quinta-feira, 14 de março de 2013

UFTM em parceria com a Superintendência de Arquivo Público

           Com o apoio da CAPES - Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior - a Universidade Federal do Triângulo Mineiro desenvolve o PIBID - Programa Institucional de Bolsas de Iniciação à Docência - com vistas ao aperfeiçoamento e valorização da formação de professores da Educação Básica. No corpo do projeto institucional, o subprojeto História e Linguagens Artísticas, coordenado pelo professor Dr. Rodrigo de Freitas Costa, desenvolve uma série de atividades com alunos do curso de História  e alunos da Educação Básica e como parte do planejamento deste semestre, há uma visita a Superintendência de Arquivo Público. Diante disso a Escola Tiradentes  do 4° Batalhão da Polícia Militar de Mina Gerais, sob a orientação da Professora Joana Darc Silva, esteve presente na instituição para conhecer o acervo e serviços disponibilizados pela Superintendência de Arquivo Público, parceira da UFTM.



Alunos da Escola Tiradentes do 4° Batalhão da Polícia Militar de Minas Gerais em visita a Superintendência de Arquivo Público

sexta-feira, 8 de março de 2013

Uberaba: “uma cidade entre córregos e colinas”

Os primeiros habitantes do arraial de Uberaba construíram suas moradias na parte central da cidade, localizada numa depressão, que corresponde ao trecho do calçadão da Rua Artur Machado.  O viajante Barão de Eschwege, que passou no arraial em 1816, citou a presença de nove famílias e 47 moradores nessas imediações (ESCHEWEGE, 1994, P. 93). Três anos após, o francês Saint Hilaire passou por Uberaba e destacou: “... o arraial é composto de umas trinta casas espalhadas nas duas margens do riacho e todas, sem exceção, haviam sido recém construídas (1819), sendo que algumas estavam inacabadas quando por ali passei. Muitas delas eram espaçosas, pelos padrões da região, e feitas com esmero...” (HILAIRE,1975, P. 150).
                Com o crescimento da cidade, outros locais foram ocupados e, devido ao relevo (topografia) do local foram povoadas áreas de maiores altitudes, conhecidas no século XIX como Colinas. O traçado das ruas seguia o padrão de algumas cidades do Brasil – colônia, com alinhamentos irregulares, como se pode perceber nas cidades de Paracatu, Ouro Preto e Sabará, em Minas Gerais. Outra cidade com essas características é a cidade antiga de São Mateus, Estado do Espírito Santo. De acordo com Borges Sampaio:
           “...os primeiros habitantes, não prevendo talvez o grande desenvolvimento que o povoado - Uberaba - em breve tempo havia de atingir e o importante papel que mais tarde representaria no País, não seguiram, desde o princípio um plano retangular de arruamento para as edificações dos prédios públicos. Antes, desprezando esse alinhamento regular, que tanto convém e agrada nos grandes, como nos pequenos povoados, foram edificando casas, formando os quintais e chácaras, acompanhando as ondulações do terreno e serpenteando dos pequenos regatos, quiçá porque assim se lhes oferecia  melhor comodidade para o uso das águas, utilizando-se mais da fertilidade do solo (...) daqui veio a rua principal, a primitiva, a maior e mais importante, aquela que por muito tempos se chamou - Direita - é das menos retas, ocasionando, ela mesmo, a irregularidade que hoje se lamenta...” (SAMPAIO, 1971, P. 47)
            Em seu estudo topográfico publicado no ano de 1880, Sampaio identificou a existência de 6 colinas, onde atualmente se encontram os seguintes bairros: Boa Vista, Estados Unidos, Abadia (Colina da Misericórdia), Leblon (Colina do Barro Preto), São Benedito (Colina da Matriz) e Mercês (Colina Cuiabá). Nessa época, o bairro Boa Vista compreendia também o bairro do Fabrício, que ainda não tinha esse nome (SAMPAIO, 48).




