quarta-feira, 11 de abril de 2018

UBERABA: "UMA CIDADE ENTRE CÓRREGOS E COLINAS"




Os primeiros habitantes do arraial de Uberaba construíram suas moradias na parte central da cidade, localizada numa depressão que corresponde ao trecho do calçadão da Rua Artur Machado, próximo ao Córrego das Lajes. O estabelecimento dos colonizadores era próximo às fontes de água, provocando uma ocupação que serpenteava os córregos.  

O viajante Barão de Eschewege, que passou no arraial em 1816, citou a presença de nove famílias e 47 moradores nessas imediações (ESCHEWEGE, 1994, p.93). Três anos após, o francês e naturalista Saint Hilaire passou por Uberaba e destacou:

 [...] o arraial é composto de umas trinta casas espalhadas nas duas margens do riacho e todas, sem exceção, haviam sido recém construídas (1819), sendo que algumas estavam inacabadas quando por ali passei. Muitas delas eram espaçosas, pelos padrões da região e feitas com esmero[...] (HILAIRE, p.150).



Desenho Bico de Pena de Ovídio Fernandes, que retrata Uberaba no início do século XIX, evidenciando as colinas e depressões. Acervo Superintendência do Arquivo Público de Uberaba

            

Com o crescimento da cidade, outros locais foram sendo ocupados e, devido ao relevo (topografia) foram sendo povoadas outras áreas de maiores altitudes, conhecidas no século XIX como colinas.


Desenho Bico de Pena de Ovídio Fernandes que retrata o Largo do Rosário, atual Avenida Presidente Vargas.  Acervo Superintendência do Arquivo Público de Uberaba

O traçado das ruas seguia o padrão de algumas cidades do Brasil - Colônia, com alinhamentos irregulares, como se pode perceber nas cidades Paracatu, Ouro Preto e Sabará, em Minas Gerais. Outra com essas características é a cidade antiga de São Mateus, Estado do Espírito Santo.

De acordo com o memorialista Borges Sampaio, no livro Uberaba: História, Fatos e Homens:

[...] os primeiros habitantes não prevendo talvez o grande desenvolvimento que o povoado -Uberaba- em breve tempo havia de atingir e o importante papel que mais tarde representaria no País, não seguiram, desde o princípio, um plano retangular de arruamento para as edificações dos prédios públicos. Antes, desprezando esse alinhamento regular, que tanto convém e agrada nos grandes, como nos pequenos povoados, foram edificando casas, formando os quintais e chácaras, acompanhando as ondulações do terreno e serpenteando dos pequenos regatos, quiçá porque assim se lhes oferecia melhor comodidade para o uso da águas, utilizando-se mais da fertilidade do solo (...) daqui veio a principal rua, a primitiva, a maior e mais importante, aquela que por muito tempo, se chamou -Direita[1]- é das menos retas, ocasionando, ela mesmo, a irregularidade que hoje se lamenta[...] (SAMPAIO, p.47)



Foto mostrando uma casa construída ao lado do Córrego da Laje, 1938
Acervo: Superintendência do Arquivo Público de Uberaba



  Em seu estudo topográfico publicado no ano de 1880, Sampaio identificou a existência de 6 colinas, onde atualmente se encontram os seguintes bairros: Boa Vista, Estados Unidos, Abadia (Colina da Misericórdia), Leblon (Colina do Barro Preto), São Benedito (Colina da Matriz) e Mercês (Colina de Cuiabá). Naquela época, o bairro Boa Vista compreendia também o bairro Fabrício, que ainda não tinha esse nome (SAMPAIO, p. 48).

Uberaba do século XIX,com apenas 6 colinas.
Observação a partir do Mirante da Univerdecidade.



O termo "Colina" utilizado por Sampaio referia-se aos pontos mais altos da cidade. Do ponto de vista geomorfológico, o relevo de Uberaba se caracteriza, na realidade, como uma planície de deposição sedimentar (depressão), com material oriundo das altas cadeias que havia na região de Araxá (Serra da Canastra). Devido ao fato desse material sedimentar ser suscetível a erosões, o deslocamento das águas dos córregos moldou a topografia de Uberaba, fazendo surgir alguns vales, onde hoje se encontram as principais avenidas da cidade, como: Leopoldino de Oliveira, Santos Dumont, Guilherme Ferreira e Fidélis Reis. De acordo com Sampaio, as colinas são as seguintes descrições com a grafia da época:


Colina Boa Vista: Aquela que dá entrada na cidade a quem vier da Ponte de Uberaba por onde, atualmente, há o rancho denominado - do Fabrício -. É separada, à direita, pelo Córrego Laje, da Colina Cuiabá; à esquerda, da Colina Estados Unidos pelo regato que nasce na chácara do Padre Zeferino.
Colina Estados Unidos: Aquela que dá entrada a quem vier do lado do Lajeado pelo capão conhecido - do Chico Prata. - É separada, à esquerda, da Colina Misericórdia pelo regado que nasce na chácara Joaquim dos Anjos.
Colina Misericórdia: Aquela que dá entrada na cidade a quem vier do Porto da Ponte Alta pelo lado da Misericórdia. É separada, à direita, da Colina Estados Unidos, pelo regato que nasce na chácara Joaquim dos Anjos; à esquerda, da Colina - Barro Preto -, pelo regato que nasce no capão conhecido por - Capão do Barro Preto -, no Frasquinho.
Colina da Matriz: Aquela que dá entrada na cidade a quem vier dos lados do Porto da Espinha pelo lado do cemitério e Matriz. É separada, à direita, da Colina do Barro Preto, pelo regato que nasce no capão conhecido por Capão da Igreja; à esquerda, da Colina Cuiabá, pelo regato que nasce na chácara - do Alferes Silvestre.
Colina Cuiabá: Aquela que dá entrada na cidade a quem vier dos lados do Caçu, pela Ponte do Vau. É separada, à direita, da Colina da Matriz, pelo regato que nasce na chácara - do Alferes Silvestre; à esquerda, da Colina Boa Vista, pelo Córrego Laje.
Colina Barro Preto: Aquela que é mais culminante e central: deriva-se do Alto das Toldas. É separada, à direita, da Colina da Misericórdia, pelo regato que tem a nascente nos fundos do quintal da chácara conhecida por - Chácara do Frasquinho; - à esquerda, da Colina da Matriz, pelo regato que tem a nascente no Capão da Igreja.                                         
(SAMPAIO, p. 50)


   No século XIX, o Alto do Fabrício se desmembrara do Alto Boa Vista. Contudo, apenas no século XX o memorialista Hildebrando Pontes em seu livro História de Uberaba e a Civilização do Brasil Central, identificou mais um Alto - o Fabrício. O autor também substituiu o termo "Colinas" por "Altos". A partir desse momento Uberaba passou a ser conhecida como "Cidade das sete colinas".

    
 O local onde se situa o bairro Fabrício passou a ser conhecido por esse nome devido às atividades do ferreiro Fabrício José de Moura, morador da Praça Santa Teresinha. Ele era uma referência para os moradores da região porque mantinha uma oficina de ferreiro e uma hospedaria, atividades convenientes para a recepção de comitivas de viajantes e de carros de bois, que chegavam a Uberaba pela região onde hoje se encontra a Avenida Pedro Lucas, que servia de acesso a Uberaba, para quem vinha do norte do Triângulo Mineiro, do arraial de São Pedro de Uberabinha (atual Uberlândia), Palestina e Mangabeira. 



Uberaba do século XX com as 7 colinas.
Observação do Vale a partir do Mirante da Univerdecidade.


      Hildebrando Pontes descreve os Altos conforme segue abaixo, com a grafia da época:

Alto das Mercês. Abrange tôda a margem esquerda dos córregos das Bicas, Manteiga e das Lajes até ao rio Uberaba. À outra margem ficam o alto de São Benedito e a cidade até a junção dos córregos da Manteiga e das Lajes e daí por diante com o alto do Fabrício. Antigamente êste alto se chamava Cuiabá porque dêle saía a estrada em direção em direção àquela cidade matogrossense. Alguns jornaizinhos de Uberaba deram a êste alto os nomes de "Sant'Aninha" e "Caminho do Céu".
Alto da Matriz ou da Cidade. [...] É a parte mais extensa da cidade. Fica situada entre os córregos das Bicas, da Manteiga (margem direita) e das Lajes pela qual sobe até à nascente do Capão da Igreja, ficando à margem oposta de cada um dos mesmos, de baixo para cima, os altos do Fabrício, dos Estados Unidos, d'Abadia e Barro Prêto.
Alto do Barro Prêto. Fica entre os córregos Capão da Igreja (margem direita) e Barro Prêto (margem esquerda) que o separa do alto d'Abadia.
Alto d'Abadia. Está compreendido entre os córregos do Barro Prêto e Capão da Igreja (margem direita) que o separam dos altos do Barro Prêto e São Benedito, e o córrego de Santa Rita que o separa do alto dos Estados Unidos. Neste alto fica situada, mais em baixo, a parte que se conhece por Alto da Misericórdia.
Alto dos Estados Unidos. Está compreendido entre a margem direita dos córregos de Santa Rita e das Lajes que o separam dos altos d'Abadia e da cidade; e à margem esquerda do córrego do Comércio, pelo seu afluente que vem da Quinta do Boa Esperança, ficando, à outra margem, os altos do Fabrício e da Vila Carlos Machado. A denominação "Estados Unidos" foi dada pelo sr. Pascoal Toti pai, que ali construiu, em 1881, a primeira casa da atual praça Comendador Quintino, esquina da avenida João Pessoa.
Alto da Estação.  Assim se denomina a parte compreendida à margem direita do córrego da Quinta da Boa Esperança, e a margem esquerda do córrego do Pontilhão, ficando nas margens opostas às indicadas, respectivamente, os altos dos Estados Unidos e do Fabrício [...]
Alto do Fabrício. Está compreendido à margem direita dos córregos do Pontilhão, Comércio e da Laje, separado às margens opostas do alto dos Estados Unidos, da cidade e alto das Mercês. Êste bairro, também conhecido por "Boa Vista", tira o seu nome do velho Fabrício José de Moura [...]                                              
(PONTES, p. 267)
               
