segunda-feira, 17 de dezembro de 2018

DOCUMENTO EM DESTAQUE: 100 anos do fim da gripe espanhola em Uberaba


            A gripe atingiu toda a humanidade e seu contágio aconteceu em duas ondas. Na primeira (primeira metade de 1918), teve efeitos “pequenos”, mas, na segunda (final de 1918), depois de sofrer uma mutação, sua agressividade tornou-se perturbadora e a velocidade com que se alastrou e os estragos causados se mostraram sem equivalentes na história – nunca a guerra, catástrofe ou epidemia tinha feito tantas vítimas em tão pouco tempo. A gripe espanhola foi implacável e universal.

          

        Em fevereiro de 1918, a cidade de San Sebastián, na Espanha, foi infestada pela influenza e, diferentemente de outros países envolvidos na Primeira Guerra que censuravam essas informações, na Espanha as notícias foram amplamente difundidas. Os países beligerantes não permitiam a sua divulgação tentando evitar o caos nas fileiras dos exércitos. Geralmente, os governos atribuíam o nome da doença a outras nacionalidades. Quando a sífilis apareceu na Idade Média, os franceses chamavam-na de "mal napolitano" e os italianos de "mal francês".
      Antes do desembarque do vírus no Brasil, a sua marinha, que se empregava na guerra, já contabilizava altíssimo número de mortes. A gripe teria infectado 90% dos 1.500 tripulantes, causando a morte de 125 marinheiros.
      No Brasil, acredita-se que o vírus tenha chegado por meio do navio inglês "Demerara", que havia atracado em Recife e em Salvador ainda em 1918. O grande contingente imigratório que o Brasil recebia também é indicado como responsável pelo alastramento da gripe. As causas que teriam favorecido o surto epidêmico ainda são confusas e parecem estar longe de serem apontadas de forma definitiva.
      Sabe-se que muitas cidades viraram, da noite para o dia, cidades fantasmas, como é o caso de Campinas/SP, que praticamente sumiu do mapa neste mesmo ano, de acordo com a historiadora Liane Maria Bertucci, professora de história da educação na Universidade Federal do Paraná (UFPR) e autora do livro: "Influenza, a medicina enferma" (Ed. Unicamp, 2004).
      Em Uberaba, os efeitos também foram devastadores. A única empresa funerária entrou em colapso por causa da demanda de sepultamentos, sendo que as urnas funerárias passaram a ser produzidos artesanalmente pela própria população que se responsabilizava por enterrar os mortos. Os doentes da zona rural eram conduzindo em redes, por parentes ou amigos, à procura de atendimento médico. Algumas pessoas contaminadas eram deixados às margens das estradas rurais, ainda vivas, para serem enterrados no dia seguinte, depois do falecimento.
      O tempo de duração da pandemia foi curto, mas suficiente para trazer o sentimento de luto na maioria das famílias. Conforme se pode observar pela leitura do Livro de Registro de Sepultamentos do Cemitério São João Batista de Uberaba, pertencente ao acervo da Superintendência do Arquivo Público de Uberaba, depois de um início tímido no mês de outubro, com apenas dois casos atingiu o apogeu no mês de novembro, com 285 óbitos e os últimos casos apareceram em dezembro de 1918, com 19 casos.

Amostra do livro de Sepultamento da Câmara Municipal de Uberaba de meados de novembro de 1918. Observa-se o intenso número de mortes identificados como Gripe. Também é constante as mortes por Broncopneumonia e Sem Assistência médica (causas não identificadas). Fonte: Acervo da Superintendência do Arquivo Público de Uberaba. Nov. 1918. p. 130.
Amostra do livro de Sepultamento da Câmara Municipal de Uberaba de meados de novembro de 1918. Observa-se o intenso número de mortes identificados como Gripe. Também é constante as mortes por Broncopneumonia e Sem Assistência médica (causas não identificadas). Fonte: Acervo da Superintendência do Arquivo Público de Uberaba. Nov. 1918. p. 130. 