Uberaba do século XIX, com apenas 6 colinas. Observação do Vale à partir do Mirante da Univerdecidade

O termo colina utilizado por Sampaio referia-se aos pontos mais altos da cidade, naquela época. Do ponto de vista geomorfológico, o relevo de Uberaba se caracteriza, na realidade, como uma planície de deposição sedimentar (depressão), com material oriundo das altas cadeias que havia na região de Araxá (Serra da Canastra). Devido ao fato de que esse material sedimentar ser suscetível a erosões, o deslocamento das águas dos córregos moldou a topografia de Uberaba, fazendo surgir alguns vales, onde hoje se encontram as principais avenidas da cidade, como Avenida Leopoldino de Oliveira, Santos Dumont, Guilherme Ferreira e Fidelis Reis.
            Durante o século XX, Hildebrando Pontes, substituiu o termo Colinas por Altos e identificou mais um Alto, o Fabrício (PONTES, 1978, P. 274). Nessa época, o Alto do Fabrício já havia se desmembrado do Alto Boa Vista e sua nomenclatura refere-se ao ferreiro Fabrício José de Moura, morador da Praça Santa Teresinha, que mantinha uma oficina de ferreiro e uma hospedaria, atividades convenientes para a recepção de comitivas de viajantes e de carros de bois, que chegavam a Uberaba pela região onde hoje se encontra a Avenida Pedro Lucas, ou corredor dos boiadeiros, que servia de acesso à Uberaba para quem vinha do norte do Triângulo Mineiro, do arraial de São Pedro de Uberabinha (atual Uberlândia), Palestina e Mangabeira.


Uberaba do século XX, com as 7 colinas. Observação do Vale à partir do Mirante da Univerdecidade
 
Nos dois autores, a delimitação dos bairros acontece naqueles vales, onde correm córregos que, canalizados, deram lugar às avenidas. Assim, podemos identificar o córrego da Estação e do Pontilhão na atual Avenida Fidelis Reis. O Córrego Barro Preto, atual Guilherme Ferreira e o Córrego da Manteiga, atual Avenida Santos Dumont. De acordo com o mapa de Uberaba confeccionado pelo engenheiro Abel Reis em 1942, o Córrego Olhos D’água nasce nas proximidades do Conjunto Frei Eugênio e segue até o Mercado Municipal. Daí para a frente, esse Córrego deságua no Córrego das Lages, que percorre o trecho do Mercado Municipal, sentido Univerdecidade, até o Rio Uberaba e drena toda a bacia da cidade.
            Como vimos, houve uma diferença na identificação das colinas entre Sampaio e Pontes. No século XIX em nenhum momento aparece a expressão “sete colinas”, o que ocorre com freqüência no século XX, conforme podemos verificar nos estudos de Hildebrando Pontes (PONTES, 274). De acordo com o professor Carlos Pedroso, é provável que essa denominação tenha entrado no domínio popular depois da vinda do primeiro bispo Dom Eduardo Duarte Silva para Uberaba. Segundo ele, Dom Eduardo morou na cidade de Roma, conhecida desde a antiguidade como cidade das sete colinas. “Naturalista e observador, não é difícil supor ser o bispo o único curioso observador dos córregos e colinas”, afirma Pedroso.
            A conceituação inicial das colinas nos séculos XIX e XX se limitava aos bairros próximos do centro. Com o crescimento da cidade de Uberaba e o surgimento de novos bairros na zona periférica é difícil compreender a manutenção do mesmo conceito inicial das colinas. Afinal, quantas colinas existe na Uberaba atual?  

Marta Zednik de Casanova – Superintendente de Arquivo Público
João Eurípedes de Araújo – Diretor de Difusão, Apoio á Pesquisa e Atendimento
Luiz Henrique Cellurale – Pesquisador
Donizete Fontes Calçado – Pesquisador