               
                Para Borges Sampaio e Hildebrando Pontes a delimitação dos bairros aconteceu nos vales, onde correm córregos que, canalizados, deram lugar às avenidas. Assim, podemos identificar o Córrego da Estação e do Pontilhão na atual Avenida Fidélis Reis. O Córrego Barro Preto, atual Guilherme Ferreira e o Córrego da Manteiga, atual Avenida Santos Dumont. De acordo com o mapa de Uberaba confeccionado pelo engenheiro Abel Reis, em 1942, o Córrego Olhos D'água nasce nas proximidades do Conjunto Frei Eugênio e segue até o Mercado Municipal. Daí para frente, esse Córrego deságua no Córrego das Lajes, que percorre o trecho do Mercado Municipal, sentido Univerdecidade, até o Rio Uberaba e drena toda a bacia da cidade.




Local do encontro dos córregos Olhos d’Água e Barro Preto, próximo ao Mercado Municipal, onde atualmente se localizam as avenidas Leopoldino de Oliveira e Doutor Guilherme Ferreira – Ano 1938
Acervo: Superintendência do Arquivo Público de Uberaba.


            Percebe-se que houve uma diferença na identificação das colinas entre Sampaio e Pontes. No século XIX, em nenhum momento aparece a expressão "sete colinas", o que ocorre com frequência no século XX, conforme podemos verificar nos estudos de Hildebrando Pontes (PONTES, 274). De acordo com o professor Carlos Pedroso, é provável que essa denominação tenha entrado no domínio popular depois da vinda do primeiro bispo Dom Eduardo Duarte Silva para Uberaba. Segundo ele, Dom Eduardo residiu em Roma, na Itália, conhecida desde a antiguidade como cidade das sete colinas. "Naturalista e observador, não é difícil supor que o bispo pode ter se inspirado naquela cidade italiana", afirma Pedroso.





Vista aérea da cidade no centenário de Uberaba, em 1956. Observa-se ao fundo, à direita, a Colina Cuiabá (Mercês); à esquerda, Colina Misericórdia (Abadia); no centro Colina da Matriz; 
abaixo, Colina Estados Unidos.
Foto: Acervo Superintendência do Arquivo Público de Uberaba.


A conceituação inicial das colinas nos séculos XIX e XX se limitava aos bairros próximos do centro da cidade.  As principais colinas são aquelas já mencionadas no texto, ou seja: Abadia, Mercês, Matriz, Estados Unidos, Fabrício, Boa Vista e Barro Preto (Leblon). A partir dessas colinas, com o crescimento da cidade e o aumento da população, houve a ampliação de áreas povoadas com o surgimento de novos bairros, adjacentes às antigas colinas.  Também se destacam vários bairros rurais e agrovilas, como: Ponte Alta, Capelinha do Barreiro, Calcário, Palestina, Peirópolis, Baixa e Santa Rosa, Serrinha, Mata da Vida, Mariitas, Santa Mônica, Vale do Sol, Parque do Café, Recanto das Flores, Vila Real, Morada do Verde, Portal do Sol, Bouganville, Chácara Rio Claro, Dandara, Monte Castelo - Maringá, Tereza do Cedro, Pró Roça, Paz na Terra, Moreiras, Serraria, Espinha, Comunidade de Minas Gerais, São Basílio e Santa Fé.



FICHA TÉCNICA

Revisão Geral:
Marta Zednik de Casanova - Superintendente do Arquivo Público de Uberaba
Pesquisa:
Donizete Fontes Calçado – geógrafo
João Eurípedes de Araújo - Diretor de Difusão, Apoio à Pesquisa e Atendimento
Luiz Henrique Caetano Cellurale - historiador
Marta Zednik de Casanova - Superintendente do Arquivo Público de Uberaba
Revisão ortográfica:
Maria Rita Trindade Heyler



BIBLIOGRAFIA:

ESCHEWEGE, Wilhelm Ludxwig von. Brasil: Novo Mundo. Tradução: Sieglinda Klug Nogueira. Superintendência do Arquivo Público de Uberaba. 1996.

PONTES, Hildebrando. HISTÓRIA DE UBERABA e a civilização no Brasil Central. Uberaba, MG: Academia de Letras do Triângulo Mineiro. 1970.

SAMPAIO, Antônio Borges. Uberaba: história, fatos e homens. 2a Edição. Uberaba, MG, 1971. Arquivo Público de Uberaba.

SAINT-HILAIRE, Auguste de. Viagem à Província de Goiás. Belo Horizonte. Itatiaia, 1975.


[1] Rua Direita corresponde à atual Rua Vigário Silva.

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