quinta-feira, 1 de março de 2018

02 de março: Reflexões sobre as origens Freguesia de Santo Antônio e São Sebastião de Uberaba em 1820 até os anos de 1960

Para entender a formação da Freguesia de Santo Antônio e São Sebastião de Uberaba é necessário uma breve explicação a respeito do local exato onde ela se instalou. Com a expansão das fronteiras de exploração a oeste do Desemboque, em 1806, o sertanista José Francisco de Azevedo instalou um pequeno núcleo colonial nas cabeceiras do Ribeirão do Lageado (dos Ribeiros). Este núcleo era formado por algumas dezenas de cabanas habitadas por colonizadores emigrados do Julgado de Nossa Senhora do Desterro do Desemboque. Os índios aldeanos, por sua vez, viviam às margens do córrego dos Lages, na aldeia conhecida como Uberaba Falsa.[1] O núcleo de colonizadores, que distava cerca de 15 km da aldeia, ficou conhecido como Arraial da Capelinha (ou Lageado), sendo ali instalada por invocação de Santo Antônio e São Sebastião.


                                                                                     Figura 1. Fonte:Lourenço, 2002

      Segundo Fontoura, em 1809, o Sargento-mor Antônio Eustáquio da Silva Oliveira, obteve o título de Regente e Curador dos índios do Sertão da Farinha Podre. Desta feita, o dito sargento-mor Antônio Eustáquio realizou algumas explorações na região, entre os anos de 1809 e 1812, juntamente com alguns dos imigrantes geralistas,[2] os quais se estabeleceram fazendas, atraídos pelas notícias de alta fertilidade das terras. Lourenço aponta para a importância das redes de parentesco para a ocupação das terras a oeste do Desemboque. O sargento Eustáquio (ou Major Eustáquio, como ficou conhecido) recebeu seu título de curador devido a influências de seu irmão e, assim como ele, várias outras famílias, que posteriormente se configurariam como relevantes no contexto social do município de Uberaba, vieram à região.


Esses fazendeiros, muitas vezes, já traziam alguma escravaria, recebida de herança, mas a regra era que geralmente não tinha muitas posses. Por isso, desde o início, dada a dificuldade inicial de comprar escravos, esses homens se preocupavam em ocupar suas fazendas com posseiros pobres (agregados), transformados, assim, num campesinato dependente. [3]


  Segundo Pontes,[4] no ano de 1806, o major Eustáquio visitou o núcleo dos sertanistas e notou a falta de recursos naturais que pudessem garantir o confortável estabelecimento e crescimento do povoado. Por isso, ele teria se voltado às terras aldeanas, na margem direita do Córrego dos Lages, e ali construiu uma fazenda.[5]  Algum tempo depois, a cerca de três quilômetros dali, ainda às margens daquele córrego, ele construiu uma residência,[6] usada como retiro, e que deu origem ao lugar conhecido por Paragem de Santo Antônio.

  A partir da construção deste retiro do Major, muitos fatores levaram à migração dos moradores do Arraial da Capelinha e outras regiões para aquele lugar. Ainda de acordo com Pontes, a influência do Major Eustáquio, seu crescente poder nos negócios públicos, e a conseqüente posição social elevada, atraiu os moradores daquele povoado para junto de seu retiro. Além desse motivo, podemos destacar outros como a proteção promovida pelo Major e, acima de tudo, as melhores condições naturais existentes no local por ele estabelecido. Esse foi, pois, o núcleo que originou a cidade de Uberaba, descrito pelo viajante Auguste de Saint-Hilaire em 1819:


O arraial é composto de umas trinta casas espalhadas nas duas margens do riacho (Córrego da Lage) e todas, sem exceção, haviam sido recém construídas sendo que algumas ainda estavam inacabadas quando ali passei. Muitas delas eram espaçosas e feitas com esmero (...). Os habitantes do lugar estavam tentando conseguir com que o Governo Central elevasse o arraial a sede de paróquia.[7]