terça-feira, 5 de março de 2013

BREVE TRAJETÓRIA DE UBERABA - 193 ANOS

     
               De 1660 a 1670 a Região do Triângulo Mineiro recebeu vários nomes: Sertão do Novo Sul, Sertão Grande, Sertão Sul e Geral Grande.
            Outro nome recebido foi “Sertão da Farinha Podre”, termo nascido em 1807, quando uma bandeira saiu do Desemboque e invadiu os sertões do Pontal do Triângulo Mineiro até às margens do Rio Grande. Os viajantes deixavam sacos de farinha no caminho para comê-los na volta. Ao retornarem ao local encontravam a farinha apodrecida. Outra explicação para o nome “Sertão da Farinha Podre” seria originária de uma região portuguesa de onde vieram alguns portugueses exploradores.
            O nome Triângulo Mineiro ficou conhecido a partir de 1884, denominação idealizada pelo Dr. Raymond Henrique Des Genettes, médico francês, jornalista e político, radicado em Uberaba, por saber que a região situada entre o Rio Grande e o Paranaíba, terminava na junção de dois rios, formando o Rio Paraná, apresentava a forma aproximada de um triângulo.
            Os primeiros habitantes da Região Triângulo Mineiro foram os índios, de tradições seminômades, cujas tribos se movimentavam de um local para outro. Primeiramente a Região foi ocupada pelos índios Tupis, depois os Tremembés, os Caiapós e os Araxás. As tribos viviam em grupos de poucas famílias, com simplicidade e sobreviviam do que a natureza oferecesse.  Quando os Bandeirantes no século XVIII atravessaram de sul a norte a vasta Região do Triângulo Mineiro, com destino a Goiás, em busca de ouro, depararam com os índios Caiapós.
Uberaba tem então a sua origem na ocupação do Triângulo Mineiro, que ficou sob a jurisdição de Goiás até 1816, quanto a Região passou a pertencer à província de Minas Gerais, de acordo com o Alvará de D. João VI de 04/04/1816.
            A Região do Triângulo Mineiro começou a ter grande importância para a Coroa Portuguesa a partir dos fins do século XVI, que tinha como uma das metas administrativas passar pela região e atingir Goiás com o objetivo de encontrar os minerais preciosos, amansar os índios e se fosse preciso até exterminá-los.
            A primeira investida do colonizador português, ou seja, do homem branco, sobre a Região do Triângulo Mineiro começou em fins do Século XVI, precisamente a partir do ano de 1590, data da primeira “Bandeira” (expedição), chefiada pelo capitão Sebastião Marinho, que partiu de São Paulo e atingiu o rio Tocantins em Goiás.
            Por volta do ano de 1600 surgiu a Aldeia de Santana do Rio das Velhas (hoje Araguari), considerado o primeiro núcleo de povoamento branco na área que seria o futuro Estado de Minas Gerais, fundado pelos Padres Jesuítas com o objetivo de aculturar os índios, ou seja, catequizá-los.
             Posteriormente, inúmeras “Bandeiras” paulistas foram organizadas ao longo do século XVII e XXIII, com a mesma finalidade. As mais significativas para a Região do Triângulo Mineiro são descritas abaixo:
            -Em 1615 partiu de São Paulo uma “Bandeira” liderada por Antônio Pedroso de Alvarenga que atravessou a Região do Triângulo Mineiro com destino a Goiás.
            -Outra “Bandeira” partiu de São Paulo em 1682 e também atravessou o Triângulo Mineiro até alcançar Goiás, sendo liderada por Bartolomeu Bueno da Silva (o velho Anhanguera) que levou seu filho Bartolomeu Bueno da Silva Filho de apenas 12 anos.
           -Em 1722 partiu outra “Bandeira” de São Paulo para a abertura de uma estrada para Goiás para a exploração de minas de ouro, prata e pedras preciosas. Esta missão ficou a cargo de Bartolomeu Bueno da Silva Filho (filho de Anhanguera). A expedição era composta por 152 homens, entre os quais 20 índios carregadores, 3 religiosos, 20 índios, 1 mascate francês e 39 cavalos. Ela partiu de São Paulo pelos rios Atibaia, Camanducaia, Moji-Guaçu, Rio Grande (Porto da Espinha), passando em Uberaba a sessenta metros dos fundos do atual cemitério São João Batista. Depois a expedição continuou a viagem em direção ao Rio das Velhas e penetrou em Goiás pelo rio Corumbá. Segundo alguns relatos da época, a expedição passou por terras de Uberaba. Esta rota ficou conhecida como Estrada Real ou Anhanguera, que consistia em um importante caminho para que as autoridades portuguesas implantassem a colonização, a produção e escoamento dos minerais preciosos. Na verdade, a maioria das riquezas minerais do Brasil - Colônia foi levada para Portugal e utilizada para o pagamento de suas dívidas em relação à Inglaterra.
            -Posteriormente, a expedição do filho de Anhanguera fundou em 1725 o povoado de Vila Boa em Goiás. Dessa forma foi aberta a estrada que passava pelas terras de Uberaba. Por este feito, Bartolomeu Bueno da Silva Filho recebeu como recompensa a nomeação de Capitão-Mor Regente das minas de Goiás e o direito de conceder “sesmarias” (concessão de terras para o povoamento).
            -Em 1727,Antônio de Araújo Lanhoso foi o primeiro homem branco que se fixou na região de Uberaba e um dos primeiros a receber sesmarias ao longo da estrada de Anhanguera, a 15 km de Uberaba, no córrego do Lanhoso, que corre paralelo à rodovia para Uberlândia.    
            -Outra estrada denominada Picada de Goiás foi aberta em 1736, saindo de Minas Gerais e passando do lado oriental da Serra da Canastra atingindo terras de Araxá em direção à Vila Boa. A estrada foi terminada em 1738, ligando as minas goianas a São João Del Rei e Vila Rica. Ao longo destas estradas foram concedidas também sesmarias, ou seja, terras que aos poucos foram sendo ocupadas pelo colonizador branco.


