terça-feira, 22 de novembro de 2016

Colonização do Triângulo Mineiro: Origens do Desemboque

Por Thiago Riccioppo *
       Marcelo de Souza Silva *

           O antigo sertão da Farinha Podre, onde se formou o município de Uberaba, compreende toda a área que abrange o ângulo formado pelo encontro dos rios Grande e Paranaíba, no sudoeste do Estado de Minas Gerais, limitada pela Serra da Canastra e Mata da Corda. Este território é hoje ocupado pelas micro-regiões do Triângulo Mineiro e Alto Paranaíba, com a latitude 19º 45’ 27” e a longitude 47º 55’ 36”. Na vasta área de 4 524 Km, o perímetro urbano uberabense ocupa atualmente 260 Km2 . A altitude é de 764 metros. Está localizada num ponto equidistante das principais capitais – em média 500 km – Belo Horizonte, São Paulo e Brasília. Sua localização geográfica tem profunda ligação com a maneira como se deu a ocupação da região e a posterior formação do município. 

            A história da ocupação do Triângulo Mineiro é marcada pelo conflito. Nos seus primórdios, antes da chegada dos bandeirantes, os nativos que aqui viviam eram membros da tribo dos Tremembés. A hipótese mais provável é que estes índios vieram do norte e ocuparam a região até o início do século XVIII, momento em que foram expulsos pelos Caiapós, nação está  encontrada no momento da colonização da região. Segundo o memorialista Edelweiss Teixeira,[1] o domínio desta nação ia desde Itu/SP a Cachoeira de Urubupungá, passando pelo Triângulo Mineiro até Vila Boa de Goiás, rumo aos rios Araguaia e Tocantins. 

            No século XVIII, a região do Triângulo Mineiro pertencia à província de São Paulo e a sua ocupação está inserida no processo de interiorização da exploração econômica da colônia, ou seja, num primeiro momento, as expedições, oficiais e não oficiais, vinham com o objetivo principal de capturar índios.  Com a descoberta de ouro na província de Goiás, e depois em Cuiabá, começaram os esforços por melhorar o caminho ligando São Paulo às minas. Segundo Luís Bustamante Lourenço,[2] foi entre 1722 e 1725 que os sertanistas paulistas, sob a liderança de Bartolomeu Bueno da Silva, o lendário Anhanguera, descobriram as minas de Goiás e, desta feita, formaram-se arraiais e vilas naquela região.  O caminho, uma linha reta, entre São Paulo e as minas goianas, foi estabelecido por decreto régio em 1730, mapeadas atualmente graças aos relatos de viajantes[3] que passaram pela região já no século seguinte. 



Figura 1 – Estrada do Anhangüera ou dos Goiases (1736). Apud LOURENÇO, op. cit, p. 35.

            Neste período inicial de colonização de Goiás – quando o Triângulo passou a pertencer a esta província, os índios Caiapós, que povoavam aquela região ameaçavam a estabilidade dos arraiais de ouro e o tráfego pela estrada, promovendo ataques constantes aos viajantes. Em vista destes problemas, em 1749, a Coroa Portuguesa decidiu guerrear contra estes índios e, para aumentar a segurança da estrada, o governo da capitania goiana contratou os serviços do sertanista paulista Antônio Pires de Campo, que partiu para a região acompanhado de 500 índios bororos, numa campanha de extermínio e aprisionamento dos caiapós que durou até 1750. Sob ordens do governador paulista fundou, na região que passou a ser conhecida desde então com Sertão da Farinha Podre, aldeamentos protegidos por seus índios bororos.



Figura 2 – Distribuição da população indígena em terras aldeanas do Sertão da Farinha Podre, em 1821. Apud: LOURENÇO, op. cit., p. 61.


            Os aldeamentos tinham características diferentes dos demais aglomerados populacionais típicos da colônia. Lourenço aponta estes últimos podiam ser considerados como proto-urbanos, devido tanto às atividades que ali se desenvolviam, como o comércio, quanto pelo regime jurídico dos moradores. Os aldeãos não eram escravos e nem homens livres, era-lhes imposta a condição de morar naqueles lugares, explorados pelo administrador do aldeamento. A aculturação e a submissão dos índios aos interesses coloniais era uma das funções da formação de aldeamentos. Contudo, nos aldeamentos do Sertão da Farinha Podre, a população indígena era reduzida e o processo de aculturação estava bastante avançado. Dessa maneira:

Neles a agricultura de subsistência era a principal atividade econômica dos índios, embora a caça e a coleta ainda compusessem parte de sua dieta. As famílias viviam juntas no núcleo e, diariamente, os homens se deslocavam para os campos de cultivo, enquanto as mulheres permaneciam em suas casas, envolvidas no trabalho do artesanato e no beneficiamento de produtos agrícolas, numa divisão sexual do trabalho já tipicamente luso-brasileira.[4]

            Os índios viviam, portanto, um regime de trabalho compulsório, mas que não se encaixa nos termos clássicos da agricultura colonial – marcada pela escravidão, latifúndio e produção de gêneros para a exportação. Sendo assim, podemos aferir que a vida nos aldeamentos do Sertão da Farinha Podre, em seus momentos iniciais, obedecia ao objetivo de simplesmente conservar a estrada para as minas goianas. 

            Nos anos subsequentes à instalação das aldeias, transformações na economia mineradora de Minas Gerais, e a descoberta de ouro e diamantes no Sertão da Farinha Podre (em um lugar conhecido como Desemboque), começaram as imigrações para a região, principalmente daqueles que moravam nas imediações das vilas produtoras de ouro na província mineira. Mais uma vez Lourenço nos esclarece:

Tal imigração, contudo, deu-se em proporções mineiras e não paulistas, isto é, contando com uma população migrante muito maior. Um grande (e pouco estudado) movimento centrífugo de população, talvez o maior até então visto, tendo como área de repulsão e região mineradora da capitania de Minas Gerais, iniciou-se a partir da década de 1760 em direção a todas as regiões circunvizinhas.[5]

            Portanto, diferentemente do que a historiografia regional aponta e, também, contrariamente ao que prega o imaginário coletivo do povo do Triângulo, esta região, apesar de formação específica no sentido de estar ligada às províncias paulista e goiana, tem sim também uma profunda ligação com os processos históricos desencadeados pelo enfraquecimento das regiões auríferas na província mineira, deixando claras, então, a vinculação cultural e histórica do Triângulo no conjunto das tradições e ao próprio “jeito de ser” do mineiro.

            Outro fator de povoamento da região foi a descoberta de zonas auríferas da região do Desemboque, que constituiu o primeiro núcleo, fora das aldeias, de colonização do Sertão da Farinha Podre, servido de dispersor para as futuras vilas de Araxá, Uberaba, Prata e Patrocínio. Os dois primeiros centros administrativos desta região, segundo Sonia Fontoura,[6] foram Desemboque, em 1776 e Araxá, em 1811, a que era submetida Uberaba.. Apesar disso, não foi somente devido ao ouro que se deve a formação do julgado do Desemboque. Havia uma questão relativa à jurisdição paroquial que, hipoteticamente, determinou o crescimento acelerado da região. O padre de Desemboque, Marcos Freire de Carvalho, abriu uma picada (espécie de estrada) até Santa Cruz, na capitania de Goiás e o Bispo daquela região reconheceu, dessa forma, aquela região como parte de sua jurisdição. A ânsia por escapar dos desígnios do governo mineiro por parte dos habitantes do Desemboque, segundo Lourenço,[7] pode ter ligação com o fato de o governador da província mineira, Luís Diogo, em 1765, ter publicado uma derrama de 13 arrobas, o que teria provocado uma “fuga” de mineiros rumo ao Desemboque para escapar dela. Dessa forma, se deu em Desemboque um povoamento acelerado, e a região se tornou zona de intenso contrabando do ouro proveniente das Gerais. Assim, não se pode estabelecer o quanto a relevância do povoado de Desemboque se deve ao ouro ali descoberto ou ao fato de ter se conformado uma possibilidade de escape das rígidas deliberações mineiras, uma zona aurífera em declínio.


Figura 3 – Mapa dos povoados surgidos no Oeste Mineiro de 1750 e 1800, principais picadas e caminhos. Apud, LOURENÇO, op. cit., 78. 
            
A primazia do Julgado do Desemboque foi anulada com a anexação da região do Sertão da Farinha Podre a Minas Gerais. Em 1816, sob a jurisdição Mineira, a principal atividade do Desemboque,[8] o contrabando, ficou prejudicada e, assim, outras regiões do Triângulo, especialmente próximas à antiga estrada do Anhanguera, ganharam sua vez no povoamento e exploração.
          

