segunda-feira, 17 de dezembro de 2018

DOCUMENTO EM DESTAQUE: 100 anos do fim da gripe espanhola em Uberaba


            A gripe atingiu toda a humanidade e seu contágio aconteceu em duas ondas. Na primeira (primeira metade de 1918), teve efeitos “pequenos”, mas, na segunda (final de 1918), depois de sofrer uma mutação, sua agressividade tornou-se perturbadora e a velocidade com que se alastrou e os estragos causados se mostraram sem equivalentes na história – nunca a guerra, catástrofe ou epidemia tinha feito tantas vítimas em tão pouco tempo. A gripe espanhola foi implacável e universal.

          

        Em fevereiro de 1918, a cidade de San Sebastián, na Espanha, foi infestada pela influenza e, diferentemente de outros países envolvidos na Primeira Guerra que censuravam essas informações, na Espanha as notícias foram amplamente difundidas. Os países beligerantes não permitiam a sua divulgação tentando evitar o caos nas fileiras dos exércitos. Geralmente, os governos atribuíam o nome da doença a outras nacionalidades. Quando a sífilis apareceu na Idade Média, os franceses chamavam-na de "mal napolitano" e os italianos de "mal francês".
      Antes do desembarque do vírus no Brasil, a sua marinha, que se empregava na guerra, já contabilizava altíssimo número de mortes. A gripe teria infectado 90% dos 1.500 tripulantes, causando a morte de 125 marinheiros.
      No Brasil, acredita-se que o vírus tenha chegado por meio do navio inglês "Demerara", que havia atracado em Recife e em Salvador ainda em 1918. O grande contingente imigratório que o Brasil recebia também é indicado como responsável pelo alastramento da gripe. As causas que teriam favorecido o surto epidêmico ainda são confusas e parecem estar longe de serem apontadas de forma definitiva.
      Sabe-se que muitas cidades viraram, da noite para o dia, cidades fantasmas, como é o caso de Campinas/SP, que praticamente sumiu do mapa neste mesmo ano, de acordo com a historiadora Liane Maria Bertucci, professora de história da educação na Universidade Federal do Paraná (UFPR) e autora do livro: "Influenza, a medicina enferma" (Ed. Unicamp, 2004).
      Em Uberaba, os efeitos também foram devastadores. A única empresa funerária entrou em colapso por causa da demanda de sepultamentos, sendo que as urnas funerárias passaram a ser produzidos artesanalmente pela própria população que se responsabilizava por enterrar os mortos. Os doentes da zona rural eram conduzindo em redes, por parentes ou amigos, à procura de atendimento médico. Algumas pessoas contaminadas eram deixados às margens das estradas rurais, ainda vivas, para serem enterrados no dia seguinte, depois do falecimento.
      O tempo de duração da pandemia foi curto, mas suficiente para trazer o sentimento de luto na maioria das famílias. Conforme se pode observar pela leitura do Livro de Registro de Sepultamentos do Cemitério São João Batista de Uberaba, pertencente ao acervo da Superintendência do Arquivo Público de Uberaba, depois de um início tímido no mês de outubro, com apenas dois casos atingiu o apogeu no mês de novembro, com 285 óbitos e os últimos casos apareceram em dezembro de 1918, com 19 casos.

Amostra do livro de Sepultamento da Câmara Municipal de Uberaba de meados de novembro de 1918. Observa-se o intenso número de mortes identificados como Gripe. Também é constante as mortes por Broncopneumonia e Sem Assistência médica (causas não identificadas). Fonte: Acervo da Superintendência do Arquivo Público de Uberaba. Nov. 1918. p. 130.
Amostra do livro de Sepultamento da Câmara Municipal de Uberaba de meados de novembro de 1918. Observa-se o intenso número de mortes identificados como Gripe. Também é constante as mortes por Broncopneumonia e Sem Assistência médica (causas não identificadas). Fonte: Acervo da Superintendência do Arquivo Público de Uberaba. Nov. 1918. p. 130. 



            Segundo o cronista do jornal "Lavoura e Comercio" do dia 20 de outubro de 1918, Uberaba virou um enorme hospital devido ao número exagerado de enfermos, 2/3 da população da cidade - aproximadamente 10 mil pessoas, sendo que apenas 30% teriam escapado do contágio. As ruas se transformaram num deserto pela absoluta falta de vida comercial e social:

Notadamente as ruas ficaram desertas. Desertas as confeitarias e clubs, tendo-se até fechado dezoito casas commerciaes nas principaes ruas. Algumas pharmacias figuram entre essas casas.  (Lavoura, 20 de outubro de 1918. p.3).