Praça Rui Barbosa, no século XIX
 
           A exploração e o povoamento de todo o Triângulo Mineiro, de modo geral, se fez como em todo o “Brasil - Colônia”, pelo amansamento e extermínio das populações indígenas e dos negros nos quilombos. As estradas para a Região do Triângulo Mineiro e Goiás tornaram-se palco de batalhas, entre os exploradores dos sertões e os índios. A invasão de terras indígenas provocou muitas vezes sangrentas guerras contra os Caiapós, no antigo Sertão da Farinha Podre (Triângulo Mineiro). Vários quilombos também foram ameaçados pelos exploradores brancos.
             -Diante dessa insegurança, o governo de Goiás viabilizou o policiamento das estradas e por isso nomeou em 1742, o Coronel Antônio Pires de Campos Filho para policiar, amansar e até mesmo exterminar os índios Caiapós da Região do Triângulo Mineiro. Fato constatado com a matança dos Caiapós, sendo a maioria derrotada, submetida e alojada também com tribos Bororo do Mato Grosso em 18 aldeias ao longo da estrada. Uma dessas aldeias de índios mansos (Aldeia de Uberaba Falso) ficava onde se fundou Uberaba, próxima à Barra do Córrego da Lage. O coronel instalou apenas quatro dessas 18 aldeias ao longo da Estrada de Anhanguera para proteger as caravanas que nela trafegavam. Mais tarde em 1751, o Coronel Pires de Campos faleceu em Paracatu, vítima de uma flechada, ocasionando sepcemia.
             Em 1766 foi criado o Julgado de Nossa Senhora do Desterro das Cabeceiras do Rio das Velhas (Desemboque), sob a administração de Goiás, abrangendo a Região do Triângulo e quase todo o sul de Goiás.  Era um local rico em minas auríferas e de intensa exploração. A posse desse Arraial pelo governo de Goiás era vantajosa aos moradores de Minas Gerais, pois estavam livres do pagamento de imposto sobre minerais, denominado "derrama", cobrado em Minas Gerais. Desemboque teve o seu esplendor até 1781, quando as minas auríferas se esgotaram. Algum tempo depois grande número de pessoas migrou para outras terras, ou seja, para o Arraial de Uberaba, fundado por Major Eustáquio. Portanto, a história do Desemboque é de fundamental importância para compreender o povoamento de Uberaba.
            -Em 1807 um grupo de homens (Januário Luís da Silva, Pedro Gonçalves da Silva, José Gonçalves Heleno, Manuel Francisco, Manuel Bernardes Ferreira e outros) oriundos de Desemboque adentrou e ficou no Córrego das Lages. Segundo o Historiador Borges Sampaio um cirurgião prático Pedro Gonçalves da Silva, cujo apelido era Pedro Panga, aproveitando-se da vizinhança de índios mansos, se fixou e construiu em 1809 uma casa, próximo onde se encontra atualmente o Hospital Hélio Angotti.
            Prosseguindo a exploração das terras, o governo de Goiás para dinamizar a administração dos Sertões, nomeou em 1809, Antônio Eustáquio da Silva Oliveira (Major Eustáquio), para a função de “Comandante Regente dos Sertões da Farinha Podre” (Triângulo Mineiro) e, em 1811 foi nomeado pelo Ato Governamental, “Curador de índios”. Ele era natural de Ouro Preto e residente em Desemboque
            -Em 1810, Major Eustáquio organizou no Desemboque uma “Bandeira” passando por terras de Uberaba e seguindo até o Rio da Prata, formado pelos rios Piracanjuba e do Peixe.
            -Outra expedição chefiada por José Francisco Azevedo, atingiu a cabeceira do Ribeirão Lajeado, fundando o Arraial da Capelinha em 1812, aproximadamente a 15 km do Rio Uberaba, próximo ao povoado de Santa Rosa. O povoado chegou a ter vinte casas e foi erguida uma capelinha com as imagens de Santo Antônio e São Sebastião. O Arraial era conhecido como Lajeado ou Capelinha. Entretanto este local não se desenvolveu por falta de água e terras férteis, conforme constatou Major Eustáquio em visita ao Arraial da Capelinha.
            -Para prosseguir a colonização, o “Regente dos Sertões” Major Eustáquio comanda outra expedição em fins de 1812, composta com 30 homens, com o objetivo de procurar novas terras para se estabelecerem. A expedição chega ao Rio Uberaba e fixaram-se na margem esquerda do Córrego das Lajescom o Rio Uberaba, onde foi edificada a Chácara da Boa Vista (hoje Fazenda Experimental da Epamig na Univerdecidade). Junto com Major Eustáquio (considerado o fundador de Uberaba) vieram fazendeiros e aventureiros que passaram a produzir e comercializar com as caravanas que ligavam Goiás a São Paulo. Em 1816 Major Eustáquio construiu retiro para o gado, uma tenda de ferreiro e a sua residência na Praça Rui Barbosa (atual Hotel Chaves na Praça Rui Barbosa). A função de Major Eustáquio significava proteção para os colonos e índios mansos, além de expulsar para longe do Arraial os índios bravos e quilombolas. Consequentemente, grande número de pessoas e famílias do Arraial da Capelinha e do Desemboque sabendo das condições propícias do Arraial de Uberaba e do prestígio e segurança que o comandante Major Eustáquio oferecia, migraram para o novo Arraial. Era uma população muito heterogênea: mineiros que se estabeleceram como fazendeiros, boiadeiros, mascates, comerciantes, criadores de gado, ferreiros e até criminosos foragidos. Os moradores construíram suas casas térreas de pau-a-pique ao redor do retiro de Major Eustáquio, formando a “Rua Grande” (atualmente Rua Manoel Borges e Vigário Silva). Edificaram suas casas e estabelecimentos comerciais acompanhando as ondulações dos terrenos e serpenteando os pequenos regatos. Os moradores do Arraial da Capelinha trouxeram para Uberaba os seus santos protetores e com autorização de Major Eustáquio construíram uma Capela (atual Praça Frei Eugênio, hoje Escola Estadual Minas Gerais), tendo como oragos Santo Antônio e São Sebastião. Posteriormente a Capela foi transformada em Matriz com a criação da Paróquia, benzida em 1818 pelo Vigário do Desemboque Hermógenes Cassimiro de Araújo Brunswick. Assim foi estabelecido o reconhecimento do povoado pela Igreja. Esta instituição representava prestígios decisórios junto aos governos.  