quarta-feira, 1 de março de 2017

Formação e ocupação do território: A Freguesia de Santo Antônio e São Sebastião de Uberaba

Por Thiago Riccioppo e Marcelo de Souza Silva*


Para entender a formação da Freguesia de Santo Antônio e São Sebastião de Uberaba é necessário uma breve explicação a respeito do local exato onde ela se instalou. Com a expansão das fronteiras de exploração a oeste do Desemboque, em 1806, o sertanista José Francisco de Azevedo instalou um pequeno núcleo colonial nas cabeceiras do Ribeirão do Lageado (dos Ribeiros). Este núcleo era formado por algumas dezenas de cabanas habitadas por colonizadores emigrados do Julgado de Nossa Senhora do Desterro do Desemboque. Os índios aldeanos, por sua vez, viviam às margens do córrego dos Lages, na aldeia conhecida como Uberaba Falsa.[1] O núcleo de colonizadores, que distava cerca de 15 km da aldeia, ficou conhecido como Arraial da Capelinha (ou Lageado), sendo ali instalada por invocação de Santo Antônio e São Sebastião.


                                                                                     Figura 1. Fonte:Lourenço, 2002

Segundo Fontoura, em 1809, o Sargento-mor Antônio Eustáquio da Silva Oliveira, obteve o título de Regente e Curador dos índios do Sertão da Farinha Podre. Desta feita, o dito sargento-mor Antônio Eustáquio realizou algumas explorações na região, entre os anos de 1809 e 1812, juntamente com alguns dos imigrantes geralistas,[2] os quais se estabeleceram fazendas, atraídos pelas notícias de alta fertilidade das terras. Lourenço aponta para a importância das redes de parentesco para a ocupação das terras a oeste do Desemboque. O sargento Eustáquio (ou Major Eustáquio, como ficou conhecido) recebeu seu título de curador devido a influências de seu irmão e, assim como ele, várias outras famílias, que posteriormente se configurariam como relevantes no contexto social do município de Uberaba, vieram à região.



Esses fazendeiros, muitas vezes, já traziam alguma escravaria, recebida de herança, mas a regra era que geralmente não tinha muitas posses. Por isso, desde o início, dada a dificuldade inicial de comprar escravos, esses homens se preocupavam em ocupar suas fazendas com posseiros pobres (agregados), transformados, assim, num campesinato dependente. [3]



Segundo Pontes,[4] no ano de 1806, o major Eustáquio visitou o núcleo dos sertanistas e notou a falta de recursos naturais que pudessem garantir o confortável estabelecimento e crescimento do povoado. Por isso, ele teria se voltado às terras aldeanas, na margem direita do Córrego dos Lages, e ali construiu uma fazenda.[5]  Algum tempo depois, a cerca de três quilômetros dali, ainda às margens daquele córrego, ele construiu uma residência,[6] usada como retiro, e que deu origem ao lugar conhecido por Paragem de Santo Antônio.




A partir da construção deste retiro do Major, muitos fatores levaram à migração dos moradores do Arraial da Capelinha e outras regiões para aquele lugar. Ainda de acordo com Pontes, a influência do Major Eustáquio, seu crescente poder nos negócios públicos, e a conseqüente posição social elevada, atraiu os moradores daquele povoado para junto de seu retiro. Além desse motivo, podemos destacar outros como a proteção promovida pelo Major e, acima de tudo, as melhores condições naturais existentes no local por ele estabelecido. Esse foi, pois, o núcleo que originou a cidade de Uberaba, descrito pelo viajante Auguste de Saint-Hilaire em 1819:


O arraial é composto de umas trinta casas espalhadas nas duas margens do riacho (Córrego da Lage) e todas, sem exceção, haviam sido recém construídas sendo que algumas ainda estavam inacabadas quando ali passei. Muitas delas eram espaçosas e feitas com esmero (...). Os habitantes do lugar estavam tentando conseguir com que o Governo Central elevasse o arraial a sede de paróquia.[7]





Figura 2 – “O patrimônio de uma capela se constitui por entre as sesmarias, contribui para o seu sustento, possibilita o acesso a terra.” A primeira capela de Uberaba foi erigida nas margens do Córrego Lageado [onde se estabeleceram os sertanistas que vieram com José Francisco de Azevedo] com o Orago de Santo Antônio e São Sebastião. “A Capela acolhe moradores em pequenas porções de uma gleba. Torna-se instrumento de urbanização e cria uma nova paisagem”. Por volta de 1815 a 1817, em Uberaba, a população gradativamente, transferiu-se para as proximidades do córrego da Lage, onde já havia um pequeno número de moradores, trazendo um Orago de Santo Antônio e São Sebastião para uma capela próxima. (adaptação de MARX, Murilo, Cidade no Brasil: terra de quem?, São Paulo: Edusp, 1989, realizada pelos historiadores do Arquivo Público de Uberaba. Boletim Informativo do Arquivo Público, n. 6, março de 1995, p. 4).





