terça-feira, 18 de novembro de 2014

20 DE NOVEMBRO: DIA NACIONAL DA CONSCIÊNCIA NEGRA

“Ponha ouvido, orelha, língua boca na cara da consciência. (...) Ponha oxigênio e gás carbônico no ar de consciência” (Arnaldo Antunes)


Em 20 de novembro é celebrado o dia da “Consciência Negra”. O momento tem como referência a morte de Zumbi ocorrida em 1695, um marco na memória da resistência negra à escravidão no Brasil que por mais de um século manteve incólume o Quilombo de Palmares em Pernambuco até 1710. Diversos municípios brasileiros decretam feriado durante esta data, onde movimentos sociais, a imprensa, escolas, entidades e determinados intelectuais valem-se da ocasião para discutir a inserção do negro na sociedade atual, o legado e a identidade cultural brasileira.

Em 1955, na obra “Tristes Trópicos”, o sociólogo francês Levi Strauss constatava que o Brasil se revelava como um “país sem memória”, ao sofrer os efeitos de uma intensa fricção interétnica em contraste com a modernidade avassaladora. Com uma percepção de um “olhar de quem vem de fora” e carrega consigo determinados estereótipos sobre o conceito de nação, essas imagens que pairavam no discurso de Strauss acabaram sendo forjadas durante sua visita ao País nos anos de 1930, constituídas em suma, pela observação das reminiscências de um passado nostálgico, degradadas pela “flecha do tempo” sem nenhum compromisso com as identidades e a memória.

Como Strauss, ao longo da história do pensamento brasileiro, pesaram imagens valorativas e depreciativas sobre o Brasil no discurso de pequenos grupos de letrados, como: literatos, historiadores, antropólogos, sociólogos, jornalistas, médicos, sanitaristas, juristas, políticos, entre outros ao que se pesavam as contradições entre o bucólico x barbárie, a natureza x civilização e o mito das três raças: índios, brancos e negros. Assim posto, esses elementos foram corriqueiramente reportados e cogitados como um dos vieses para explicar as nossas origens, sucessos, insucessos, vícios, subdesenvolvimento, marginalidade, inferioridade ou superioridade racial, atrasos e fracassos.

Sem querer tomar partido desse ou daquele grupo político e sem querer descolar a expressão “um país sem memória” no tempo e no espaço, certos acontecimentos recentes da vida política brasileira em determinados aspectos revelam sob o enfoque de crises, reivindicações, insatisfações quanto aos destinos do País, alguns de nossos dilemas históricos e imagens de um Brasil que em muitos momentos parece querer se camuflar. Essa camuflagem nos é apresentada cotidianamente em discursos de um país em plena integração de seu povo, livre de preconceitos como se a questão do racismo e da discriminação fossem etapas vencidas de um passado remoto. O ideário da “democracia racial” ressoa ainda nos dias de hoje como se o Brasil estivesse à frente de outras nações.  

A tônica do discurso da camuflagem traz uma questão a ela embutida que é a problemática da “amnésia”. Ao se tratar das questões políticas do contexto dos acontecimentos recentes, afloram-se discursos diversificados sobre um mesmo objeto, o que num ambiente democrático sem dúvida é necessário e importante. Por outro lado, a camuflagem é desnudada quando apresentada em análises preconceituosas, em uma vaga noção de nação à defesa de jogos de interesses, que na visão de muitos pretendem dividir a sociedade ao invés de reivindicar valores efetivos a um bem-comum.

Esse fenômeno não se restringe apenas a essas determinadas problemáticas, pois discursos conservadores ganham espaço propondo a necessidade de homogeneizar as diferenças numa fórmula que busca delinear os motivos de nosso atraso. Sendo assim, à medida que crescem os movimentos reivindicatórios, ganham espaço também os seguidores de porta-vozes contra as questões de gênero, religiosa e social, sob o enfoque de discursos moralizantes, sem nexos com a memória, a história do País e até mesmo a ética. Em novas roupagens parecem sopesar como no passado, os ideários de classificação dos “inferiores”, tais como: os preguiçosos, os acomodados, degenerados, materializados ainda nos pobres, negros, índios, nordestinos, homossexuais, desvalidos, marginalizados...

A camuflagem em não nos deflagramos com o nosso passado revela outra face perversa da “amnésia”. Interpretações vazias de conteúdo e sentido trazem a lógica mirabolante que um novo regime autoritário solucionaria todos nos nossos problemas. Para esses, a democracia “é como um feitiço que se voltou contra o feiticeiro”. Relutam em questionar que, por mais que existam falhas, essa é a única via possível para apontar efetivamente nossos problemas de fundos políticos, econômicos, nossas distâncias e diferenças históricas e a reorganização entre o equilíbrio de forças.

Portanto, não nos esqueçamos de que o autoritarismo está arraigado na nossa cultura política ao longo dos tempos e foi uma das fórmulas mais eficazes de calar as vozes daqueles que hoje gritam. São dos resquícios do autoritarismo, que herdamos muitos dos males que prevalecem, como: o privilégio a pequenos grupos, a corrupção, as diferenças sociais antagônicas e a divisão entre os “bons”, seus “amigos” e os “outros”.

É preciso cada vez mais realizar a ocupação de novos espaços e discutir o nosso passado enquanto povo brasileiro, diverso e plural. Dessa forma, é inquestionável a importância do dia da Consciência Negra, contudo mais do que um marco, torna-se emergencial reflexões profundas e novas ações da sociedade naquilo que se pode esperar enquanto uma “consciência” para as questões pertinentes as identidades e as políticas reparatórias. Ainda há um longo caminho a percorrer...

Thiago Riccioppo – é historiador da Superintendência de Arquivo Público de Uberaba - APU e da Associação Brasileira dos Criadores de Zebu - ABCZ; professor na Universidade Presidente Antônio Carlos - UNIPAC/ Uberaba e mestre em História pela Universidade Federal de Uberlândia - UFU.


  Sobre o Dia da Consciência Negra assista este trabalho:



Produzido pelo professor da Universidade Estadual de Londrina – UEL André Fonseca Azevedo da Fonseca, este vídeo recupera pontos importantes da história de lutas dos movimentos negros –  dos quilombos do século XVII ao estatuto da igualdade racial em 2010. É um bom vídeo para ajudar a compreender a importância do Dia Nacional da Consciência Negra. Vejam e compartilhem também! Essa é uma reflexão indispensável a todos os brasileiros.

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