A Igreja Católica estava unida ao Estado e a benção de uma capela oficializava, na administração, o nome do Arraial, que passou a chamar-se “Arraial de Santo Antônio e São Sebastião da Farinha Podre”, designação ostentada até 1820.
            Segundo o historiador Borges Sampaio, “o Arraial se desenvolveu e tinha 30 casas e já contava com 1.621 habitantes, dos quais 417 eram escravos”, o que demonstra a riqueza dos proprietários de terras e a grande exploração da mão de obra escrava. A atividade econômica predominante era a agricultura de subsistência, necessária para alimentar a sua população, além das tropas que passavam pelo Arraial. Em 1819 havia criadores com 500 e até 1.000 cabeças de gado, fato que demonstra grande atividade pecuarista.As casas eram construídas com material simples e sem jardim erguendo-se no alinhamento das ruas e serpenteando a naturalidade dos córregos.
O Arraial foi crescendo e isto permitiu que em 2 de março de 1820, o rei D. João VI decretasse a elevação do Arraial de Santo Antônio e São Sebastião à condição de Freguesia (Paróquia). Freguesia era o termo eclesiástico que designava o território de atuação de um vigário.  Com isso, ocorre um desligamento dos laços religiosos, que subordinavam o Arraial de Santo Antônio e São Sebastião (Uberaba) à Vila do Desemboque. O Decreto Real constituiu um grande avanço para a comunidade. Significou a emancipação e gerência própria em assuntos de ordem civil, militar e religioso. Foi o reconhecimento oficial tanto pela Igreja como pelo Governo Real.
            Dada à importância histórica de 02/03/1820, quando a cidade foi elevada à Freguesia, o Município instituiu oficialmente como a data que se comemora o aniversário de Uberaba, a partir de 1995.
            Uberaba teve as suas terras ocupadas à medida que os índios eram aculturados ou expulsos de suas terras formando-se extensas propriedades devidas o baixo valor da terra e a isenção de impostos sobre elas. 
             O fundador e Comandante de Uberaba Major Eustáquio e os fazendeiros mais importantes passaram a exigir a criação da Câmara Municipal. Entretanto ele falece em 1832 e assume a liderança da Freguesia o seu irmão Capitão Domingos da Silva Oliveira.
Nesta época o Governo Regencial (1831 a 1840) implantou no Brasil uma política descentralizadora viabilizando a elevação de Vila em muitos locais do país. A Freguesia de Uberaba em pouco tempo mostrava um grande desenvolvimento e já contava com um número considerável de habitantes: agricultores, pecuaristas e comerciantes e outras profissões, reunindo as condições para ser elevada à condição de Vila. Devido a esses fatos o Governo Provincial de Minas Gerais elevou Uberaba (Freguesia) à condição deMunicípio (Vila) de Santo Antônio de Uberaba em 02 de fevereiro de1836 tornando-se autônomo, com território demarcado e com aCâmara Municipal. Esta foi instalada em 1837, em um prédio na Praça Rui Barbosa, que também abrigou a cadeia, uma tradição dos tempos coloniais. Os primeiros vereadores eleitos eram comerciantes prósperos, fazendeiros e representantes do clero. A Vila cresceu e assumiu importância pela posição geográfica e pela grande atividade econômica.
            Uberaba, em 1840 passou a sediar uma Comarca pela Lei provincial mineira nº 171 com a finalidade de distribuir a justiça na região, tendo como primeiro Juiz de Direito Joaquim Caetano da Silva Guimarães.
            O crescimento econômico e populacional de Uberaba (Vila) viabilizou em 1846 a conquista de um Colégio Eleitoral,vindo a ser sede de grande colégio, que era responsável pela nomeação de um Deputado Geral e de um suplente para a Assembleia Legislativa.
            A importância regional da Vila de Santo Antônio de Uberaba era próspera, tornando-se um importante centro comercial, uma população de aproximadamente duas mil pessoas e 337 habitações.
Em 1850 teve início a industrialização, com a implantação da fábrica de chapéus por Luís Soares Pinheiro.
A primeira escola pública feminina de Uberaba foi criadaem 1953
O engenheiro Fernando Vaz de Melo funda em 1854 o 1º estabelecimento de ensino Secundáriode Uberaba.
A Catedral Metropolitana do Sagrado Coração de Jesus, da Praça Rui Barbosa iniciou a celebraçãodos atos paroquiais em 1856, muito antes do término de sua construção iniciada em 1827.
Devido ao grande crescimento de Uberaba (Vila), mereceu o título de Cidadeem 02 de maio de 1856, pela Lei Provincial Mineira nº 759.
            A Igreja Santa Rita, construída em 1856 é a primeira e única edificação de Uberaba tombada em 1939 pelo instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional – IPHAN pelo seu grande valor histórico, arquitetônico e cultural.