            Segundo o cronista do jornal "Lavoura e Comercio" do dia 20 de outubro de 1918, Uberaba virou um enorme hospital devido ao número exagerado de enfermos, 2/3 da população da cidade - aproximadamente 10 mil pessoas, sendo que apenas 30% teriam escapado do contágio. As ruas se transformaram num deserto pela absoluta falta de vida comercial e social:

Notadamente as ruas ficaram desertas. Desertas as confeitarias e clubs, tendo-se até fechado dezoito casas commerciaes nas principaes ruas. Algumas pharmacias figuram entre essas casas.  (Lavoura, 20 de outubro de 1918. p.3).

         A Câmara Municipal de Uberaba instalou postos de socorro (sic) no centro da cidade, forneceu remédios e nomeou o médico Dr. Álvaro Caldeira, para o cargo de Delegado de Hygiene Municipal (cargo equivalente à médico sanitarista), que lançou um boletim à população com as seguintes advertências:

"Medidas preventivas contra a grippe hespanhola":
(...) 2º Evitar o contato das pessoas em cujo domicílio houver casos de grippe; não receber visitas em caso de doenças, sinão depois do diagnóstico médico; não permanecer em logares em que haja agglomeração (theatros, cinemas, etc.); evitar resfriamentos, que são a porta aberta à infecção.
3º Friccionar o corpo com toalha felpuda, embebida ou não em alcool de 40 gráus, caso se esteja com as roupas ou pés molhados, lavar frequentemente as mãso com agua e sabáo, esfregando-as antes das refeições, com alcool, quando possivel.
4º Não comer frutas verdes, nem dar às creanças ballas coloridas ou doces indigestos, evitar perturbações gastricas e toda sorte de excessos ou fadigas; não usar de verduras, sinão depois de bem lavados.
5º Usar gargarejos com aguas oxygenada (diluída em parte egual de aguar fervida), com agua salgada (1 colhar de chá de sal de cozinha para meio copo d'agua fervida), com agua salgada (1 colher de chá de sal de cozinha para meio copo d     'agua fervida), com cozimento de folhas de goiabeira ou ainda com succo de limão (o succo de um limão misturado em meio copo d'agua fervida); as pessoas abastadas poderão usar, de preferencia, o seguinte colluctorio: Titura de iodo -2gr; Menthol -20 centígramas, Clycerina - 20 gras.
6º Applicar no nariz, pela manhã e à tarde, algumas gottas de glycerina com menthol e goomenol ou aspirol, acido borico mentholado (...)           (LAVOURA, 28 de novembro de 1918)

      No dia 20 de dezembro surgiram os últimos casos com o diagnóstico de gripe. O historiador que se debruçar sobre o assunto poderá verificar que a sociedade não se omitiu diante da tragédia. As pessoas se mobilizaram e, mesmo com as limitações típicas do período, arregaçaram as mangas e evitaram que a proliferação fosse mais contundente. Com o fim do problema, o registro do jornal revelou a importância da mobilização da população e o luto nesse período funesto da história local.

Referencial bibliográfico:

BERTUCCI, Liane Maria; Influenza, a medicina enferma; Ed. Unicamp, 2004


Fontes consultadas:

Jornal: Lavoura e Comércio, Uberaba, outubro e novembro de 1918. Acervo: Superintendência do Arquivo Publico de Uberaba.

Livro: Registro de Sepultamentos de Uberaba, 1911 A 1930. Acervo: Superintendência do Arquivo Publico de Uberaba.


Pesquisa e texto: Luiz Henrique  Cellurale
Apoio: Priscila Mariano

terça-feira, 4 de dezembro de 2018

Superintendente do Arquivo Público de Uberaba Marta Zednik de Casanova foi homenageada com a medalha José Mendonça




A Câmara Municipal de Uberaba concedeu em solenidade ocorrida em 28 de novembro, a entrega da medalha "Doutor José Mendonça", a Superintendente do Arquivo Público de Uberaba, historiadora Marta Zednik de Casanova e ao advogado e escritor Guido Luiz Mendonça Bilharinho.

 A solenidade ocorrida no plenário da Câmara de Uberaba, é uma honraria instituída por meio de resolução de iniciativa dos ex-vereadores Jesus Manzano (in memoriam) e Teresinha Cartafina, para homenagear pessoas que são destaque no setor de artístico e cultural no município. 