Figura 2 – “O patrimônio de uma capela se constitui por entre as sesmarias, contribui para o seu sustento, possibilita o acesso a terra.” A primeira capela de Uberaba foi erigida nas margens do Córrego Lageado [onde se estabeleceram os sertanistas que vieram com José Francisco de Azevedo] com o Orago de Santo Antônio e São Sebastião. “A Capela acolhe moradores em pequenas porções de uma gleba. Torna-se instrumento de urbanização e cria uma nova paisagem”. Por volta de 1815 a 1817, em Uberaba, a população gradativamente, transferiu-se para as proximidades do córrego da Lage, onde já havia um pequeno número de moradores, trazendo um Orago de Santo Antônio e São Sebastião para uma capela próxima. (adaptação de MARX, Murilo, Cidade no Brasil: terra de quem?, São Paulo: Edusp, 1989, realizada pelos historiadores do Arquivo Público de Uberaba. Boletim Informativo do Arquivo Público, n. 6, março de 1995, p. 4).





Figura 3 – Uberaba torna-se um próspero local. Em 1820, é elevado a Freguesia, sendo a pequena capela elevada à condição de Matriz. Em 1836, torna-se vila e ganha um rossio: uma praça onde o povo encontra-se para buscar água da fonte do indaiá, comprar e vender utensílios. E uma nova matriz está sendo construída. Nesse ínterim, “uma câmara administrará o município. Uma nova etapa de vida urbana e de ordem fundiária”. Uberaba é elevada a condição de cidade em 1856. A construção da Matriz está ganhando duas torres e a pequena capela está sendo demolida. (adaptação de MARX, Murilo, Cidade no Brasil: terra de quem?,São Paulo: Edusp, 1989, realizada pelos historiadores do Arquivo Público de Uberaba. Boletim Informativo do Arquivo Público, n. 6, março de 1995, p. 4).




Figura 4 – “Cresce a vila e se adensa, aumenta a importância dos limites de todo o tipo e se multiplicam as questões de alinhamento”. Termina a construção da Matriz, que ganha dois sinos. “Surge o loteador, o empreendedor imobiliário que retalha uma gleba, vende suas parcelas, passa igualmente a desenhar a cidade”. A Matriz é reformada, ficando somente uma torre, o novo cemitério, inaugurado em 1900, permanece até hoje. (adaptação de MARX, Murilo, Cidade no Brasil: terra de quem?,São Paulo: Edusp, 1989, realizada pelos historiadores do Arquivo Público de Uberaba. Boletim Informativo do Arquivo Público, n. 6, março de 1995, p. 4).


      De forma resumida, esta representação gráfica mostra a formação urbana de Uberaba. Na primeira figura temos a instalação da primeira capela, transferida  do local onde haviam se estabelecido os sertanistas que vieram com José Francisco de Azevedo. O local preciso desta primeira capela é onde hoje está a Escola Estadual Minas Gerais, no bairro São Benedito. Vemos na segunda figura que a Capela estava no alto de um morro, com algumas casas abaixo. Atrás da capela, como era costume, havia o cemitério. A matriz, que está no mesmo local até hoje, começou a ser construída algumas centenas de metros morro abaixo, onde hoje se localiza a praça central, Rui Barbosa.


       Nos anos de  1990, historiadores do então Arquivo Público de Uberaba, buscando atender reivindicações para mudanças da data de aniversário da cidade, realizaram um esforço em mudar esta data. Anos atrás, o dia 2 de maio era a data oficial do aniversário de fundação da cidade. Esta data foi escolhida reportando-se à fundação da Vila, em 1836. Hoje, o dia oficial é o 02 de março, data do decreto régio que estabeleceu a criação da Freguesia de Santo Antônio e São Sebastião de Uberaba.

     É consensual entre os historiadores que a formação das freguesias é o que, na maioria das vezes, determina o futuro caráter dos municípios e, em Uberaba isso não foi diferente.