                                                                         Igreja de Santa Rita na década de 1930

 A Igreja de Santa Rita, construída em 1856 é a primeira e única edificação de Uberaba  tombada em 1939 pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional – IPHAN pelo seu grande valor histórico, arquitetônico e cultural.
   
                                                  
           Na década de 1860 a cidade tentou produzir algodão para a exportação, atendendo os interesses das indústrias de tecelagem.
            O Teatro São Luiz, casa de espetáculos, localizado na Praça Rui Barbosa entrou em funcionamento em 1864.
            Em 1865 início do funcionamento do primeiro Centro Espírita de Uberaba por iniciativa do professor João Augusto Chaves.
Durante a Guerra do Paraguai (1865-1870) com o consequente bloqueio do Rio da Prata que desviou todo o trânsito destinado à Província de Mato Grosso para Uberaba, esta passou a ter sua atividade comercial intensamente ampliada e serviu como ponto de passagem das tropas rumo a Mato Grosso.Houve em Uberaba o encontro de tropas que compuseram o Corpo Expedicionário, tendo como um dos membros o Visconde de Taunay. Houve a construção do Cruzeiro do Cachimbo, próximo do 4º Batalhão, considerado um marco histórico, pela celebração da missa em intenção ao Corpo Expedicionário que seguiu para a guerra do Paraguai.
Sabe-se que a história e o desenvolvimento de Uberaba na década de 1870 estão diretamente ligados à Guerra do Paraguai.
O Jornal Gazeta de Uberaba é fundado em 27/04/1879 por João Caetano de Oliveira e Sousa e Tobias Antônio Rosa.
 Entre 1881 e 1882 era construída a Igreja em homenagem a Nossa Senhora da Abadia, padroeira de Uberaba. A primeira festa ocorreu em 15 de agosto de 1882. As obras da capela foram concluídas em 1899.
Em 1882 foi inaugurada a Iluminação Pública por meio de vinte e cinco lampiões a querosene.
A Fábrica de Tecidos do Cassu era fundada em 1882 pelos irmãos Zacarias. Mais tarde a fábrica foi denominada Cia Têxtil do Triângulo Mineiro, funcionou até 1993.
O colégio Nossa Senhora das Dores foi fundado em 1885 pelas irmãs dominicanas e está em pleno funcionamento até hoje.