Confira as imagens:

















Abaixo o vídeo da Cerimônia na íntegra:



Homenagem de João Eurípedes Sabino a Marta Zednik de Casanova e a Guido Bilharinho



O QUE SERIA? (*)

O que seria da insônia?
Se não existissem os escritores
São eles que no meio da madrugada
Despertam como quem não quer nada
E do coração atendem os clamores
Ӂ
O que seria dos poetas?
Se não existissea agonia
Na calada da noite quando todos dormem
Eles, os poetas, despertos se consomem
Vendo no leste surgir o novo dia
Ӂ
O que seria da história?
Se não existissem os historiadores
Enquanto para muitos registrar fatos não importa
Para eles, os historiadores, nada é letra morta
Por isso seus nomes assumem grandes valores
Ӂ
O que seria das gerações futuras?
Não fossem os que preservam hoje o passado
Dão suas vidas para deixarem tudo bem escrito
Constroem um legado que caminha rumo ao infinito
O jovem de hoje lá será o grande beneficiado
Ӂ
O que seria da dor?
Não fosse um coração pronto para doer
Quando assiste a derrocada de valores inalienáveis
O historiador e o poeta sentem dores insuportáveis
Mas resistem! Como se não fossem morrer...

(*) João Eurípedes Sabino
Oferecido a Marta Zednik de Casanova e Guido Luiz Mendonça Bilharinho.

Uberaba, 30 de novembro de 2018. 

sexta-feira, 9 de novembro de 2018

Curso do SENAC - Uberaba visita dependências da Superintendência do Arquivo Público de Uberaba


Nesta semana, a professora Patrícia Melo e onze alunos do curso em "Assistente Administrativo", promovido pelo Serviço de Nacional de Aprendizagem Comercial - SENAC de Uberaba, visitaram a sede da Superintendência do Arquivo Público de Uberaba para conhecer como se dão os trabalhos de salvaguarda de documentos dos acervos histórico e administrativo do município desenvolvidos pela instituição.

Veja algumas imagens da visita:







quinta-feira, 1 de novembro de 2018

DOCUMENTO EM DESTAQUE: Deserção de soldados para a Guerra do Paraguai em 1865



Dr. Henriques Raimundo des Genettes foi agente executivo de Uberaba, no período de 1865 a 1869. Durante este período ocorreu o episódio da Guerra do Paraguai, onde Raimundo prestou serviço como médico no 32º Batalhão de Guardas Nacionais de Uberaba. Em apoio promoveu o alistamento de voluntários da Pátria para se incorporarem à Guarda Nacional, tendo em vista a organização do sistema de defesa militar diante da invasão do Paraguai no território do Mato Grosso (atual Estado do Mato Grosso do Sul), pelas tropas do Paraguai, em 12 de fevereiro de 1865.

Entretanto, a apresentação sem fardas e sem espadas dos recrutas mineiros, aquartelados em Uberaba, provocou embaraços aos vereadores e algumas deserções na força expedicionária.

 Outro fato que provocou baixas na tropa foi a varíola. Consta que quase um terço da população uberabense foi vítima da varíola nessa época. Cerca de 600 pessoas, entre soldados e civis, morreram nos três meses de sua duração. Na época era comum a construção de hospitais fora da zona urbana para evitar a contaminação da população por doenças infectocontagiosas. Na tentativa de coibir epidemias a Câmara construiu um “Lazareto” e transferiu os doentes para esse local.  Com a epidemia a população rural deixou de vir à cidade, ocasionando prejuízos para o comércio.

Des Genettes criou o fundo de assistência para garantir o socorro aos soldados feridos em combate.

 Apesar do recrutamento de voluntários, houve muitas deserções, causando indignação no Dr. Henriques Raimundo des Genettes, que se tornara amigo do Visconde de Taunay (engenheiro que registrou a guerra em um diário), conforme relata José Mendonça:

O cirurgião da Guarda Nacional aquartelada (Dr. des Genettes) andava furioso e debalde gastava eloquência, tentando comprimir e atalhar os contínuos acessos de terror de sua brava gente. Nada conseguiu e, no fim de pouco tempo, tudo quanto enchera o quartel se havia evaporado, levando, por cima, o fardamento distribuído, utensílios de campanha, cantinas, cinturões e o armamento! A debandada fora completa, diremos até conscienciosa.

MENDONÇA, p. 96


O documento abaixo se refere a um processo do cartório criminal do Judiciário, de 13/12/1865, onde o coronel comandante militar enviou ofício ao delegado de polícia Balbino de Morais Pinheiro, sobre possível influência do réu Fidélis José da Silva sobre soldados para desertarem.

