrativos, a taxa de mortalidade de Uberaba com a de outras cidades, no período de 1908 a 1920, e expõe as péssimas condições de higiene da cidade devido à falta de água.

Assegura que havia corrupção, assassinatos, espancamentos, compra de votos, suborno e registros em atas falsas, nos pleitos eleitorais na cidade.
Dedica uma parte a criticar a empresa Força e Luz e a atuação política de seus proprietários e o clero uberabense.

Registra os nomes das ruas do município, em 1923, e relatos sobre as fotografias usadas na edição.

A obra é um rico conjunto de dados relacionados à trajetória dos prefeitos da época vivida por Orlando Ferreira que, além de reunir fotos, documentos de jornais e estatísticas do município, importantes para a visão da cidade como um todo, também desperta no leitor o pensamento crítico.

Marise Soares Diniz

Outras obras do acervo: Forja de Anões (1940) e Pântano Sagrado (1948)

[1] A palavra refere-se à Liliput, ilha onde se passa parte da história da obra Viagens de Gulliver, de Jonathan Swift, escrita no século XVIII. De acordo com alguns estudiosos, os liliputianos representam as pretensões dos poderosos, as intrigas e os bastidores das cortes reais. Por meio dessa história, Swift critica as mesquinharias da política e as sociedades inglesa e francesa da época.

terça-feira, 16 de setembro de 2008

UBERABA E O PODER LEGISLATIVO - 1837 AOS DIAS ATUAIS


Nascido em Congonhas de Sabará em 1825, formou-se professor e veio lecionar em Uberaba. Também foi agrimensor, vereador e deputado mineiro.
Em 1889, ao ser proclamada a República, assume a presidência da Câmara Municipal. Renunciou ao cargo, retornando em seguida. Colaborou com os jornais Gazeta de Uberaba e Correio Mercantil (Rio de Janeiro).
Em janeiro de 1890, o governo do Estado dissolveu a Câmara e criou um Conselho de Intendência, devido à Proclamação da República. Era o período de transição entre monarquia e república e os governantes dos municípios mineiros seriam escolhidos por um conselho de políticos filiados a um partido local. Surgiu assim, o partido União Política, sob a presidência de Wenceslau. Os representantes desse partido formavam o conselho que o aclamaram intendente municipal.
Durante seus mandatos:

- O Instituto Zootécnico de Uberaba foi criado, em 1892.
- Criou uma escola mista municipal no bairro Estados Unidos.
- Angariou verbas para a construção de uma cadeia e de diversas pontes na região.
- Ampliou o Hospital da Misericórdia, com a inauguração do serviço de enfermagem.
- Fundou o “Clube Republicano Quatro de Março”, responsável pela criação do jornal
Gazetinha
- Estabeleceu o Código Municipal da Cidade de Uberaba (1897).

Uberaba foi contemplada com verba do governo estadual para reaparelhamento da Câmara. Em 1891, a Constituição Republicana definiu os sistema de governo e as eleições.
Por volta de 1896, as disputas políticas eram divulgadas pelos vários jornais da cidade: Tribuna do Povo, Cidade de Uberaba, Jornal de Uberaba e O Triângulo Mineiro. Os integrantes dos vários partidos divergiam quanto a cumprir integralmente o que dizia a constituição, ou mudá-la. As campanhas políticas eram marcadas por atentados, ameaças e conflitos. Em 1897, foi criado o Partido Republicano Mineiro, com base nacional. Apesar disso, as diferenças persistiram, interferindo até no funcionamento do Instituto Zootécnico, cujas atividades foram suspensas devido aos confrontos entre professores, direção e alunos.
O ALMANAQUE UBERABENSE de 1911, página 152, noticia o falecimento do Major, aos 85 anos.

quarta-feira, 10 de setembro de 2008

MEMÓRIA

Desemboque - década de 1980

Recuperar o passado é uma primeira garantia de um sentido para o presente. Ao recorrermos a memória dos relatos e testemunhos das épocas passadas, estamos transformando essas narrativas em história, fazendo com que um amontoado de fatos ganhe sentido. O narrador histórico é aquele que procura o sentido das ações humanas e encontra nelas uma conexão com os acontecimentos que se precipitam no presente.

