terça-feira, 23 de junho de 2015

Filmes Brasileiros: Porto das Caixas, de Paulo César Saraceni

Por Guido Bilharinho


Cinema é mostrar (revelando) como os seres humanos comportam-se, agem e relacionam-se uns com os outros e como e por que comportamento, ação e relacionamento alteram-se ou alternam-se.

Tudo isso, numa só obra, de uma vez ou apenas um ou alguns desses elementos, elegidos, destacados ou enfatizados no ou do contexto em que se situam e no qual se processam.

O artista é livre para escolher ou optar como lhe aprouver por qualquer dessas variantes e possíveis outras. A questão crucial, no caso, consiste e resume-se na maneira de fazê-lo.

No filme Porto das Caixas (1962), Paulo César Saraceni (Rio de Janeiro/RJ, 1933-2012) focaliza o relacionamento de um casal a partir de sua visceral incompatibilidade.

Paulo César Saraceni, diretor do filme Porto das Caixas, de 1962.
Muita tinta correu e correrá e muitas obras foram e serão escritas sobre o tema. Poucas, porém, tiveram (uma delas, a notável peça A Dança da Morte, 1901, de Strindbergh), ou terão o poder e a propriedade destiladora do fel e da hostilidade que podem marcar a desintegração do mais íntimo dos relacionamentos humanos. Talvez, por isso, quando deteriorado, o mais acerbo e pungente.

Saraceni, sobre argumento do romancista Lúcio Cardoso, baseado em fato real, coloca suas personagens já na última fase do completo degringolamento de sua ligação.

E o que mostra é o reverso da moeda, o oposto de tudo que leva um casal a se associar na mais pessoal e total união possível entre dois seres humanos, já que implica (ou deve implicar) num complexo de sentimentos, emoções e atração mútuas que envolve possibilidades físicas, morais, intelectuais e emotivas manifestadas com a intensidade e qualidade indispensáveis a impulsionar um para o outro, de modo a se necessitarem,  completarem e  bastarem.

Nada há mais cruel, pois, do que casal constituído nesses termos, ou que assim deve ter sido inicialmente constituído, cujo relacionamento deteriore-se a ponto do sentimento amoroso transformar-se em rancor e ódio, a todo momento exteriorizados em indiferença, desprezo e agressões verbais, quando não físicas.

Saraceni, com meticulosidade, paciência e adequação, joga suas personagens no vórtice dessa erupção, sem deixá-las, porém, soltas ou desarticuladas. Com rigor (e vigor) as coloca frente a frente no exíguo espaço de sua pobreza, observando-as destilar o veneno de degradado relacionamento.
Reginaldo Farias e Irma Alvarez em cena do filme Porto das Caixas, 1962.
Não cogita nem se ocupa de sua vida pregressa e nem das causas e do lento processo desse deterioramento. Apanha-o e o articula já no auge de seu desenvolvimento, pejado de crueldade, amargura e hostilidade.

Esse microcosmo convivencial desenvolve-se em ambientação precária e nua de quaisquer atrativos, que, por si e à parte, prefigura drama paralelo que, no tempo e espaço fílmicos, vincula-se à tragédia humana, perfazendo indissociável conjunto de aguda e agressiva aspereza e infelicidade.

A imagem e seu conteúdo amalgamam-se numa mesma e dura matéria para, juntos, comporem atroz quadro de aviltamento das relações humanas.

A feiúra e a aridez dos décors, da paisagem e das locações exteriores acompanham, refletem e compartilham a natureza do drama humano que neles se desenrola. Por sua vez (e aí reside o maior ou o grande mérito da realização), drama destituído de qualquer resquício de espetacularização, já que mostrado na nudez de suas manifestações, tão direta e objetivamente como se fosse (só) o olho da câmera a vê-lo e acompanhá-lo.

Por isso, não só as palavras e diálogos travados entre as personagens são substantivos e essenciais, porém, tudo o mais, desde os décors, os elementos paisagísticos e materiais que os circundam como também seus gestos, postura, atitudes e movimentos, além das expressões faciais e tonalidades vocais.

Filme, enfim, em que até a precariedade infra-estrutural contribui e compõe conjunto para compatilizá-lo com a gravidade do drama humano e seu desenlace.

(do livro Seis Cineastas Brasileiros, Uberaba, Instituto   Triangulino    de    Cultura,    2012)

 Guido Bilharinho é advogado atuante em Uberaba, editor da revista internacional de poesia Dimensão de 1980 a 2000 e autor de livros de literatura, cinema, história do Brasil e regional, entre os quais Personalidades Uberabenses, recém lançado.

segunda-feira, 22 de junho de 2015

Superintendência do Arquivo Público de Uberaba desenvolve projeto com as instituições de ensino

A Superintendência de Arquivo Público de Uberaba desenvolve o projeto “Ações Educativas”, que tem como objetivo viabilizar aos alunos das escolas municipais, estaduais, particulares o conhecimento da importância do acervo documental da história de Uberaba para a pesquisa. Com isso está divulgando a história do município aos alunos e também capacitando os professores para o conhecimento do acervo documental, a importância da Superintendência de Arquivo Público de Uberaba na preservação documental e na divulgação da história do município e região.