Figura 3 – Uberaba torna-se um próspero local. Em 1820, é elevado a Freguesia, sendo a pequena capela elevada à condição de Matriz. Em 1836, torna-se vila e ganha um rossio: uma praça onde o povo encontra-se para buscar água da fonte do indaiá, comprar e vender utensílios. E uma nova matriz está sendo construída. Nesse ínterim, “uma câmara administrará o município. Uma nova etapa de vida urbana e de ordem fundiária”. Uberaba é elevada a condição de cidade em 1856. A construção da Matriz está ganhando duas torres e a pequena capela está sendo demolida. (adaptação de MARX, Murilo, Cidade no Brasil: terra de quem?,São Paulo: Edusp, 1989, realizada pelos historiadores do Arquivo Público de Uberaba. Boletim Informativo do Arquivo Público, n. 6, março de 1995, p. 4).




Figura 4 – “Cresce a vila e se adensa, aumenta a importância dos limites de todo o tipo e se multiplicam as questões de alinhamento”. Termina a construção da Matriz, que ganha dois sinos. “Surge o loteador, o empreendedor imobiliário que retalha uma gleba, vende suas parcelas, passa igualmente a desenhar a cidade”. A Matriz é reformada, ficando somente uma torre, o novo cemitério, inaugurado em 1900, permanece até hoje. (adaptação de MARX, Murilo, Cidade no Brasil: terra de quem?,São Paulo: Edusp, 1989, realizada pelos historiadores do Arquivo Público de Uberaba. Boletim Informativo do Arquivo Público, n. 6, março de 1995, p. 4).


De forma resumida, esta representação gráfica mostra a formação urbana de Uberaba. Na primeira figura temos a instalação da primeira capela, transferida  do local onde haviam se estabelecido os sertanistas que vieram com José Francisco de Azevedo. O local preciso desta primeira capela é onde hoje está a Escola Estadual Minas Gerais, no bairro São Benedito. Vemos na segunda figura que a Capela estava no alto de um morro, com algumas casas abaixo. Atrás da capela, como era costume, havia o cemitério. A matriz, que está no mesmo local até hoje, começou a ser construída algumas centenas de metros morro abaixo, onde hoje se localiza a praça central, Rui Barbosa.



Thiago Riccioppo - Mestre em História pela Universidade Federal de Uberlândia - UFU, historiador da Superintendência do Arquivo Público de Uberaba e Gerente Executivo da Fundação Museu do Zebu Edilson Lamartine Mendes.
*Marcelo de Souza Silva - Doutor em História pela Universidade Federal do Rio de Janeiro - UFRJ e professor na Universidade Federal do Triângulo Mineiro - UFTM.




[1] Esse nome, Uberaba Falsa, deve-se ao fato de situar-se próximo ao rio que era confundido com aquele que seria o verdadeiro rio Uberaba, situado mais ao norte.
[2] Como eram conhecidos os imigrantes provenientes das zonas auríferas da província de Minas Gerais.
[3] LOURENÇO, L. A. B. A oeste das Minas: escravos, índios e homens livres numa fronteira oitocentista. Triângulo Mineiro (1750-1860). Uberlândia: EdUFU, 2003.  p. 86.
[4] PONTES, Hildebrando. História de Uberaba e a civilização do Brasil Central. Uberaba: Academia de Letras do Triângulo Mineiro, 1970.
[5] Segundo informativo do Arquivo Público de Uberaba, esta fazenda se localizava onde hoje se encontra a Fazenda Experimental da EPAMIG (Empresa de Pesquisa Agropecuária de Minas Gerais), próxima da Univerdecidade.
[6] No local hoje conhecido como Praça Rui Barbosa, centro de Uberaba, especificamente onde se encontra o Hotel Chaves.
[7] SAINT-HILAIRE, Auguste. Viagem a Província de Goiás. Belo Horizonte: Itatiaia, 1975, p. 128.



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