Pátio do Colégio Nossa Senhora das Dores-Década de 1960



            O desenvolvimento de Uberaba se acentuou com a inauguração da Estrada de Ferro em 1889, um acontecimento que viabilizou:
- O desenvolvimento da pecuária zebuína.
A partir de 1890, a pecuária buscou melhoria da qualidade bovina, nascendo a zebuinocultura, que projeta o criatório uberabense e transforma Uberaba em centro difusor de tecnologia e pesquisa genética das raças de origem indiana.
- O desenvolvimento comercial e intercâmbio com os grandes centros de Minas Gerais e São Paulo
- A aceleração da urbanização. Crescimento de edificações urbanas e comerciais.
- A vinda do imigrante europeu para a Uberaba. Os primeiros imigrantes foram os italianos que criaram até um Consulado na cidade. Depois vieram os portugueses, espanhóis, árabes, alemães, chineses, japoneses. Consequentemente, houve umdesenvolvimento cultural e econômico de Uberaba que passaram a refletir na estrutura urbana onde surgiram requintadas construções no estilo eclético. Muitas dessas edificações foram projetadas e construídas pelos imigrantes italianos e espanhóis que trouxeram de seus países de origem a técnica e a experiência. Muitos fazendeiros uberabenses transferiram suas residências do campo para a cidade e passaram a morar nos palacetes em estilo ecléticos. Estas requintadas residências constituíamlocais de encontros políticos, sociais e festivos, eventos que permitiram muitas decisões que definiram a história do município.
         
   
            A população do município crescia, assim como os atos ilegais e devido a isso era preciso um aparato policial para resguardar os cidadãos uberabenses. Em 06 de maio de 1890 ogovernador de Minas Gerais João Pinheiro da Silva fez um Decreto s/nº - artigo 8º organizando “quatro Corpos militares” e estabeleceu os locais de estacionamento, com o objetivo de dar maior segurança para as regiões de Minas Gerais.

                          - Primeiro Corpo - Capital (Ouro Preto)
                          - Segundo Corpo - Uberaba (Triângulo Mineiro)
                          - Terceiro Corpo - Juiz de Fora
                          - Quarto Corpo -Diamantina

 Uberaba foi contemplada com o Segundo Corpo Militar, respondendo por todo o Triângulo Mineiro. Entretanto teve uma efêmera permanência na cidade, pois o Decretonº 1.631 de 26/08/1903, assinado pelo Dr. Francisco Sales, o transferiu para a Capital do Estado de Minas Gerais deixando Uberaba e população desassistida de proteção militar. Apenas permaneceu em Uberaba um pequeno efetivo da corporação. Foi somente em 25 de novembro de 1909 que a Força Militar se estabeleceu definitivamente na cidade, onde foi criado o 4º Batalhão da Polícia Militar de Minas Gerais, sediado em Uberaba. Inicialmente, a força policial se estabeleceu em um prédio na Rua Arthur Machado até o ano de 1932. Depois o 4º Batalhão foi instalado na Praça Frei Eugênio (Prédio do SENAI) até 1947, quando foi instalado definitivamente em prédio próprio na Praça Magalhães Pinto, até a presente data.
            O Instituto Zootécnico de Uberaba proposto por Alexandre Barbosa foi inaugurado no dia 5 de agosto de 1895, com a finalidade de formar profissionais cientificamente preparados para orientar a produção pecuária. O Instituto foi instalado em uma fazenda que fora desapropriadapelo governo do estado de Minas Gerais para abrigar essa nova instituição de ensino.
            Em 1899, é criado o Clube Lavoura e Comércio com o objetivo de defender a lavoura e a pecuária, combatendo os altos impostos e as interferências do novo governo republicano na atividade rural. É lançado o jornal “Lavoura e Comércio” que, em seu primeiro número, ocupando toda sua primeira página, expõe os ideais dos ruralistas.
O Colégio Marista inicia o ensino para 86 alunos internos e externos em 1903 por iniciativa dos irmãos maristas que vieram da França.
Em 1904 inaugurou-se a Igreja São Domingos, um marco para os dominicanos, pelo fato de ser a primeira igreja da ordem dominicana construída no Brasil.