Processo de deserção com parecer jurídico sobre o caso do réu Fidélis José da Silva. Acervo:  Superintendência do Arquivo Público de Uberaba.

Visite o Arquivo Público de Uberaba e consulte o processo e outros que lhe ajudarão a entender a história de Uberaba.


SUPERINTENDÊNCIA DO ARQUIVO PÚBLICO DE UBERABA COMPLETA 33 ANOS EM 04 DE NOVEMBRO DE 2018



 A Superintendência do Arquivo Público de Uberaba foi fundada em 04 de novembro de 1985. É considerado o maior Arquivo do interior de Minas Gerais, onde os documentos históricos e administrativos interagem na gestão documental.
As funções do Arquivo Público são: recolher, resguardar, preservar documentos históricos e dos órgãos da Prefeitura, além de receber documentos privados, de interesse público, tendo como objetivo difundi-los e disponibilizá-los aos cidadãos.
Há leis que regulamentam o tratamento que devem receber os documentos públicos. A Lei Municipal 10082/2006 definiu a política de Gestão Sistêmica de Documentos e Informações Municipais (GSDIM), que deve ser aplicada pelos órgãos municipais da administração direta e indireta.
A coordenação, implantação, gerenciamento e a normatização da GSDIM são de competência da Superintendência do Arquivo Público, vinculada à Secretaria de Governo, com a participação simultânea de todos os órgãos municipais.
              Aproximadamente cinco mil pessoas procuram anualmente o Arquivo Público, em busca de conhecimento, pesquisa e documentos.
As “Ações Educativas” desenvolvidas na instituição, junto à rede pública e particular de ensino, têm como objetivo conscientizar os alunos sobre a importância da história de Uberaba e sobre a preservação documental.  Recebe anualmente, cerca de três mil alunos.
O Arquivo Público desenvolve parcerias com as universidades com o objetivo de promover o conhecimento e a pesquisa em seu acervo documental, viabilizando, com isso, o estudo histórico da cidade.
O Arquivo tem promovido a digitalização de documentos históricos importantes e de diversos jornais do passado, para difundir, com maior rapidez, as informações na internet.
Com o surgimento dos documentos digitais a Superintendência do Arquivo Público e os órgãos públicos municipais são responsáveis pela proteção e gerenciamento dos documentos gerados pela nova tecnologia da informação.
O Laboratório de Restauro da instituição é moderno e inicia-se a capacitação de servidores para o processo de prevenção e conservação do acervo da instituição com a parceria do Fundo Estadual de Cultura.
 Resguarda jornais centenários importantes, entre eles, o jornal impresso Lavoura e Comércio de 1899 e o jornal em formato digital Gazeta de Uberaba, de 1879.
O acervo fotográfico totaliza 77 mil unidades guardadas em modernos armários deslizantes. A foto mais antiga do acervo se refere à  Rua Vigário Silva, de 1876.




Rua Vigário Silva – Ano 1876




O acervo documental da instituição totaliza 12.400 (doze mil e quatrocentas) caixas de documentos, organizado e catalogado.
O volume documental do acervo histórico é composto por seis mil e duzentas caixas. O documento mais antigo é uma Carta de Sesmaria, de 1799, e o atual compreende os jornais de 2018.




Carta de Sesmaria – Ano 1799 (século XVIII)


Os documentos mais procurados do Arquivo Histórico são os inventários.




Inventário mais antigo da instituição, de Francisco Rodrigues de Lima e Alexandrina Maria de Jesus, de 1815




Os documentos provenientes da Prefeitura estão organizados e guardados em seis mil e duzentas caixas. A série documental mais antiga data de 1940, e a atual, de 2018, é relativa a finanças.
Os documentos mais procurados do acervo do arquivo administrativo são as plantas de edificações, de particulares.

Planta arquitetônica da fachada da residência na Rua Manoel Borges, propriedade de Pedro Salomão, de 1941

 Em 2017 a instituição arquivística modernizou e iniciou as publicações e-books, pelo fato de terem baixo custo e um alcance social maior de leitores e pesquisadores. 