          Sobre as Freguesias, pode-se entender que:


A institucionalização da vida destas tantas e tão dispersas comunidades se dava pela oficialização de sua ermida, de sua capela visitada por um cura, pela elevação um dia a Matriz, ou seja, a paróquia ou freguesia. Era o reconhecimento da comunidade de fato e do direito perante a Igreja e, portanto, perante o Estado. Não era apenas o acesso ao batismo, ao casamento, ao amparo aos enfermos, ao sacramento na morte, mas também a garantia do registro de nascimento, de matrimônio, registro oficial com todas as implicações jurídicas e sociais. Era o usufruto da formalidade civil com todo o direito e segurança que pudesse propiciar.[8]


         Posteriormente a elevação de Vila em  1836 como já dissemos acima, a lei nº 125[9], de março de 1839, o Município divide-se em seis distritos:

1-      o da sede
2-     Santíssimo Sacramento (Sacramento)
3-      Dores do Campo Formoso (Campo Florido)
4-      N. Sra. Do Carmo de Morrinhos (Prata)
5-      Monte Alegre
6-      São José do Tijuco (Ituiutaba)


     Em 1843, acrescenta-se-lhe o distrito de Brejo Alegre (Araguari) e, em 1848 perde os distritos de Sacramento, Monte Alegre e Carmo de Morrinhos. No ínterim de 1851 e 1858 foram criados os distritos de São Pedro do Uberabinha (Uberlândia) e Carmo do Frutal. No período de 1882 a 1888, são desanexados os distritos de Brejo Alegre e  Carmo do Frutal, seguidos posteriormente por São Pedro de Uberabinha e São José do Tijuco em 1901. Em 1891, era criado o distrito de São Miguel do Veríssimo, desanexado em 1938, juntamente com os de Campo Formoso e Conceição das Alagoas. Assim concluímos que o Município de Uberaba e o de Araxá compreendiam a ocupação de quase a totalidade das terras da região denominada de Triângulo Mineiro. Sendo que a região  foi sendo fragmentada quando emanciparam os citados municípios acima.



A cidade de Uberaba: aspectos do desenvolvimento no século XIX e início do XX.


      Estando esclarecidas as origens de Uberaba, partamos agora para a abertura da discussão das principais características econômicas, sociais e políticas que marcaram o seu desenvolvimento. 

    O desenvolvimento de Uberaba tem suas origens nos mais variados planos, mas, num primeiro momento, podemos destacar sua localização geográfica como um fator relevante para que se entenda a maneira como se deu este processo. Conforme já revelamos, Uberaba situa-se no local que, no século XIX, era a “porta de entrada” para os sertões do Brasil central.

     Conforme a historiadora Eliane Marquez de Resende,[10] entretanto, foi a pecuária a primeira atividade expressivamente praticada no município aliada, é claro, à agricultura de subsistência.


Em decorrência de sua posição geográfica e com o incremento das atividades pastoris, Uberaba tornou-se, já na primeira metade do século XIX, resultando disso o constante crescimento de seu povoado e sua projeção como entreposto de comércio de gado vacum.[11]


      Este processo também pode ser observado em outras localidades do Brasil central, o que gerou a necessidade de que se intensificassem as vias de comunicação entre os municípios, e Uberaba, já em seus primeiros anos como Freguesia, sob esforços do major Eustáquio, ganhou um porto às margens do Rio Grande – na divisa com a província de São Paulo – e uma estrada que ligava aquele porto ao povoado. Dessa forma, estavam postas as condições para que a futura cidade se tornasse parte importante das rotas de comércio e transporte de produtos que iam até a corte. Esta atividade comercial ganhou força a medida que o século XIX chegava ao fim, devido à expansão da economia cafeeira no oeste paulista, o que revitalizou as rotas comerciais na antiga estrada do Anhanguera, a partir de Campinas.

