sexta-feira, 29 de março de 2019

Superintendência do Arquivo Público de Uberaba recebe alunos da Escola Estadual Leandro de Vito



A Superintendência do  Arquivo Público de Uberaba recebeu no dia 26 de março, a visita de 40 alunos da Escola Estadual Leandro de Vito do 9º Ano ao 2º Ano do Ensino Médio, na faixa etária de 16 a 17 anos, com objetivo de conhecerem o trabalho realizado pela instituição.

         Na ocasião conheceram a importância da preservação de documentação histórica, especialmente utilizada como instrumento de pesquisa para estudantes e historiadores.

         Acompanhados pelo historiador Luiz Cellurale, fizeram uma visita guiada onde puderam visualizar a documentação original preservada pela instituição.













sexta-feira, 15 de março de 2019

TITO SCIHPA, GLÓRIA MÁXIMA DO CINE METRÓPOLE



Até a década de 1980, o Cine Metrópole foi a mais elegante e sofisticada casa de espetáculos de Uberaba. Inaugurado em 1941, funcionava anexo ao imponente Grande Hotel que, na época, detinha simultaneamente os títulos de maior edifício de concreto armado e de melhor hotel do Brasil Central. Ambos eram empreendimentos de Orlando Rodrigues da Cunha, sócio diretor da Empresa Cinematográfica São Luiz e também do hotel. Um espelho do progresso da “Princesinha do Sertão” em uma das épocas de ouro da pecuária do gado Zebu.

Durante décadas, o Metrópole foi palco de grandes eventos na cidade. Nos anos 1950, quando as faculdades uberabenses começaram a formar suas primeiras turmas de alunos, o grande auditório lotava, recebendo as famílias orgulhosas que vinham assistir às cerimônias de colação de grau de seus filhos. Muitas vezes, tendo celebridades nacionais, como Juscelino Kubitscheck e Carlos Lacerda, no papel de paraninfos. Mesmo em dias comuns, as sessões de cinema eram concorridas e as regras da casa exigiam que os frequentadores fossem devidamente trajados: aos homens, era obrigatório paletó e gravata.
A casa também recebia shows de música. Muitos que tiveram a chance de frequentar o cinema devem ter notado uma placa de bronze colocada no elegante hall de entrada com os dizeres: “TITO SCHIPA (glória máxima da Arte Lírica) cantou neste teatro – Grande Hotel – Uberaba, em XVII-VII-MCMXLI”. Dai surgiu uma lenda de que esse famoso tenor italiano teria cantado na inauguração da sala, o que não é verdade. Tanto o hotel como a sala de cinema foram abertos ao público no dia 8 de março de 1941, a apresentação de Schipa se deu dois meses depois, em 17 de maio – como indica a data gravada na placa em algarismos romanos.


Algumas semanas antes dele, já havia se apresentado na casa uma celebridade do canto nacional: Vicente Celestino, conhecido como “a voz orgulho do Brasil”. Nascido no Rio de Janeiro, filho de imigrantes calabreses, Celestino emocionava multidões interpretando com estilo dramático e vozeirão de tenor canções de sua autoria, como O Ébrio e Coração Materno. Fez tanto sucesso em Uberaba que a direção do Metrópole foi obrigada a abrir uma segunda apresentação, no dia seguinte, para atender à demanda do público.


Embora também fosse tenor, Raffaele Attilio Amedeo Schipa era quase o oposto de Celestino. Nascido em 1888 na cidade italiana de Lecce, tinha um estilo de canto extremamente doce e sofisticado. Max Altman, um amante da música erudita que foi diretor do Teatro Municipal de São Paulo, descreveu como surpreendente o fato de que “um ‘tenor ligeiro’, como Schipa, tenha tido uma carreira tão longeva quanto frutífera, quando se inteira que era um cantor com demasiadas limitações vocais. Não possuía uma voz potente nem com tons musculares, tinha dificuldades com o floreado, não alcançava a emitir um dó de peito, faltava fundo a sua voz, e, ainda se fosse pouco, nem sequer contava com uma voz particularmente bela nem com potência. (…) Não obstante, é considerado um gênio. Seu instinto musical o colocou num lugar privilegiado da lírica mundial. Schipa, mais que nenhum outro cantor, soube tirar proveito de seus dons naturais, à base de engenho e inspiração, e criou um estilo original e personalíssimo de interpretação”.