Trecho retirado de: TELES, Edson <http://www.urutagua.uem.br//03teles.htm>.
Acessado em 8/9/2008

“A cidade é assim, como um murmúrio de vozes diversas”.
“A vida de uma cidade se dá a ler em suas ruas, suas praças, suas casas, edifícios... Ela está impressa em cada um desses lugares”.
“[...] a cidade que se lê nunca é única, mas sim múltipla, varia. Sobreposições de épocas diversas, e de leituras e significações variadas dadas pelos atores incontáveis que a atravessam, que fazem dela o seu cenário”.

Praça Rui Barbosa - década de 1980

“A cidade dos seus planejadores, a dos operários da época de sua construção, a dos sonhos dos velhos moradores do tempo de arraial. A cidade da geração dos poetas [...] do estudante, do funcionário, do carteiro, do político... dos homens, mulheres, jovens e velhos [...]”. “[...] diferentes personagens constroem diferentes imagens da cidade que habitam [...]”

Trecho retirado de: SILVEIRA, Anny Jackeline T. Acerca da leitura das cidades In: Varia História. Revista do Departamento de História da UFMG, Belo Horizonte: UFMG, n° 16, Setembro/1996. p.78-89.

terça-feira, 9 de setembro de 2008

UBERABA E O PODER LEGISLATIVO - 1837 AOS DIAS ATUAIS


Último governo de Uberaba no regime Imperial[1].
Com o aumento rápido da população da cidade, incrementou-se a construção civil. A principal preocupação da Câmara dos Vereadores dessa época era evitar a construção de residências sobre as nascentes de água que abasteciam a população, ou em ruas de passagem para boiadeiros e tropas rumo a outros estados. A Câmara consegue autorização do Governo Provincial para que os presidiários trabalhassem na reforma e construção das ruas da cidade.
Durante sua gestão:
- foram inaugurados a Estação da Companhia Mogiana de Estrada de Ferro e o telégrafo.
- o touro Lontra, exemplar zebuíno, foi trazido a Uberaba.
- o Paço Municipal foi reconstruído, a Câmara emancipou São Pedro de Uberabinha (Uberlândia), a Rua do Comércio, hoje Artur Machado, foi estendida, até o local onde seria construída a Estação da Mogiana. (1888)
- a escravatura foi abolida e o governo municipal exigiu que os fazendeiros cumprissem a lei.
- a Rua do Comércio teve seu nome mudado para Barão de Ataliba (diretor da Companhia Mogiana), inaugurou-se a Estação da Estrada de Ferro, em festa organizada pelo vereador Gabriel Junqueira. (1889).
No dia 20 de novembro de 1889, a cidade é informada sobre a Proclamação da República. Em comunicado à população, a Câmara anunciou o acontecimento: “...A 15 do corrente foi declarada a Proclamação na capital do Brazil a República Federativa Brasileira...” (Atas da Câmara – volume 3). Na ocasião, o presidente da Casa exortou aos políticos uberabenses das diversas facções – monarquistas ou republicanos – a evitarem as trocas de acusações e desentendimentos relacionados ao tema, evitando que o fato acentuasse o conflito já existente.

[1] No início da República, a oligarquia agrária dominava e o comando político era dividido, de maneira não muito clara, entre os Agentes Executivos e os Presidentes das Câmaras. Havia opressão aos eleitores e as eleições eram fraudulentas.

quinta-feira, 4 de setembro de 2008

O DESEMBOQUE E SEUS MUITOS FILHOS


“O chapadão termina. Começam os vales, colinas, morros e riachos que circundam o Desemboque, nosso berço civilizatório. Esta era nossa primeira vez. Talvez por isso, a sensação de uma aventura no tempo fosse maior. Ao chegarmos fomos recebidos pelo silêncio. Desemboque parecia dormir embora meio-dia fosse. (...) Gente havia. As igrejas Nossa Senhora do Rosário e Nossa Senhora do Desterro insistiam incólumes, ostentando o peso de dois séculos...”

