quarta-feira, 12 de julho de 2017

A fantástica história das primeiras exportações de Zebu realizadas pelo Brasil ao México em 1923 por criadores do Triângulo Mineiro


Fonte: Revista ABCZ Ed. nº 96 Jan/Fev 2017.


O primeiro movimento de exportações de zebu realizado pelo Brasil na história foi justamente para o México, motivado pela força de criadores de Uberaba e Conquista, municípios do Estado de Minas Gerais, bem como por criadores do Estado do Rio de Janeiro. Até 1921 o Brasil havia feito inúmeras importações de Zebu da Índia, contudo neste ano, o governo do país proibiu as importações de gado devido a alguns fatores, especialmente a Peste Bovina asiática que assombrava muitos lugares no mundo.

No início da década de 1920, o comércio interno de gado no Brasil sofria a crise do baixo valor de animais reprodutores e para abate. A Sociedade do Herd Book Zebu - SHBZ, criada em Uberaba, no ano de 1919, para defesa dos interesses dos pecuaristas e funcionamento do registro genealógico das raças, encontrou como uma das saídas para a crise a propaganda do Zebu no exterior, sobretudo nos EUA, Cuba e México, no objetivo de abrir novos mercados.

Esta iniciativa foi conduzida junto ao governo brasileiro, através do Ministério da Agricultura pelo então deputado Fidélis Reis, parlamentar representante da região do Triângulo Mineiro na Câmara Federal. O deputado obteve recursos do governo federal e dos municipais de Uberaba e Conquista para formar uma comissão que iria aos EUA divulgar os animais das raças indianas de criadores brasileiros e tratar dos trâmites para a exportação.

A comissão foi composta por João Henrique Vieira da Silva, Geraldino Rodrigues da Cunha, José Caetano Borges, Joaquim Machado Borges, Ronan Marquez, Adelino Borges de Araújo e José de Oliveira Ferreira.

Um dos responsáveis pelo projeto de exportação foi o zootecnista francês Fernand Ruffier. Neste caminho, constitui-se em 20 de novembro de 1922, a Sociedade Pastoril do Triângulo Mineiro, com o propósito de viabilizar os processos de exportação de gado para mercados estrangeiros.

A sociedade era coordenada pela empresa Cunha, Ratto, Borges & Cia. Ltda. Fernand Ruffier, como representante da firma, seguiu para os EUA no final do ano de 1922. Logo em janeiro de 1923 foi solicitado à SHBZ o envio de 100 animais.

Fragmento de documento da Sociedade Pastoril Triângulo Mineiro, representada por Fernand Ruffier para exportar Zebu. Fonte: Museu do Zebu, 1923.

As exportações de gado Zebu integraram-se a um pacote de intenções em curso num acordo diplomático comercial entre o Brasil e o México, que visava vender diversos produtos brasileiros. Paralelamente, cogitava-se, em face desse projeto de comércio de bovinos, a realização de uma Exposição Pecuária Internacional no México, da qual contou antecipadamente com uma verba de 600 contos de réis (moeda brasileira da época) e a cessão de um navio do Lloyd brasileiro, que iria transportar os animais.

Os bovinos foram embarcados em maio de 1923 no Porto de Santos - rumo ao Porto de Veracruz, no México, acompanhados pelos criadores de gado da região do Triângulo Mineiro: Alceu Miranda, Quirino Pucci, Josias Ferreira de Morais, Limírio Dias de Almeida, Ilídio Dias de Almeida e outros. Em dezembro do mesmo ano, o criador Armel Miranda embarcou mais outras 200 cabeças. Nesta viagem, próximo ao desembarque, o navio que transportava os animais encalhou, permanecendo 12 dias numa difícil situação, até que enfim pudessem descer em solo mexicano.

Desses bovinos, apenas um não resistiu à viagem (SANTIAGO, 1985, p. 134). Foram exportados também outros lotes pelos pecuaristas do Rio de Janeiro: Pedro Marques Nunes e Otacílio Lemgruber. Eram 85 cabeças das raças Nelore e Guzerá, embarcados em outubro de 1923 no vapor Cabedelo. Da mesma forma que a anterior, a viagem dos fluminenses também foi tumultuada. O destino final do gado seria o Porto de Veracruz, mas, o navio tomou a direção de Nova Orleans, pois iria deixar uma partida de café nos EUA. Essa ocasião gerou delongas e falta de forragens. Além disto, os movimentos de revolucionários na região, durante o governo de Álvaro Obregon, exigiram que os animais fossem desembarcados em Tampico, Estado de Tamaulipas, no México. (LOPES & REZENDE, 2001, p. 56)

Com o gado Zebu em solo mexicano, o que se seguiu foi uma difícil absorção dos mesmos pelo mercado,
em virtude de um momento de instabilidade econômica e aos conflitos político-sociais desencadeados na região. No livro: Intimidades, conflitos e reconciliações: México e Brasil, 1822-1993, de Guilhermo Palacios (2008), o historiador credita o fracasso da transação ao fato de um: [...] “cálculo errado dos criadores motivou que a oferta superasse a demanda e a descrença no conflito mexicano, por parte do brasileiro, elevou a intensos atritos, a incipiente relação comercial entre os países”.