      Com relação à mão de obra escrava, Uberaba guardava algumas características próprias. Segundo Resende, as fazendas possuíam um certo número de escravos, o que confluía com a conjuntura nacional, uma vez que esta era a base do trabalho naquele período. Contudo, havia o problema de que pequenos proprietários não tinham muitas das vezes condições de pagar os preços do escravo, que se tornavam cada vez maiores, principalmente com o final do tráfego negreiro em 1850.


Em 1820, a Freguesia de Santo Antônio e São Sebastião de Uberaba possuía 1621 habitantes, dos quais 417 eram escravos. Em 1854, o município possuía cerca de 13.000 habitantes, sendo que 4000 eram escravos, o que demonstra um alto índice e evidencia a pujança econômica adquirida pelo município, ainda mais se levarmos em conta que o progresso de Uberaba não dependeu diretamente da rentabilidade de um produto agrícola, traço marcante da evolução histórica brasileira.


Tratando do plano nacional, os primeiros anos da República foram muito conflituosos sob diversos aspectos. Ela havia herdado da Monarquia um grande déficit na balança de pagamentos. Importações oneravam em muito o tesouro; as despesas com a infra-estrutura urbana eram enormes, pois se expandia a rede ferroviária; aparelhavam-se melhor os portos, instalavam-se fábricas. Além disso, eram altos os gastos com o trabalho assalariado, além de divergências tremendas com o novo sistema de trabalho; e a marginalização de muitos dos ex-escravos. 

Os anos que antecederam a abolição da escravidão, e de certa maneira, a política de concessões e incentivo à imigração já vinham sendo fundamentadas. Nos primeiros anos da República, a política de incentivo a imigração encontra um respaldo mais elevado. Segundo dados da Superintendência do Arquivo Público de Uberaba/MG,[12] na região do Triângulo Mineiro:


A imigração italiana é predominante em Uberaba, Conquista e Sacramento. Procedentes da Hospedaria Horta Barbosa no período de 1894 a 1901 encontramos: 156 famílias compostas de 777 pessoas. (...) São agricultores para fazenda de café de Sacramento, Conquista outras culturas e atividades em Uberaba. Conquista em 1940 possuía uma população de aproximadamente 25.000 imigrantes, a maior de todo Triângulo Mineiro.

Os imigrantes na finalidade de acastelarem políticas de seus interesses criaram diversas associações, no período de transição do século XIX às primeiras décadas do século XX. Segundo Roberto Capri [13], existiam até 1916:

As de caridade – “Associação das Damas de Caridade”, “Santa Casa de Misericórdia”, “Associação São Vicente de Paula”, “Associação  Beneficente -Oito de Setembro”.
As de beneficência – “Associação Portuguesa de Beneficência 10 de dezembro”, “Liga Operária”, “Unione Italiana Fransceco Carrara”, Sociedade Beneficente União Síria,”“Caixa Escolar João Pinheiro” “, “Societá di Mútuo Soccorzo Fratellanza Italiana”, “Sociedad Española Mateu Sagasta”, “Sociedad Española de Socorros Mútuos”, “Centro Espírita Uberabense”.. 
    
A Imigração se perfaz em maior número no Triângulo Mineiro com italianos, mas vieram levas de espanhóis, portugueses, árabes, asiáticos e, em menor número, alemães.

Assim sendo, a imigração em Uberaba encontra em parte, uma possibilidade de inserção no mercado de trabalho favoravelmente urbano, diferenciando-se do tipo de atividade a que os imigrantes desenvolveram em outras regiões que receberam imigrantes, como Conquista, onde os trabalhadores estavam ligados às atividades agrícolas. Este aspecto se deu devido ao caráter comercial que o município vinha assumindo até aquele momento, com a vantagem da linha férrea Mogiana finalizar seus trilhos na Estação de Uberaba. O que favoreceu um comércio dos produtos advindos do porto de Santos/SP fazendo da região centro cosmopolita frente ao Brasil Central.


Figura 9 – Praça Rui Barbosa, ponto de encontro de tropeiros, 1908. Fonte: Arquivo Público de Uberaba.