No primeiro semestre do ano de 2015 foram atendidos 700 alunos do ensino fundamental das seguintes instituições:

  • Escola Estadual Fidelis Reis;
  • Escola Municipal Geni Chaves; 
  • Escola Municipal Gastão Mesquita,
  • Escola Particular Colégio Jean Christophe;
  • Escola Particular Colégio Diocesano Marista;
  • Escola particular Colégio Nossa Senhora das Dores.

O Projeto Ações Educativas viabiliza o conhecimento da história de Uberaba estimulando nos alunos a consciência crítica para que eles se tornem cidadãos mais conscientes.




quinta-feira, 18 de junho de 2015

Comissão Permanente de Avaliação de Documentos se reúne e estabelece decisões


Em 16/06/2015, realizou-se na sede da Superintendência de Arquivo Público de Uberaba a segunda reunião do ano da Comissão Permanente de Avaliação de Documentos – CPAD, instituída pelo art. 4º, § 1º, III, da Lei nº 10.082, de 30/11/2006, regulamentada pelo Decreto 2349/2006, dando continuidade na otimização dos trabalhos de gestão de documentos em prol da racionalização dos espaços físicos e presteza na agilidade na recuperação dos documentos e informações.

O objetivo da reunião consistiu em analisar as propostas de inclusão das séries documentais “Processo Administrativo de Imunidade Tributária” e “Expediente de Solicitação de Autorização de Uso de Equipamentos Culturais”, no Plano de Classificação e Tabela de Temporalidade, apresentadas pelas Comissões Setoriais Especializadas em Finanças e Cultura e Turismo.  Estiveram presentes a presidente da Comissão, Marta Zednik de Casanova, Júlio César Cândido, Chefe da Seção de Protocolo e Comunicação, Raquel Blancato, representando o Departamento de Arquivo Histórico, Edguimar Antonio, do Depto de Gestão de Documentos e Arquivo Administrativo, Fernanda Beatriz, procuradora do Município e Poliana Helena de Souza, assessora jurídica da Secretaria de Administração. Vale lembrar que na primeira reunião do ano ocorrida em 16/01/2015, a Comissão discutiu a necessidade de desenvolver no Sistema de Informações Públicas – SIP - uma ferramenta para o cadastro de todos os documentos produzidos e recebidos pelos órgãos da administração direta e indireta do Município, tais como: correspondências (ofícios, memorandos, cartas etc.), relatórios, projetos, atas de reunião, formulários, dentre outros. O objetivo da ferramenta é melhorar o controle de todo o ciclo de vida da documentação que circulam pelos órgãos da Prefeitura, desde a produção até a destinação final, bem como garantir a recuperação das informações com eficácia e presteza. No encontro de hoje a Comissão deliberou pela aprovação integral da proposta apresentada pela Comissão Setorial Especializada em finanças. Quanto à proposta apresentada pela Comissão da área de Cultura e Turismo, a CPAD, adotando critérios jurídicos, julgou o prazo sugerido muito curto e decidiu pela não aprovação da proposta e ainda estabeleceu um prazo de 05 anos para a guarda dos “Expedientes de Solicitação de Autorização de Uso de Equipamentos Culturais”.

Em Uberaba, a política de gestão sistêmica de documentos e informações municipais foi implantada a partir da Lei Municipal 10082/2006. A referida Lei definiu gestão de documentos como um “conjunto de ações articulado de planejamento e gerenciamento por uma tecnologia de informação que contempla o ciclo integral de documentos e informações, o contexto da produção, avaliação, tramitação, organização, acesso e destinação final de documentos arquivísticos municipais”. Define ainda a Lei que a coordenação, implantação, gerenciamento e a normatização da GSDIM são de competência da Secretaria de Administração, hoje da Secretaria de Governo, através da Superintendência de Arquivo Público de Uberaba, com a participação simultânea das secretarias, autarquias, fundações e empresas de economia mista.


terça-feira, 16 de junho de 2015

Canal no Youtube do professor André Azevedo sobre Educação, Comunicação e Ciências Humanas



Acompanhe o interessantíssimo canal do professor André Azevedo sobre Educação, Comunicação e Ciências Humanas. Os vídeos são concebidos para dialogar com estudantes universitários, alunos de ensino médio, jovens pesquisadores, professores e todas as pessoas criativas e curiosas, apaixonadas por novos conhecimentos e interessadas em conhecer o pensamento de autores provocativos. Atualmente o canal desenvolve a série Pedagogia da Autonomia: saberes necessários à prática educativa, para apresentar os conceitos fundamentais de Paulo Freire.