Em janeiro de 1924, quando a rebelião das forças de Huerta contra a imposição de Plutarco Elías Calles, sucessor de Obregón, tornava-se incontrolável no Estado de Veracruz, a alfândega do porto foi ocupada pelos sublevados que exigiram a retirada de todos os produtos armazenados, com o respectivo pagamento de direito, sob pena de leiloá-los. (...) “Pouco tempo depois, os mesmos rebeldes se apoderaram de 55 cabeças de gado zebu que ainda seguia ancorado no porto sem encontrar ofertas”.
(PALACIOS, 2008, p. 208)

Apesar do gado recuperado, o governo mexicano não pagou o frete das viagens que importadores brasileiros haviam tratado nas negociações. Isso se deveu, em parte, à imensa crise gerada na região ocupada pelos rebeldes.

É importante salientar que, de acordo com os planejamentos iniciais traçados por Fernand Ruffier, a maioria desses animais seriam levados aos EUA. Entretanto, as exigências sanitárias do governo americano forçaram o desembarque de todos os lotes no México. Foi em função das problemáticas vivenciadas no México, que boa parte dos animais das exportações acabou sendo destinada aos EUA.

Primeiramente, 70 touros puro sangue (Guzerá, Gir e Nelore) atravessaram a fronteira por via terrestre pela região de Eagle Pass, sendo distribuídos a criadores do Texas. Em 1925, entraram mais 70 touros e 18 novilhas, principalmente da raça Guzerá. Destacava-se entre os animais encaminhados aos EUA, o touro “Aristocrata”, de Orlando Rodrigues da Cunha - Marca OC, como mostra seu registro no Herd Book Zebu. Aristocrata foi pai do importante raçador “Manso”, um touro do Rancho Hudgins, de Walter Hudgins, no Texas.

Imagem do Registro do touro de Uberaba, chamado de Aristocrata.
 Pai de um dos maiores formadores da raça estadunidense Brahman. Fonte: Rancho Hudgins.  Texas, EUA.


Manso formou uma das principais linhagens que estabeleceu a raça Brahman. O depoimento do pesquisador A. O. Road para explicar este momento é revelador: O Brahman não tinha deslanchado, existia apenas um punhado de devotos e o efetivo era pequeno. A importação do Brasil aumentou o interesse pelo Brahman, devido à excelente qualidade dos animais brasileiros. Eram grandes, musculosos, sólidos indivíduos, embora fossem uma cruza de sangue indiano, com nítida preferência de Guzerá, com alguma evidência de Gir e do Nelore. (ROAD Apud. FREITAS, Beef Point, 2013)



Bibliografia:

AKERMAN Jr. Joe A. American Brahman: a history of The American Brahman. Madison Fl.: Jimbob, 1982.

PALACIOS, Guilhermo. Intimidades, Conflitos e reconciliações: México e Brasil 1822 -1993. Edusp: São Paulo, 1993.

REZENDE, Eliane Mendonça Marquez. & LOPES, Maria Antonieta Borges. ABCZ: História e Histórias. 2 Ed. São Paulo: Condesenho, 2001.

SANTIAGO, Alberto Alves. O Zebu, na Índia e no Mundo. Campinas: Instituto Campineiro de Ensino Agrícola, 1985.



Fontes documentais:

RUFFIER, Fernand. Dossiê de documentos para Exportação de gado para o México. Uberaba:

Acervo do Museu do Zebu, 1923.

Acervo de fotografias do Museu do Zebu.

Acervo Rancho Hudigns. Texas EUA

Fotografia 1. Animal enviado por Fernand Ruffier na exportação para o México e que foi adquirido Walter Hudgins, do Texas - EUA. Acervo fotográfico: Museu do Zebu.

Fotografia 2.  Touro Manso aos 11 anos de idade. Este animal viveu até os 17 anos e produziu 171 filhas e 145 filhos entre os anos de 1930. Fonte: AKERMAN Jr, 1982.



Autor: Thiago Riccioppo - Mestre em História pela Universidade Federal de Uberlândia - UFU; historiador da Superintendência do Arquivo Público de Uberaba e Gerente Executivo da Fundação Museu do Zebu Edilson Lamartine Mendes.


* Este artigo foi publicado originalmente no México pela Revista "Cebu Mexicano" Ed. 27 . Set/Out de 2016 e na Revista ABCZ. Ed. 96 jan/fev de 2017.



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