A imigração estrangeira tornou-se notabilíssima, abriram-se diversos negócios alguns dos quais com renda superior a 1.700 contos de réis. O trânsito de carros de boi era colossal.[14] 

  Essa conjuntura permaneceu até 1897, quando a linha férrea tocou as pontas de seus trilhos em Araguari, e logo entrou em decadência em 1911, quando a Ferrovia Noroeste do Brasil, penetrou o Estado do Mato Grosso canalizando-o ao Estado de São Paulo. Todavia, naquele contexto, esse movimento modernizador, foi capaz de instaurar pioneiramente uma pequena industria manufatureira, notavelmente de italianos.

São quatro Fábricas de cerveja, três Fábricas de macarrão, uma Fábrica de Barrigueira, uma Fábrica de Tecidos, uma Fábrica de Carroça, uma Fábrica de Vinho, uma fábrica de Cangalhas, Cia. de Seguros, quatro Alfaiatarias dentre diversas Casas Comerciais e Profissionais Liberais. [15]

 Fator importante que caracteriza a cultura econômica uberabense, foi a formação de uma classe de criadores de gado, que em meados de 1880, introduziram os primeiros exemplares das raças Zebu, trazidos do Rio de Janeiro e depois diretamente de sua origem no continente asiático. 

  Com a chegada da Ferrovia a Araguari, em 1896, passando por São Pedro de Uberabinha (atual Uberlândia), segundo Resende,[16] o comércio se transferiu àquelas praças e a importância das atividades pecuárias voltaram à cena (nunca haviam saído, só estavam em segundo plano) e os pecuaristas procuraram, desde então, melhorar o gado crioulo e caracu existente no município. A opção pela importação do gado Zebu, da Índia, acabou se mostrando a melhor e este fato foi, em certa medida, determinante para o crescimento desta atividade na cidade e na região, pois as raças indianas que passaram a se desenvolver aqui provocaram impactos na pecuária em todo o país. Em decorrência de um longo processo histórico, Uberaba, atualmente, é o maior centro na pesquisa e melhoramento genético das raças zebuínas no mundo. 

Esta atividade pecuária fortaleceu rapidamente o poder político e social daqueles que a praticaram em Uberaba e teve colaboração com a modernização da indústria frigorífica  e o advento da exportação de carne brasileira congelada para Europa durante a 1ª Guerra Mundial.


Paralelamente a essa construção de poder e intrinsecamente ligada a ela, a Igreja católica, encontrava-se fortemente enraizada na região, conforme demonstram dados do início do século XX, segundo levantamentos feitos em 1916.


O povo do Triângulo Mineiro é essencialmente católico.
Em Arraial da Água Suja, há o Santuário de N. S. da Abadia(...). Há em Araguari, algumas famílias protestantes(...) Espíritas se contam em toda a localidade do Triângulo. O núcleo de espíritas mais considerável está na Fazenda de Santa Maria do Capim Branco, (Conquista) onde os adeptos mantêm um periódico intitulado “A Alavanca”, e uma farmácia que distribui, gratuitamente, remédios a todas as pessoas que o procuram. Em Uberaba há um centro ao qual se acham filiados nove grupos.
O Bispado de Uberaba está todo contido nas divisas do Triângulo Mineiro e abrange ainda alguns municípios a leste. Foi criado em Dezembro de 1907 e solenemente instalado a 24 de Maio do ano seguinte. Tem como seu primeiro Bispo, o Exmo e Revmo. D Eduardo Duarte Silva, que reside na cidade de Uberaba, sede, em Palácio Episcopal. A divisa compreende 47 freguesias.Tem Cabido composto de dez cônegos, com dispensa de residência.s ordens religiosas.
As ordens religiosas estão estabelecidas, desde de 30 frades da Ordem Dominicana, como a mais antiga instalada no Brasil. Posteriormente em 1885, estabeleceram-se na mesma cidade, as Irmãs da Terceira Ordem de São Domingos, que mantêm o Colégio Nossa Senhora das Dores, equiparado, hoje, as Escolas Normais do Estado de Minas Gerais.
Uberaba ainda conta, com a residência na Igreja de Nossa Senhora da Abadia, diversos representantes da Ordem dos Agostinianos Recolletos, e a Congregação dos Irmãos Maristas que mantêm desde 1904, a direção do Ginásio Diocesano do Sagrado Coração de Jesus.
Em Campo Belo do rio Verde (município do Prata), estabeleceu-se um colégio da Congregação de São Vicente de Paula ou Lazaristas, os quais ali mantiveram desde 1820, até a pouco um estabelecimento secundário que inumeráveis benefícios prestou a mocidade do Triângulo Mineiro.[17]