Quando meu irmão, o jornalista Heitor Átila Fernandes, escreveu essa minicrônica, eu ainda não atinava muito para o conhecimento histórico e a conservação. De lá pra cá, passaram-se oito anos e, considerando que já se prevê por aí que a capacidade de informação vai se multiplicar a cada setenta e duas horas, a partir de 2011, creio estar um pouco atrasada e que, inversamente proporcional à velocidade da informação, é a velocidade da preservação. Desemboque, como afirmam alguns historiadores, espera pelo fim, nada mais.

Quem acompanhou Desejo Proibido ou ouviu comentários sobre essa recente novela das seis, ambientada em Passa Perto, alcunha carinhosa para Sacramento, cidade localizada a 60 km de Desemboque, percebeu, em vários diálogos de personagens, combinações sobre ir ou vir do vilarejo, para negócios, visitas, assistência de saúde e os mais variados temas. O texto novelesco não tem necessariamente compromisso com fatos históricos e divulgou-se até que o folhetim foi feito sob medida para homenagear Lima Duarte, nascido na região. Seja qual for o caso, cumpriu a proposta da diversão, mesmo com seus personagens caricaturados e uma prosa mineira – no sotaque e na escolha da linguagem – um tanto exagerada, mas capaz de fazer rir e despertar o interesse por um lugar que já foi importante centro político e comercial.

Para Félix Renato Palmério, o topônimo Desemboque tem origem no antigo Arraial das Abelhas, região onde desembocavam os caminhos que vinham das capitanias de São Paulo, que transpunha o Rio Grande, e de Minas, que transpunha a divisão com Goiás. Distante 144 km de Uberaba e 90 da região nordeste de São Paulo, a vila é geograficamente privilegiada por ser território limitado por dois importantes rios: o Paranaíba e o Grande. Isso muito lhe valeu, entre as décadas de 1760 e 1770, tempos gloriosos da exploração do ouro, nos quais abrigou quase duzentas residências e mais de 1000 habitantes. Estudos afirmam que por lá chegaram a circular algo em torno de 10.000 pessoas.

Segundo o memorialista Borges Sampaio (1971), o lugar era povoado por índios e, posteriormente, negros fugidos. No século XVI, na caça aos quilombos, vieram os bandeirantes e acabaram descobrindo jazidas de ouro no local. Como a Coroa concentrava seus cuidados em Sabará, Diamantina e Vila Rica e o acesso à região era bastante difícil, o contrabando do valioso metal pelos caminhos ainda pouco vigiados de São Paulo e Goiás foi favorecido. Para o jornalista Jorge Alberto Nabut (Desemboque: documentário histórico e cultural. 1986), os bandeirantes chegaram próximo ao povoado, porém quem o fundou foi o Guarda-Mor Feliciano Cardoso Camargo, que saiu do Arraial do Tamanduá (Itapecerica), rumo à Serra da Canastra, em 1736, na expedição Chapadões.

A partir de 1781, com o esgotamento do ouro, iniciaram-se as atividades rurais, que eram mais estáveis e exigiam menos mão-de-obra. Os que preferiram se evadir do local foram expandir o Sertão da Farinha Podre.


imagem: www.mariafillo.org
“O meu tataravô, Cônego Hermógenes Cassimiro de Araújo Bruonswik, pediu pra ser enterrado bem na entrada da igreja. Ele queria que todos passassem por cima de seu corpo ao entrarem ou saírem da igreja, como penitência por ele ter sido um pecador.” Quem conta o feito, é Vicente Araújo Lima. Cônego Hermógenes foi vigário por lá de 1814 até 1862 e graças a ele o arraial foi elevado à condição de vila. Apesar do voto de castidade, conta-se que Hermógenes muito contribuiu para ampliar a estatística humana do lugarejo, pois se envolveu com várias mulheres, chegando a ter vida conjugal com uma delas. Seu Vicente ainda afirma que “Quem não é descendente diretamente, está junto de alguém que é.”

Após a morte do Cônego, em 1862, a região tornou-se distrito da cidade de Sacramento. Na década de 1970, Desemboque foi redescoberta por Mário Palmério e pelo jornalista Mauro Santayana que pretendiam recuperar a vila e foi só nessa mesma década que os moradores puderam contar com a luz elétrica. Em tempos atuais, além das igrejas (ambas com arquitetura do século XVIII), há no local pouco mais que 20 casas e 80 habitantes.