Publicou, então, em 2017, o primeiro e-book, Anais dos Livros de Atas da Câmara Municipal de Uberaba 1857 a 1900 - Século XIX. É uma edição inédita da série documental mais importante do Arquivo, que registra a história do município desde os primórdios.
A instituição criou a Revista Memórias, no suporte impresso e digital que contempla a história de cidadãos e instituições que contribuíram para delinear a história da cidade.
Em 2018 publicou vários e-books que estão postados no Blog do Arquivo e no site da Prefeitura.  
Outra publicação importante é o Guia do Acervo -2018, um grande avanço, que disponibiliza para os pesquisadores, em suporte digital, a totalidade do acervo documental da instituição, com objetivo de facilitar o atendimento e a pesquisa.

Marta Zednik de Casanova
 Superintendente do Arquivo Público de Uberaba





ENDEREÇOS ELETRÔNICOS:
http//WWW.uberaba.mg.gov.br/portal/conteudo,10403
Facebook: Superintendência do Arquivo Público de Uberaba

sexta-feira, 19 de outubro de 2018

Parceria entre Superintendência do Arquivo Público de Uberaba e UFTM - Núcleo em Pesquisa Regional para o estudo de fontes históricas


Criado em 2017, o Núcleo de Pesquisas em História Regional do curso de licenciatura em História da Universidade Federal do Triângulo Mineiro (UFTM), tem como finalidade fomentar pesquisas sobre os aspectos sociais, políticos, econômicos  e culturais na região do Triângulo Mineiro, outrora  "Sertão da Farinha Podre".

A UFTM, por meio dos professores doutores Flávio Dias Saldanha, Ilana Peliciari e Marcelo de Souza Silva, em parceria com a Superintendência do Arquivo Público de Uberaba, tem desenvolvido atividades durante o segundo semestre de 2018, que visam despertar o interesse dos acadêmicos para estudos inerentes às discussões da historiografia regional. 

Nesta etapa, estão ocorrendo oficinas periódicas nas dependências da Superintendência do Arquivo Público de Uberaba, com apoio da equipe da casa e dos professores, com abordagens metodológicas, para possíveis pesquisas sobre as fontes históricas disponíveis nos acervos da instituição.  

O cronograma trabalhado com os universitários segue as seguintes atividades:




Confira as imagens de uma das oficinas realizadas na sede da Superintendência do Arquivo Público de Uberaba:









segunda-feira, 8 de outubro de 2018

Jornal Gazeta de Uberaba Acervo: 1879 a 1912


Tobias Rosa foi um dos dirigentes do Jornal Gazeta de Uberaba. Imagem do final do século XIX. Acervo: Superintendência do Arquivo Público de Uberaba.


Jornal Gazeta de Uberaba
Acervo: 1879 a 1912

A Imprensa no Brasil:

Os jornais são referências fundamentais para as pesquisas historiográficas por garantirem acesso à informação e revelarem ideologias diferenciadas, as tradições, os usos, os costumes, as atividades comerciais, os aspectos políticos, sociais, culturais e econômicos, que marcaram a trajetória de um povo.

No Brasil, qualquer atividade de imprensa era proibida antes de 1808 e, consequentemente a imprensa brasileira nasceu tardiamente, assim como o ensino superior, as manufaturas, a própria independência política e a abolição da escravatura.

Ao contrário dos principais países latino-americanos, o Brasil entrou no século XIX sem tipografia, sem jornais e sem universidades, inviabilizando a formação do público leitor. Isso gerou um legado de analfabetismo, sentido até hoje.

A primeira tipografia a funcionar de forma duradoura no País viria a bordo da nau Medusa, integrante da esquadra que transferiu a Corte Portuguesa para o Brasil em 1808, fugindo das tropas napoleônicas. Utilizando-se desse material tipográfico o príncipe D. João baixou um decreto em 13 de maio de 1808, determinando a instalação da Impressão Régia no Rio de Janeiro, com a ressalva de que nela “se imprimam exclusivamente toda a legislação e papéis diplomáticos que emanarem de qualquer repartição do meu real serviço, e se possam imprimir todas e quaisquer obras, ficando inteiramente pertencendo seu governo e administração à mesma Secretaria”.

A imprensa brasileira tem como marcos fundadores: o lançamento, em Londres, do Correio Braziliense, em 1º de junho, e a criação da Gazeta do Rio de Janeiro, em 10 de setembro, ambos de 1808.