            A Igreja Católica em Uberaba, assim como no resto do Brasil, com o desmonte do Estado Imperial, voltou suas atividades para outros alheios às questões burocráticas estatais, investindo em irmandades e escolas, buscando reforçar no homem da cidade aos princípios católicos. Tentava, dessa forma, manter influência política de forma indireta, já que perdera o exclusivismo religioso desde o início da República. Estas ações, contudo, atingiram profundamente somente as elites locais (o que coadunou com os objetivos políticos da Igreja naquele momento), visto o grande desenvolvimento na região de outras religiões, eminentemente da doutrina espírita, a qual vai, gradativamente, ganhando força na cidade de Uberaba, principalmente após a segunda metade do século XX.

                Quanto às suas origens, Uberaba está inserida no processo de transformações sociais, políticas e econômicas marcantes da história do Brasil. Dessa forma, questões como o escravismo, a imigração, o coronelismo, a religião e, principalmente, a economia pecuária ajudam a entender a configuração regional . Este última, representada pela criação do Zebu, tem uma relevância superior, pois foi a mola propulsora para a verdadeira revolução urbana que ocorreu a partir dos anos de 1920 a 1940.[18] O centro da cidade tornou-se mais condizente com o nome pelo qual Uberaba passou a ser conhecida: capital do Zebu. Houve melhoramentos no aspecto urbano, como calçamento, abertura de avenidas combinando com os suntuosos casarões em estilo europeu, os quais vinham sendo construídos desde os primeiros anos do século XX.
           

No período que vai dos anos 1920 até o final da Segunda Guerra Mundial há uma enorme projeção econômica da atividade pecuária, especificamente aquela voltada para a criação do gado Zebu. O Brasil se tornava um dos grandes produtores de carne e Uberaba era um dos seus centros de criação e distribuição. Com o final da Guerra, houve uma crise na pecuária nacional que levou os criadores do Triângulo Mineiro a bancarrota, impulsionada pela reestruturação econômica europeia, retomada de suas atividades agropecuárias e, principalmente, ao fato dos empréstimos liberados pelos bancos estatais para compra de gado com valor genético agregado, passaram a ser fixados pelo governo ao valor do peso da arroba. Era  a política do "Vale quanto pesa". Existe uma hipótese, levantada por alguns dos que viveram aquele período, de que a crise da pecuária, após um momento de tanto resplendor, levou alguns pecuaristas a moverem parte de seu capital financeiro para outras atividades, muitas delas fora da cidade. Nos anos de 1950, o governo brasileiro promove um reajustamento agropecuário, o qual possibilitou a retomada de parte da importância da pecuária na região.

Uberaba, desde o início de século XX, representava um importante ponto de desenvolvimento do interior. Com isso, a luz elétrica foi pioneira no sertão, aqui chegando em 1905, com a inauguração da primeira usina de Monjolo, que aproveita a força motriz da cachoeira. Durante muito tempo, esta foi a única fonte de abastecimento elétrico da cidade – monopolizada pela empresa privada Força e Luz. No início dos anos 1940, o abastecimento, que já não era suficiente, estava cada vez mais precário, a exemplo da Indústria Têxtil do Cassu que consumia quase metade de toda a energia destinada a cidade. Este fator, de certa forma impedia o desenvolvimento de outras atividades industriais em Uberaba. 