         A Câmara Municipal de Uberaba instalou postos de socorro (sic) no centro da cidade, forneceu remédios e nomeou o médico Dr. Álvaro Caldeira, para o cargo de Delegado de Hygiene Municipal (cargo equivalente à médico sanitarista), que lançou um boletim à população com as seguintes advertências:

"Medidas preventivas contra a grippe hespanhola":
(...) 2º Evitar o contato das pessoas em cujo domicílio houver casos de grippe; não receber visitas em caso de doenças, sinão depois do diagnóstico médico; não permanecer em logares em que haja agglomeração (theatros, cinemas, etc.); evitar resfriamentos, que são a porta aberta à infecção.
3º Friccionar o corpo com toalha felpuda, embebida ou não em alcool de 40 gráus, caso se esteja com as roupas ou pés molhados, lavar frequentemente as mãso com agua e sabáo, esfregando-as antes das refeições, com alcool, quando possivel.
4º Não comer frutas verdes, nem dar às creanças ballas coloridas ou doces indigestos, evitar perturbações gastricas e toda sorte de excessos ou fadigas; não usar de verduras, sinão depois de bem lavados.
5º Usar gargarejos com aguas oxygenada (diluída em parte egual de aguar fervida), com agua salgada (1 colhar de chá de sal de cozinha para meio copo d'agua fervida), com agua salgada (1 colher de chá de sal de cozinha para meio copo d     'agua fervida), com cozimento de folhas de goiabeira ou ainda com succo de limão (o succo de um limão misturado em meio copo d'agua fervida); as pessoas abastadas poderão usar, de preferencia, o seguinte colluctorio: Titura de iodo -2gr; Menthol -20 centígramas, Clycerina - 20 gras.
6º Applicar no nariz, pela manhã e à tarde, algumas gottas de glycerina com menthol e goomenol ou aspirol, acido borico mentholado (...)           (LAVOURA, 28 de novembro de 1918)

      No dia 20 de dezembro surgiram os últimos casos com o diagnóstico de gripe. O historiador que se debruçar sobre o assunto poderá verificar que a sociedade não se omitiu diante da tragédia. As pessoas se mobilizaram e, mesmo com as limitações típicas do período, arregaçaram as mangas e evitaram que a proliferação fosse mais contundente. Com o fim do problema, o registro do jornal revelou a importância da mobilização da população e o luto nesse período funesto da história local.

Referencial bibliográfico:

BERTUCCI, Liane Maria; Influenza, a medicina enferma; Ed. Unicamp, 2004


Fontes consultadas:

Jornal: Lavoura e Comércio, Uberaba, outubro e novembro de 1918. Acervo: Superintendência do Arquivo Publico de Uberaba.

Livro: Registro de Sepultamentos de Uberaba, 1911 A 1930. Acervo: Superintendência do Arquivo Publico de Uberaba.


Pesquisa e texto: Luiz Henrique  Cellurale
Apoio: Priscila Mariano

terça-feira, 4 de dezembro de 2018

Superintendente do Arquivo Público de Uberaba Marta Zednik de Casanova foi homenageada com a medalha José Mendonça




A Câmara Municipal de Uberaba concedeu em solenidade ocorrida em 28 de novembro, a entrega da medalha "Doutor José Mendonça", a Superintendente do Arquivo Público de Uberaba, historiadora Marta Zednik de Casanova e ao advogado e escritor Guido Luiz Mendonça Bilharinho.

 A solenidade ocorrida no plenário da Câmara de Uberaba, é uma honraria instituída por meio de resolução de iniciativa dos ex-vereadores Jesus Manzano (in memoriam) e Teresinha Cartafina, para homenagear pessoas que são destaque no setor de artístico e cultural no município. 

Confira as imagens:

















Abaixo o vídeo da Cerimônia na íntegra:



Homenagem de João Eurípedes Sabino a Marta Zednik de Casanova e a Guido Bilharinho



O QUE SERIA? (*)

O que seria da insônia?
Se não existissem os escritores
São eles que no meio da madrugada
Despertam como quem não quer nada
E do coração atendem os clamores
Ӂ
O que seria dos poetas?
Se não existissea agonia
Na calada da noite quando todos dormem
Eles, os poetas, despertos se consomem
Vendo no leste surgir o novo dia
Ӂ
O que seria da história?
Se não existissem os historiadores
Enquanto para muitos registrar fatos não importa
Para eles, os historiadores, nada é letra morta
Por isso seus nomes assumem grandes valores
Ӂ
O que seria das gerações futuras?
Não fossem os que preservam hoje o passado
Dão suas vidas para deixarem tudo bem escrito
Constroem um legado que caminha rumo ao infinito
O jovem de hoje lá será o grande beneficiado
Ӂ
O que seria da dor?
Não fosse um coração pronto para doer
Quando assiste a derrocada de valores inalienáveis
O historiador e o poeta sentem dores insuportáveis
Mas resistem! Como se não fossem morrer...

(*) João Eurípedes Sabino
Oferecido a Marta Zednik de Casanova e Guido Luiz Mendonça Bilharinho.

Uberaba, 30 de novembro de 2018.