Na placa de entrada do vilarejo, lê-se: Homens de extrema bravura, desterrados do seu próprio mundo fundaram no Sertão da Farinha Podre, em 1743, a capela de Nossa Senhora do Desterro, dando início ao povoado de Desemboque, marco inicial da colonização do Brasil central. Em seus mais de duzentos anos de existência, a vila pouco evoluiu e se de lá saíram, 600 arrobas de ouro, como afirma o morador mais antigo, ou 200, nas palavras do historiador Carlos A. Cerchi, ou 100, de acordo com Jorge Nabut, ou nenhuma, posto que o lugar era apenas ponto de contrabando do minério para Portugal, de acordo com outras pesquisas, provavelmente nunca saberemos ao certo. Vale é rever o passado, atribuindo os devidos méritos a quem os merece por ter se embrenhado no mato e enfrentado perigos e mistérios, ou por ter resistido e tentado se defender, após ser tachado, pelo dominador, de infrator ou selvagem. O mosaico dessas perdas e conquistas revela o nascimento de núcleos sociais importantes. Revisitar a história desses nossos lugares é ser envolvido pelas curiosas descobertas sobre o rico passado que alicerça nosso futuro, é rever nossa alma histórica.

Para se chegar a Desemboque, pela BR 262, passa-se por Peirópolis, bairro rural de Uberaba, onde foram encontrados fósseis de dinossauros de 70 milhões de anos, mas isso já é outra história.

Texto: Iara Fernandes

Fonte: Revelação – Jornal Laboratório do Curso de Comunicação Social – 14 a 20 de fevereiro de 2000 - Universidade de Uberaba.
Publicado originalmente em www.sertaopaulistano.blogspot.com

ICONOGRAFIA E A PRAÇA DA GAMELEIRA


Em 1900, a árvore já era centenária e, em 1970, foi arrancada, abrindo uma enorme cratera, tapada com a construção de um palco e bancos em formato de arena, que ironicamente foi batizada de Praça da concha Acústica, que de acústica não tem nada, exceto quando havia eventos e o som eletrônico esgarçava os ouvidos dos moradores da redondeza.

Ao ter a foto em mãos, fiquei a observar os detalhes que a compõem; os transeuntes, as pessoas sob a sua sombra, os casarios e uma satisfação acompanhada de lamúria apoderaram-se de mim.

A satisfação pela preservação de fotos históricos no Arquivo Público, possibilitando estudos em disciplinas culturais a partir de fotos; história do design, história da arte, história da fotografia, sociologia. Esse estudo se chama iconografia, que é a leitura de imagens ou signos, com sentido significativo para determinadas culturas. A leitura crítica das imagens explora valores socioculturais e pode ser feita através da identificação, descrição, classificação e interpretação do tema das representações figurativas, e as fotos são elementos importantes nesse processo de recuperação e desvendamento dos aspectos de uma sociedade e de seus valores.

O JM tem nos brindado, aos domingos, com uma série de cartões fotográficos históricos de Uberaba, irrigando, assim, a cultura e possibilitando o seu uso em sala de aula, como design em camisetas e postais, colecionar, guardar. Várias fotos já foram publicadas e distribuídas nos encartes do Jornal. A iniciativa é ótima e os textos que historiam o objeto fotografado são de qualidade ímpar.

A parceria cultural entre o JM e o APU nos permite conhecer um pouco mais do processo histórico uberabense e desperta a todos para o valor cultural.

Depois, veio a lamúria, como havia dito anteriormente, porque a nossa cultura absorve vagarosamente os conceitos socioeconômicos e ambientais e, continuamos realizando o legado da destruição.

A inexistência da árvore da Gameleira traduz as estratégias de desenvolvimento urbano com a ausência de concepção de valores. Entretanto, as publicações dessas fotos têm sido manancial para a reflexão e um olhar para o futuro, permitindo-nos interrogar que tipo de sociedade e de relações estamos estruturando como legado.

Depois, passei pela tal Praça da Concha Acústica. Ela é de uma secura de mau gosto e de pouca praticidade. Quando não existiam locais de apresentações artísticas em Uberaba, talvez ali tenha sido um local útil, mas, definitivamente, não é um espaço agradável e racional para o entretenimento.