Nesta década, foi criada a usina de Pai Joaquim, no Rio Araguari, a qual seria uma nova opção para Uberaba, porém, com o desenvolvimento de outros municípios na região desviou muita dessa energia para aqueles locais, possibilitando um amplo desenvolvimento econômico da região do Triângulo Mineiro a partir dos anos de 1960.



1] Esse nome, Uberaba Falsa, deve-se ao fato de situar-se próximo ao rio que era confundido com aquele que seria o verdadeiro rio Uberaba, situado mais ao norte.
[2] Como eram conhecidos os imigrantes provenientes das zonas auríferas da província de Minas Gerais.
[3] LOURENÇO, L. A. B. A oeste das Minas: escravos, índios e homens livres numa fronteira oitocentista. Triângulo Mineiro (1750-1860). Uberlândia: EdUFU, 2003.  p. 86.
[4] PONTES, Hildebrando. História de Uberaba e a civilização do Brasil Central. Uberaba: Academia de Letras do Triângulo Mineiro, 1970.
[5] Segundo informativo do Arquivo Público de Uberaba, esta fazenda se localizava onde hoje se encontra a Fazenda Experimental da EPAMIG (Empresa de Pesquisa Agropecuária de Minas Gerais), próxima da Univerdecidade.
[6] No local hoje conhecido como Praça Rui Barbosa, centro de Uberaba, especificamente onde se encontra o Hotel Chaves.
[7] SAINT-HILAIRE, Auguste. Viagem a Província de Goiás. Belo Horizonte: Itatiaia, 1975, p. 128.
[8] COUTINHO, Pedro dos Reis. Uberaba, aniversariante do dia 2 de março. Panfleto informativo do Arquivo Público de Uberaba, 2003.
[9] LOPES, M.A.B. Fazendas de criação do Triângulo Mineiro. Uberaba: Museu do Zebu, 1987. Apud. COROGRÁFIA HISTÓRICA DA PROVÍNCIA DE MINAS GERAIS, vol. 1 p.211.
[10] RESENDE, Eliane M. M. de. Uberaba: uma trajetória sócio-econômica, 1811-1910. Uberaba: Arquivo Público de Uberaba, 1991.
[11] Idem, ibidem, p. 30.
[12] MANZAN, M. Org. Fontes Primárias para a Imigração: Triângulo Mineiro e Alto Paranaíba: Fundação cultural, 1995. p. 52.
[13] CAPRI, R. Uberaba: a princesa do Sertão. São Paulo: Capri, Andrade & C. Editores, 1916. p. 75-76.
[14] PONTES, H. História de Uberaba e a Civilização no Brasil Central. Uberaba: Academia de Letras do Triângulo Mineiro, 1970. p. 93.
[15]  NABUT, J.A. Coisas que me contaram: crônicas que escrevi. Uberaba: Vitória, 1985.  p. 81 - 92.
[16] RESENDE, op. cit., p. 85 et. seq.
[17] LEAL, V. N. Coronelismo, enxada e voto. 3. ed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1997. p. 42.
[18] CAPRI, op.cit., p. 42-44, nota 5.
[19] Cf. LOPES, Maria Antonieta Borges, REZENDE, Eliane M. Márquez de. ABCZ: História e Histórias. São Paulo: Comdesenho Estúdio e Editora, 2001.


Thiago Riccioppo - Mestre em História pela Universidade Federal de Uberlândia - UFU, historiador da Superintendência do Arquivo Público de Uberaba e Gerente Executivo da Fundação Museu do Zebu Edilson Lamartine Mendes.
*Marcelo de Souza Silva - Doutor em História pela Universidade Federal do Rio de Janeiro - UFRJ e professor na Universidade Federal do Triângulo Mineiro - UFTM.



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