Igreja São Domingos na década de 1930

Igreja atual


Em 1905 foi implantada a Energia Elétrica pela empresa Ferreira, Caldeira & Cia, fato que impulsionou o desenvolvimento da cidade.
Em 1906, tem início as exposições de gado bovino. Exposições que foram muito prestigiadas pelo Doutor Getúlio Dorneles Vargas, nas décadas de 1930 a 1950.
A Diocese de Uberaba foi criada em 1907, tendo como primeiro bispo D. Eduardo Duarte Silva. Elevada à categoria de Arquidiocese em 1962.
O Agente Executivo Felipe Aché criou em 1909 a primeira Biblioteca Pública Municipal de Uberaba, denominada “Bernardo Guimarães”, estabelecendo-a em um porão da Câmara Municipal de Uberaba, um fato que denota a pequena importância dada à educação e a cultura do município.
 Em 1909 foi inaugurado pelo estado de Minas Gerais o primeiro grupo escolar de Uberaba,denominado Grupo Escolar Brasil, localizado até hoje na Praça Comendador Quintino.
Pela iniciativa de José Maria dos Reis, o governo do estado de Minas Gerais criou em 1917 a primeira instituição de ensino agrícola de Uberaba, denominada Aprendizado Agrícola Borges Sampaio.
Em 1926 criou-se a primeira Escola de ensino superior na área da saúde bucal e da farmacologia, conhecida como “Escola de Farmácia e Odontologia”, que recebia alunos das mais diversas regiões do Brasil e até do exterior.
Os primeiros protestantes de Uberaba foram osMetodistas, cujos missionários iniciaram seus trabalhos em 23/08/1896 nas casas de fiéis e amigos. O templo foi inaugurado em 1924, na Rua Moreira César, no bairro Fabrício.
Mário Palmério funda em 1947 a Faculdade de Odontologia do Triângulo Mineiro oportunizando mais tarde o ensino em outras áreas do conhecimento na década de 1950 com as Faculdades Integradas de Uberaba e, desde 1988 Universidade de Uberaba-Uniube.
Em 1949 as irmãs dominicanas fundaram a Faculdade de Filosofia e Letras São Tomás de Aquino.
As irmãs Concepcionistas chegaram a Uberaba em 1949 e em 1961 inauguraram a Igreja da Medalha Milagrosa.
A Faculdade de Medicina do Triângulo Mineiro se estabeleceu em 1954 e transformada emUniversidade Federal do Triângulo Mineiro em 2005 oferecendo cursos em diversas áreas do conhecimento.
Na década de 1970 e 1980 foram instalados os primeiros Distritos Industriais da cidade, apoiados com investimentos do Governo Federal.
Na década de 1990 nasce a Univerdecidade-Parque Tecnológico de Uberaba para viabilizar a pesquisa e o ensino técnico-profissionalizante, relacionados à ciência da informação e a agroindústria, notadamente para a genética vegetal e animal.
O Centro de Pesquisas Paleontólogicas “Llewellyn Ivor Price”e Museu dos Dinossaurosforamcriados em 1992. É um dos mais importantes do Brasil, possuindo fósseis datados de 65 a 72 milhões de anos de idade. Localizado em Peirópolis (bairro rural), o museu é conhecido pela população regional e por visitantes de outros estados e países.
Uberaba que fora um Arraial no início do século XIX, hoje em 2013, no terceiro milênio (Século XXI) representa um centro comercial dinâmico, uma agricultura produtiva, uma pecuária seletiva com importação de reprodutores e matrizes da Índia, um parque industrial diversificado, uma estrutura de ensino desenvolvida, uma planejada estrutura urbana e características culturais suigeneris, que tem atendido as demandas nos aspectos econômicos, culturais e de serviços essenciais à população.
 Parabéns Uberaba pelos 193 anos.



Marta Zednik de Casanova
Superintendente de Arquivo Público