quarta-feira, 29 de março de 2017

Resenha do livro Gritos na Escuridão, por Adércio Simões Franco


Gritos na Escuridão registra uma simbiose entre realidade e ficção, o que resulta em excelente romance, quer pela abordagem da realidade histórica, quer pela sua elaboração ficcional.

Trata-se, este romance, de um crime bárbaro, de uma brutalidade chocante, que abalou a sociedade, levando-a quase, ao linchamento dos criminosos, não fosse o cuidado de os transferir para a prisão de Uberaba.

A cidade do crime ganhou nome fictício, Volta Grande, bem como, naturalmente, os nomes de seus personagens.


O autor, Paulo Fernando Silveira, acadêmico da Academia de Letras do Triângulo Mineiro, de Uberaba, é escritor, advogado, professor universitário, juiz federal aposentado e vasto curriculum-vitae na área jurídica no Brasil e no exterior.


Com esta experiência, na qualidade de escritor, caminhou da realidade à ficção, relatando com perspicácia, o crime ocorrido.

Esta ficção, nasce de uma realidade, conforme explica, pelo acesso que teve a jornais da época dos eventos e que se encontram no Arquivo Público de Uberaba, além de documentos que lhe foram confiados por seu amigo e colega de faculdade. Contou ainda com testemunhos de quem participou dos fatos ou deles tiveram conhecimento.

A geografia de Minas, São Paulo, Goiás, Distrito Federal, está presente em vasto espaço, com registros de acidentes geográficos, ruas e até bairros de cidades.

Enquanto isto, o autor vai situando os personagens e sua visão do mundo.

Adroaldo, apelido de Jacu, era fugitivo de Almenara, vivia em meio promíscuo, onde as brigas irrompiam com bastante constância. Fazia parte do contexto social. Homem de fato, tinha de beber muito e bater em alguém para mostrar a sua superior masculinidade. (p.13)
(Frutal) sofria a influência dos paulistas, tendo como referência a cidade de São José do Rio Preto. ( p.167)

Nesta outra sequência, realidade e ação mostram a esperteza do personagem.
Só para se certificar, Moreno indagou: - O volks está aqui ou em Volta Grande? Eles já estavam adentrando em Uberaba.

-Eu o deixei aqui, na casa de um primo meu. Depois é que peguei o ônibus para Rio Preto para encontrar com você. (...) Depois que o comparsa partiu, no seu Opala, ele pegou um taxi e foi em direção ao bairro Santa Maria, não muito distante dali.

Naquela mesma noite, ele tomou o ônibus para Belo Horizonte. Chegando lá de manhãzinha, comprou passagem para Brasília. Para matar o tempo foi a um cinema situado na Praça Sete. Em Brasília, aproveita para ver a sua beleza arquitetônica, passeia no shopping. Depois ruma-se para Goiânia. ( p.181)

O tempo literário se expande numa cristalização cronológica, enquanto vários eventos são repetidos em flashes.

A fala dos personagens identifica o estrato social a que pertencem ou a profissão que exercem, e ao se formar o tecido verbal a realidade se revela com bastante nitidez, fazendo com que a oralidade se identifique com o que se ouve no dia a dia.
O que você está matutando? – faz parte do diálogo dos peões enquanto levavam uma boiada. (p.14)

Os peões cantaram de galo. Traziam armas na cintura. Depois de uns goles, começaram a brigar com todo mundo. Diziam que eram machos e não levavam desaforo para casa. (p.138)

A fala da cafetina retoma, em flash, o modo de vida dos peões mencionado em capítulo anterior.

Requeiro que ele seja conduzido preso para a cidade de Uberaba, ficando lá, trancafiado, à disposição da justiça (p.205). Assim se expressa o delegado de Volta Grande.
Intime todos os familiares para depor (p.126) A fala do delegado-chefe Bonicelli vem quase sempre, acentuada de objetividade.

Já o advogado sempre se embasa no Código de processo penal, citando-o ipsis litteris, do qual, Bonicelli sabia de cor. (p. 204)

Carvalhinho, repórter do jornal O Diário, vê a tragédia como matéria de primeira!

Acabei de ser informado pelo inspetor Vivaldo, que, lá (em Volta grande) uma família inteira foi trucidada, (...) – É matéria de primeira! E, aqui, na nossa cidade, vou ter exclusividade! (P.81) Notar o uso da vírgula, interrompendo a fala, carregada do impacto da novidade.

O mesmo Carvalhinho, com o desenrolar do tempo, fica indignado com a frieza do facínora, a quem entrevistou. Bem diferente daquele que vibrou-se por uma notícia de primeira.

Cara !!!... Carvalhinho vociferou, com enfática veemência, usando ironicamente, o mesmo vocativo, empregado pelo assassino. E prosseguiu no mesmo tom áspero: - Vou te dizer com franqueza! Em toda minha vida de repórter policial, nunca vi coisa igual da espécie! Sua ação, vergonha infame e desumana, não encontra nenhum precedente pior na história, nem do mesmo quilate de maldade. (p.256)

Uso pessoal, com valor de gíria, de palavras como rapaz, cara, por Balduíno:
Rapaz, eu não vou te telefonar mais não! Eu faço uma ligação e agora mesmo já tem polícia aqui no meu pé para me prender! ( p.194)
Cara! Se eu pudesse rebobinar a fita! (p.252 )

Registre-se ainda o uso de monólogo interior, quando Balduíno conversa com seu próprio facão: Aguarde aqui, que vou precisar de você mais tarde. (p. 221)
Visualidade – as manchetes eram sempre anunciadas em letras garrafais:
MORENO CHEGA PRESO A OBERABA (p.194)
VOLTA GRANDE ENTERRA OS SEUS DEZ MORTOS (p.127)

O autor não narra apenas um crime. Comenta para reflexão de leitor, as falhas do nosso sistema, aspectos legais muitas vezes frouxos, resultando na infeliz expressão cunhada por D. João VI -  é coisa para inglês ver – no tempo em que a Inglaterra era senhora do mundo e administrava, inclusive, a política e as finanças do Brasil.

Um condenado pode ser levado à prisão com penas que lhe são imputadas por 150, 200 ou mesmo 300 anos...

No Brasil, o limite máximo da pena de prisão é de 30 anos, nos termos do artigo 75, do Código Penal que reza: o tempo de cumprimento das penas privativas de liberdade não pode ser superior a 30 anos (p. 264)

Esta pena vai-se abrandando com o tempo, considerando-se vários fatores, passando o condenado para regime semiaberto (em troca de trabalho de qualquer natureza) e deste para regime aberto (só dormir na prisão), além de outras benesses.

Roberval e Balduíno, como também Moreno, fugiram da prisão e nunca mais foram capturados, havendo, por isso, prescrição de pena por seus crimes. Leon cumpriu pena de 16 anos, beneficiado pelos vários regimes de progressão.

E tudo isso acontece, depois de competente trabalho de investigação e captura, envolvendo um delegado-chefe, vindo de Belo horizonte para esta função, e seus colaboradores, recheado de enganos e de acertos, onde não faltou até o lado cômico, ao se prender um dos assassinos enquanto tomava banho, hospedado numa pensão, quando se preparava para nova fuga...

A memória não é uma ressurreição do passado, ela sempre inova, transfigura o passado.
Berdiaeff, apud Castagnino – Tiempo y Expresión literária.
O autor expôs fatos e leis. Ao leitor, que não se contentar apenas coma uma leitura linear, abre-se o leque para a sua reflexão...


Paulo Fernando Silveira. Gritos na escuridão. Curitiba. Juruá, 2013.

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