Apesar dos percalços e limitações, a imprensa brasileira conquistou espaço em sua trajetória histórica e possui um número apreciável de jornais que têm revelado notável capacidade de inovação técnica e editorial, o que lhes permitem vencer todos os desafios surgidos até hoje.

A Imprensa em Uberaba:

                  Em Uberaba, a imprensa surgiu em fins do século XIX e desde então revela fatos importantes que marcaram a história da cidade e do Brasil. Os jornais fundados na cidade tiveram o desafio de construir um jornalismo informativo, crítico e esclarecedor.

O primeiro jornal impresso que se tem notícia no Triângulo Mineiro surgiu em Uberaba, intitulado O Paranaíba, que segundo o pesquisador Hildebrando Pontes[1], foi criado pelo médico francês  Henriques Raimundo des Genettes em 01 de outubro de 1874.

Hildebrando Pontes revela que a maioria dos primeiros impressos obedecia a fins políticos, “daí ser a política uma das causas que mais eficazmente contribuíram para o progressivo desenvolvimento da imprensa entre nós” [2]. Lembra que por estes impressos manterem posicionamentos políticos em suas abordagens, alguns jornalistas sofreram violências das partes ofendidas.

Segundo Hildebrando Pontes, em boa parte era graças aos jornais que a civilização ganhava força: “Hoje, graças ao benemérito influxo da civilização, cuja maior parte se deve à imprensa, a leitura de jornais é tão necessária ao espírito como o alimento que da vida e força ao organismo. Um fato parece não ter importância se dele não se ocupa a imprensa”.


Jornal Gazeta de Uberaba:

Com a preocupação em viabilizar para o público o acesso às informações pertinentes à imprensa de Uberaba, a Superintendência do Arquivo Público tem como um dos objetivos recuperar acervos documentais. Diante disso, intermediou junto a Arnaldo Rosa Prata, ex-prefeito de Uberaba, a disponibilização do Jornal Gazeta Uberaba para ser digitalizado e disponibilizando via internet para o público.

O Gazeta de Uberaba foi distribuído pela primeira vez em 1875 e teve como primeiro diretor e redator  José Alexandre de Paiva Teixeira. Na primeira etapa de sua existência foi publicado até fevereiro de 1876.

 Em 27 de abril de 1879 o mesmo jornal foi recriado por João Caetano e Tobias Rosa (tio de Arnaldo Rosa Prata) e nessa época o impresso manteve uma atuação político-partidária oponente ao Partido Liberal que era representado por outro jornal com o título de Correio Uberabense.

O Jornal Gazeta de Uberaba foi o quarto periódico criado em Uberaba.

 Arnaldo Rosa Prata resguarda o acervo há anos e gentilmente emprestou os jornais para serem digitalizados pela Superintendência do Arquivo Público de Uberaba. Um acervo de grande importância para a história do município e região e se refere ao período de 27 de abril de 1879 a 1912.

O Gazeta de Uberaba era um periódico semanal, que após 30 de novembro de 1894 passou a circular seis vezes por mês. Em 1º de janeiro de 1903, a circulação passou a ser diária e tornou-se o primeiro jornal diário que Uberaba teve.

Nas oficinas montadas com capricho, na Rua Tristão de Castro, nº 2, executavam-se excelentes trabalhos de arte tipográfica. A sua tiragem  era de 1.200 exemplares impressos em 4 a 6 páginas. Na sua existência de aproximadamente meio século de circulação, o Gazeta de Uberaba contava com um numeroso corpo de colaboradores representados por distintos jornalistas nacionais e estrangeiros.

Em 1891 assumiu a direção do jornal o professor Alexandre Barbosa, sucedido pelo promotor de justiça pública de Uberaba, Joaquim José Saraiva Júnior, que também não permaneceu por muito tempo na direção, uma vez que foi transferido para a Promotoria de Monte Alegre. Sendo assim, a coordenação e redação passaram para as mãos de Chrispiniano Tavares, José Maria Teixeira de Azevedo e outros. Quando entrou em cena a República, a aderência política afeita pela folha ajustou-se ao Partido Republicano Mineiro (PRM).