Você pode se inscrever no canal, acessando o endereço: http://goo.gl/c8umi9

Os vídeos da série Pedagogia da Autonomia, de Paulo Freire, são publicados toda segunda-feira, às 10hs, e ficam disponíveis sempre de forma aberta e gratuita.


 Como aperitivo, disponibilizamos o capítulo 1 - Não há Docência sem Discência - da série Pedagogia da Autonomia, de Paulo Freire. Não perca!



André Azevedo da Fonseca é doutor em História (Unesp) com pós-doutorado pelo Programa Avançado de Cultura Contemporânea (PACC/UFRJ). É professor e pesquisador no Centro de Educação, Comunicação e Artes (CECA) da Universidade Estadual de Londrina (UEL). É coordenador do Grupo de Pesquisa Imaginários na Comunicação Visual (Imagicom) http://www.uel.br/grupo-pesquisa/imagicom
E apaixonado pelos valores da curiosidade, da criatividade e da imaginação! 

Texto: Thiago Riccioppo


Filmes Brasileiros: CLARO, de Glauber Rocha

Por Guido Bilharinho

A trajetória artística e pessoal de Gláuber Rocha é conhecida por todos que se interessam pelo cinema brasileiro.

Até 1969, ano em que realizou O Dragão da Maldade Contra o Santo Guerreiro, sua filmografia fundamentou-se, excetuado o filme Câncer, em problemática ora nordestina ora nacional, destacando-se artisticamente como uma das mais expressivas do cinema por força do vigor da narrativa, da criatividade formal e da clarividência temática.

Após desenraizado de suas fontes primordiais, já que exilado na Europa, os filmes que fez carecem de melhores fundamentação e sistematização, conquanto autorais, condição de que não abdicou.

A partir daí tais filmes não mais apresentam linha expositiva lógica e concatenada, mas, blocos fragmentados, no interior dos quais desenvolve-se sincopadamente o fio dramático.
Montagens de cenas com o cineasta brasileiro Gláuber Rocha. Fonte: laparola.com.br
Em Claro (1975) esse processo, iniciado em O Leão de Sete Cabeças (1970), radicaliza-se, esvaindo-se a narrativa numa série de situações contextualmente autônomas, apenas ligadas pela presença e participação da protagonista, nem que seja somente como ouvinte das alocuções de outras personagens. 

Essa estrutura, descomprometida com qualquer trama e sua coerência, permite livre espaço/tempo para o exercício arbitrário de suas razões. Porque o filme, que de ficção só possui duas ou três sequências, resume-se, além de mostrar a cidade de Roma, onde transcorrem as filmagens, na verbalização por eventuais figurantes de ideias e ideais políticos do cineasta.

Não pode, por isso, ser considerado obra ficcional, mas, documental, que ora capta diretamente flagrantes da paisagem urbana da cidade e seus habitantes, ora estadeia situações, em que as personagens, com uma ou outra exceção (a exemplo da cena de Mário e Carlos no quarto enquanto se vestiam) não se relacionam efetivamente, limitando-se apenas à exposição de discursos vinculados à história, à política ou à Roma.

Cena do filme Claro, de Gláuber Rocha, 1975.
  
Claro significa – e isso claramente – esgotamento da capacidade elaborativa e formulatória de Gláuber em termos ficcionais, particularidade notada desde O Leão de Sete Cabeças. Ao invés, pois, de estruturação de fatos, relacionamentos, dramas, tragédias ou mesmo comédias, tem-se montagem fragmentária de circunstâncias (apenas algumas) e de manifestações verbais, diretas ou dialogais, de proposições e teses.

No caso específico desse filme, nada que ensaio escrito não pudesse veicular com mais objetividade e proveito. Vale, no entanto, pela eficácia dos décors de interiores esteticamente montados e das locações externas, cuja beleza decorre tanto do que contêm quanto de sua imagem cinematográfica.

A flexibilidade e propriedade do posicionamento e manejo da câmera só podem ser feitas, como o foram, por grande artista e cineasta, valorizando cada tomada e cada cena, todas impregnadas de efetivo requinte visual.

Em consequência, independentemente do que as personagens dizem, mas não do que externalizam facial e corporalmente, o filme configura obra cinematográfica que dispensa o discurso, mas não o som, a música, os ruídos. O exemplo emblemático dessa circunstância espelha-se em três momentos: a longa sequência inicial, na qual a protagonista movimenta-se e contraponteia indecifrável canto ou pregão árabe, a participação do próprio Gláuber logo em seguida, emitindo frases também indecifráveis e, ainda, ao final, quando adentra bairro suburbano de Roma e dialoga com a população. Nada se entende do que se diz. E não faz falta.

(do livro Seis Cineastas Brasileiros. Uberaba, Instituto Triangulino   de   Cultura,   2013 )

Guido Bilharinho é advogado atuante em Uberaba, editor da revista internacional de poesia Dimensão de 1980 a 2000 e autor de livros de literatura, cinema, história do Brasil e regional, entre os quais Personalidades Uberabenses, recém lançado.