Tomara que um dia ela seja remodelada, como proposta reivindicativa da sociedade que clamou pelo verde em substituição ao concreto.

Texto: Professor Gilberto Caixeta

Publicado originalmente no Jornal da Manhã – 04/09/2008

terça-feira, 2 de setembro de 2008

UBERABA E O PODER LEGISLATIVO - DE 1837 AOS DIAS ATUAIS

Durante sua gestão ocorre, pela Associação abolicionista, a edição das cartas de liberdade aos escravos.

Pedro Floro era comerciante e, no final de seu mandato, em 1887, a região de Uberaba deixou de ser conhecida como Sertão da Farinha Podre devido à chegada da Companhia Mojiana e ao progresso que ela trouxe. Diversas estradas de rodagem ligando os povoados e os municípios foram construídas, a linha telegráfica atravessou a margem direita do Rio Grande, percorrendo a região, já conhecida como Triângulo Mineiro, chegando até o Paranaíba, numa distância de 400 quilômetros. Até os nomes de órgãos da imprensa, como os jornais Ecos do Sertão e O Paranaíba foram substituídos por O Triângulo.

Nessa época, o Porto de Ponte Alta encurtava a distância entre o mercado consumidor de Mato Grosso (hoje, Mato Grosso do Sul) e a região produtora de São Paulo e Santos, pois a cidade funcionava como um “entreposto comercial” de gêneros alimentícios e outros produtos que aqui chegavam em carros de bois e tropas de mulas. No ano de 1884, surgiu na cidade uma empresa fluvial para o comércio de sal, adquirido em Santos e transportado até o Rio Pardo pelas companhias Paulista de Estrada de Ferro e Inglesa e em embarcações até o Porto da Espinha, onde ficava armazenado.

Em 1889 os trilhos da Mojiana por aqui se estabeleceram e incrementaram as atividades comerciais no município.

LEITURAS INTERESSANTES

VILA DOS CONFINS

O escritor Mário Palmério nasceu em Monte Carmelo em 1916, estudou em Uberaba e dedicou-se ao magistério.

Em 1945, construiu o edifício do Colégio do Triângulo Mineiro e, em 1947, a Faculdade de Odontologia do Triângulo Mineiro, primeiro passo para a transformação de Uberaba em cidade universitária.

No ano de 1956, publicou o romance Vila dos Confins e, em 1968, tornou-se membro da Academia Brasileira de Letras.




A escritora Rachel de Queiroz, ao prefaciar a obra, ressalta que o livro traz aquele rio, aquela mata, aqueles bichos, aqueles caboclos, aquelas histórias da caça e pescaria, que parecem histórias de mentiroso, de tão saborosas. (30 – 10 – 1956).

O romance caracteriza o cerrado, a criação do zebu, a caça, a pesca, os viajantes e o processo eleitoral no interior de Minas. Um dos personagens, Xixi Piriá, representa o mascate – recebido nas fazendas da região, na época – entregando tecidos, perfumes, relógio, recados, bilhetes... A maneira narrativa de Mario Palmério nos faz compartilhar de cada alegria vivida com a sua chegada.

Além do mascate, aparecem Dr. Paulo (o político em campanha), Jorge Turco, dono da “venda” e muitos outros encontrados pela estrada salineira (rota que trouxe o desenvolvimento o interior mineiro). Várias são as palavras e expressões que registram nosso regionalismo: que nem estorvo em boca de bueiro, murundu, cafua, azaralhou os olhos embaçados e meio arregaçou as pelancas da boca, ficar um molambo...

A cena em que o personagem do político passa mal, é descrita com tanto realismo que, ao ler, sente-se o cheiro de casa e a agonia do personagem.

O tema, tratado com maestria por Mário Palmério, remete cada leitor a uma discussão pertinente aos tempos atuais e presente também naquela época: ...a eleição vem aí, e o título de eleitor rende a estima do patrão, a gente vira pessoa...

A história, a trajetória de um político em processo eleitoral, identifica pessoas, lugares e atividades econômicas, como o garimpo, as fazendas de criação, os causos, os medos (caboclos).

Leitura que vale a pena!


Texto: Marise Soares Diniz

Outras obras do acervo: Chapadão do Bugre (1965)