[1] TEIXEIRA, Edelweiss. O Triângulo Mineiro nos Oitocentos: séculos XVIII e XIX. Uberaba: Intergraff Editora, 2001, p. 32.
[2] LOURENÇO, L. A. B. A oeste das Minas: escravos, índios e homens livres numa fronteira oitocentista. Triângulo Mineiro (1750-1860). Uberlândia: EdUFU, 2003. 
[3] Entre eles Auguste de Saint-Hilaire, Eschwege e Luís D´Alincourt.
[4] LOURENÇO, L. A. B, op. cit., p. 51. 
[5] Idem, ibidem, p. 59.
[6] FONTOURA, Sonia Maria. A invenção do inimigo: Racismo e Xenofobia em Uberaba 1890-1942.. Franca: Unesp, 2001. Dissertação (mestrado).
[7] LOURENÇO, L. A. B. op. cit., p. 79 et. seq.
[8] Segundo, mais uma vez, as hipóteses de Lourenço (2002).


* Thiago Riccioppo - Mestre em História pela Universidade Federal de Uberlândia - UFU, historiador da Superintendência do Arquivo Público de Uberaba e Gerente Executivo do Museu do Zebu.
*Marcelo de Souza Silva - Doutor em História pela Universidade Federal do Rio de Janeiro - UFRJ e professor na Universidade Federal do Triângulo Mineiro - UFTM.


Imagens do Desemboque realizadas na década de 1970. Fonte: Superintendência do Arquivo Público de Uberaba





















          

Projeto "Ações Educativas Itinerante" da Superintendência do Arquivo Público de Uberaba é realizado com 200 alunos

    O Projeto Ações Educativas Itinerante desenvolve um trabalho de informação e divulgação sobre a importância e competências de um Arquivo Público e a evolução histórica da cidade e do patrimônio cultural junto às escolas das redes pública e privada .

    Nos dias 17,18 e 21 de novembro, cerca de 200 alunos foram atendidos no  Sesc Uberaba com aulas ministradas pela professora Luzia Rocha .

    O envolvimento dos alunos e professores contribuiu de maneira significativa para que essa ação pedagógica atingisse seus objetivos com sucesso.

     A Superintendente do Arquivo Público de Uberaba, Marta Zedinick de Casanova, agradece ao Sesc pela oportunidade de divulgar a história de Uberaba e região.


Veja nas imagens como foram as atividades realizadas:









sexta-feira, 18 de novembro de 2016

AS QUATRO PARTES DO FILME

Guido Bilharinho


A semelhança de um fruto, por exemplo, o filme apresenta, num certo sentido, quatro partes principais: envoltório ou casca, membrana ou película, polpa ou matéria e, finalmente, o núcleo (conteúdo e forma).

No caso, o envoltório ou casca consiste na infraestrutura de produção convocada e posta a serviço de sua realização, permitindo ao diretor a organização e condução da narrativa, fornecendo-lhe meios e modos para que seja efetivada e transmitida com a maior perfeição possível.

A membrana ou película (significando a fina pele que entremeia a casca e a polpa, mantendo-as unidas), prefigura-se na competência técnica do diretor e demais membros da equipe.

A polpa ou matéria compreende a estória, os fatos e a ação. À primeira vista, segundo o entendimento corrente, seria o fator principal de qualquer obra de ficção.

No entanto, simples envoltório, apenas representa, como no símile natural, elemento que compõe o filme, independentemente da casca e até da película, solidificando e mantendo a polpa agregada.

A casca, não obstante sua função, pode estar solta e ser até extraída ou retirada que o fruto permanece unificado, íntegro.
Já, a precariedade da membrana ou película acarreta automática atrofia do núcleo.

Quer isso dizer que tanto a competência e a técnica quanto a ação e os fatos, por melhores sejam, ainda não configuram a obra ou filme, mas, suas partes externas, com funções específicas e relativa importância.

O que se deve considerar, segundo Hegel, não é a estória, mas, o aqui denominado núcleo (concepção e expressão), ou seja, seu sentido, significado e elaboração formal, sintetizando continente e conteúdo internos.

O que distingue filme comercial de filme de arte é apenas sua quarta parte. As demais, por alheias ao específico artístico, não têm o condão de diferençar, qualificar ou desqualificar a realização, atribuindo-lhe essa ou aquela categoria.

Em consequência, pode-se ter filme competente e seguramente dirigido, tecnicamente perfeito, contando com entrecho repleto de peripécias, intrigas, ação, lances dramáticos ou fulminantes, hábil e coerentemente narrados, trançados ou entrançados, mas que não seja arte, não atingindo o grau, o nível e as condições próprias, necessárias e indispensáveis a essa condição.

Ou seja, seu conteúdo é vazio de sentido, de verdade humana e carente de sutileza, perspicácia e tratamento sofisticado.