 Já no ano de 1895, o então proprietário do jornal Gazeta de Uberaba, Tobias Antônio Rosa, mudou-se para o município de Ribeirão Preto, levando consigo o jornal, que passou a ser intitulado São Paulo e Minas. Em 1897 Tobias Antônio Rosa voltou para Uberaba e reabriu as portas da redação do jornal com o seu nome anterior, Gazeta de Uberaba.

      Na sucessão da presidência do Estado de Minas Gerais, de Bias Fortes, para Silviano Brandão, surgiu em Uberaba o Partido da Lavoura e Comércio, entidade que representava os interesses de segmentos econômicos da região que eram contrários às taxações cobradas em detrimento aos seus interesses financeiros. Assim nasceu também o jornal Lavoura e Comércio, em 1889, de propriedade de Antônio Garcia de Adjunto. O embate de interesses políticos na região ficou marcado claramente nas linhas editorias dos dois jornais: de um lado estava o Gazeta de Uberaba, alinhado com as proposições políticas do governo de Minas Gerais, de Silviano Brandão; do outro lado, o Lavoura e Comércio, entrincheirando os interesses classistas locais.

A oposição do jornal Gazeta de Uberaba ao jornal Lavoura e Comércio se deu até a fusão do Partido da Lavoura e Comércio com o Partido Republicano Mineiro, em janeiro de 1903. Após esse período o Gazeta de Uberaba centrou-se noutras questões de interesses gerais como relata Pontes[3].

       Hildebrando Pontes, mostra no seu estudo sobre a imprensa de Uberaba que, o Gazeta de Uberaba, a partir de 1909, ajustou seu enfoque editorial à defesa do recém-criado Partido Civilista, contrário a indicação feita pela convenção nacional ao pleito da Presidência da República. Hildebrando Pontes ainda conta que o jornal tomou outra linha absolutamente diferente pela marcada até então, quando:


[...] Entretanto por transação de 21 de janeiro do ano seguinte, entre os diretores os senhores Tobias Rosa e Filho e o Coronel Américo Brasileiro Fleury, passou a ser, a Gazeta de Uberaba, desse dia em diante propriedade do último. Essa transação inverteu diametralmente, os pólos de defesa política do jornal, que passou a ser agora, órgão francamente hermista, politicamente redigida pelo deputado Afrânio de Mello Franco, e literariamente redigido pelo José Afonso de Azevedo, figurando, ainda, no seu corpo de colaboradores, além de outros, o Dr. José Julio de Freitas Coutinho, Juiz Municipal de Uberaba. Cessada a campanha hermista, continuou como órgão do PRM, redactoriado pelos doutores Lauro de Oliveira Borges, Alaor Prata Soares e José Julio de Freitas Coutinho. (PONTES, JORNAL CORREIO CATÓLICO, 1931. n/p).

                     A partir de 24 de janeiro de 1911, o jornal Gazeta de Uberaba tornou-se “Propriedade de uma Associação”, dirigida pelos mesmos senhores, menos o Dr. Coutinho, que se retirou.

No entanto, o Jornal Gazeta de Uberaba teve suas atividades interrompidas em 1912.

 Em novembro de 1913, o coronel Tobias Rosa, fundou a Gazeta do Triângulo, uma associação que defendia os interesses do PRM – Democrata.

Em 1915 rearticulou a volta do Gazeta de Uberaba, que dessa vez atendia aos interesses  do “Partido da Concentração Municipal de Uberaba”. Desse modo, o Gazeta de Uberaba funcionou até 1917, ano em que faleceu o coronel Tobias Antônio Rosa.



Marta Zednik de Casanova
Superintendente do Arquivo Público de Uberaba






[1] PONTES, Hildebrando. A Imprensa de Uberaba. JORNAL CORREIO CATÓLICO, 21 de mar. 1931. n/p. nº 360.
[2] Id. Ibid. n/p.
[3] PONTES, Hildebrando. A Imprensa de Uberaba. JORNAL CORREIO CATÓLICO, 21 de mar. 1931. n/p. nº 360. n/p.




*** Na Hemeroteca Digital do Arquivo Público Mineiro, você pode acessar (CLIQUE AQUI), o acervo do Jornal Correio Católico e de outros jornais de Uberaba e do Triângulo Mineiro. A Superintendência do Arquivo Público de Uberaba participou efetivamente na construção deste projeto. Confira!