Ao contrário, pois, da percepção corrente, na hipótese quatripartite considerada, o núcleo perfaz todo o complexo autoral e unitário que engloba desde o entendimento do mundo até a maneira (ou forma) de conduzir o drama humano enfocado e de utilizar a linguagem cinematográfica.

Constitui, pois, concepção unitária e ao mesmo tempo abrangente do que seja (ou deva ser entendido) como núcleo ou cerne de qualquer obra ficcional, independentemente da arte em que se manifeste, seja literatura (que inclui o texto teatral), seja cinema.

Esse entendimento do fenômeno ou prática ficcional faculta sua compreensão, análise e avaliação, classificando-o ou desclassificando-o sob o ponto de vista artístico.

Mesmo que se não o faça de imediato, consciente e eficazmente (por meio da crítica), o passar dos seres humanos pelo tempo encarrega-se de separar uns e outros ou uns dos outros, relegando ao oblívio os que não atingiram o status artístico, condenando-os ao desaparecimento.

(do livro inédito Ficção e Cinema)

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Guido Bilharinho é advogado atuante em Uberaba, editor da revista internacional de poesia Dimensão de 1980 a 2000 e autor de livros de Literatura (poesia, ficção e crítica literária), Cinema (história e crítica), História (do Brasil e regional).

terça-feira, 1 de novembro de 2016

Filmes do Irã: A MAÇÃ - As Situações e Suas Circunstâncias

Por Guido Bilharinho*




Uma das particularidades mais acentuadas, senão a mais reiterada de todos os possíveis e variáveis aspectos a serem considerados no cinema iraniano contemporâneo, é a eleição da temática familiar.

A abordagem das situações e suas circunstâncias concentra-se geralmente num acontecimento específico, problematizado ficcionalmente. Essa orientação possibilita extremada contenção fática, redundando em decorrente economia de meios e modos.

Se a primeira condição permite a viabilização cinematográfica dados seus baixos custos, a segunda restringe seu alcance formal e também técnico, embora este, do ponto de vista cultural e artístico, seja secundário, por instrumental.

Já no que tange à forma, a limitação atinge o cerne do fazer artístico, daí decorrendo, como vem acontecendo nessa filmografia, com algumas exceções, a prevalência da estória sobre a elaboração artística, em descumprimento à sua regra básica, que é sua razão de ser, isto é, a produção de beleza para atendimento do prazer estético, a mais alta consecução da inteligência e sensibilidade humanas.

Na ficção, que é o caso, sobreleva ainda seu urdimento, conteúdo e desdobramento, na apreensão e respeito às verdades da natureza humana.

Se no primeiro caso, o filme A Maçã (Sib, Irã, 1998), de Samira Makhmalbaf (1980-), deixa de atender aos requisitos mais imperativos da formalização artística, no segundo alcança o desiderato a que se propôs de construção e exposição de situação humana e familiar específica.

Se essa característica impõe-se desde logo e em todo seu decorrer, não é ela propriamente que deve ser notada e realçada, mas, sim, o depuramento com que se desenvolve e a espontaneidade e autenticidade demonstradas, que emocionam e encantam.

O drama familiar focalizado forma cosmologia peculiar, em que seus elementos constitutivos (casal e duas filhas gêmeas), orbitam em coordenadas próprias, perfeitamente entrosadas, até que a interferência do mundo exterior denuncia sua anormalidade.

A partir daí, a ação reparte-se em pelo menos dois níveis distintos, que se comunicam e se influenciam, determinando alteração no conspecto sedimentado. O núcleo familiar sofre, pois, acentuada mutação sob a ação externa, obrigando-o a sair de seu enclausuramento e a contactar e relacionar-se com o mundo, o outro elemento dessa confluência de situações e ações.

Além da delicadeza e sutileza com que se processa essa etapa da ação fílmica, ressalta-se a poetização de atos, gestos e do descarnado décor, em procedimento imagético que os valoriza para além da vizualização direta e imediata.

À frente da imagem não está somente o olhar mecânico da câmera, porém, o olhar humano e sensível do artista, atingindo o clímax na cena final, emblemática, que se descurada da estetização da imagem e da composição de sua sucessividade, não olvida a elaboração dos conteúdos que viabiliza.

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Guido Bilharinho é advogado atuante em Uberaba, editor da revista internacional de poesia Dimensão de 1980 a 2000 e autor de livros de Literatura (poesia, ficção e crítica literária), Cinema (história e crítica), História (do Brasil e regional).