“TITO SCHIPA (glória máxima da Arte Lírica) cantou neste teatro – Grande Hotel – Uberaba, em XVII-VII-MCMXLI”.

O fato é que, em maio de 1941, Tito Schipa era uma astro internacional de primeira grandeza. Cantava em 11 idiomas diferentes, compunha canções em italiano e espanhol, havia gravado dezenas de discos, integrava o elenco da New York Metropolitan Opera e fazia enorme sucesso em nos EUA e em Buenos Aires. Poucos meses depois, tomou uma decisão desastrosa: voltou à Itália natal, onde tornou-se um artista de estimação do líder fascista Benito Mussolini. Embora tenha retornado à Nova York após o fim da Segunda Guerra Mundial, nunca mais fez o mesmo sucesso. Gravou pouco e dedicou-se ao ensino de música, até falecer em dezembro de 1965.


Na época Uberaba tinha 40 mil habitantes, a maior parte de baixo poder aquisitivo, muitos vivendo na zona rural. A decisão de pagar por uma uma apresentação de Schipa – que fazia uma temporada no Brasil – para cantar em uma casa de espetáculos no interior do País com mais de 1500 lugares, foi uma decisão arriscada da Empresa Cinematográfica São Luiz. Os ingressos foram vendidos a 20 mil reis, um bom dinheiro para a época. Não se sabe se a plateia lotou mas, segundo o escritor Guido Bilharinho, o evento teria dado prejuízo aos promotores. Uma ousadia que ficou imortalizada em bronze no saguão de um belo e histórico cinema, abandonado há décadas.


André Borges Lopes

quinta-feira, 7 de março de 2019

Deputado Marcus Cherém lutava contra as injustiças


        José Marcus Cherém, descendente de libaneses, nasceu em Lavras, MG, em 1919. O seu emprego de representante comercial o trouxe para Uberaba. Logo tornou-se amigo dos comerciantes estabelecidos na cidade, especialmente patrícios seus. Essa amizade fez nascer uma grande paixão: Nacional FC, time fundado por imigrantes libaneses e comerciantes da rua Tristão de Castro.
         Assumiu a diretoria do Nacional FC e uma de suas principais ações foi a construção do Estádio JK, inaugurado em 1953. 


           Deputado Marcus Cherém, de terno, durante o plantio do gramado no Estádio JK

      Sua ascensão foi meteórica. Pela portaria nº 227/1956, de 15 de fevereiro de 1956, foi designado superintendente geral de pessoal operário, pelo prefeito Artur de Mello Teixeira. Em seguida, elegeu-se vereador em 1954 para o mandato de 1955 a 1959.
         Segundo o jornal "Lavoura e Comércio" do dia 9 de dezembro de 1969, o seu espírito de liderança e o excelente trabalho executado na Câmara de Uberaba, chamou  atenção da população e dos eleitores uberabenses, o que lhe garantiu mais uma conquista eleitoral, desta vez para a Câmara de Deputados de Minas Gerais:

"Distinguiu-se imediatamente no Legislativo Municipal pela verticalidade de suas atitudes, pelo denoto que punha em tôdas as questões que defendia, pela sua vibração e entusiasmo. No edil pode-se vislumbrar com segurança o autentico lider que havia no nosso prezado amigo, bem como a sua capacidade de identificar-se a fundo com todas as questões de interesse coletivo." (Lavoura e Comércio, 9 de dezembro de 1969)

         Foi eleito deputado estadual em Minas Gerais em 1959. Depois disso, tornou-se chefe de gabinete do Interior no Estado de Minas Gerais, tendo, inclusive, exercido interinamente a função de secretário do Interior no governo Magalhães Pinto.  

José Marcus Cherém. 1953


Deputado Marcus Cherém fazendo discurso na
Assembléia Legislativa de Minas Gerais em Belo Horizonte.
Lavoura e Comércio, 9 de dezembro de 1969

           Com  aproximadamente 12 mil votos elegeu-se novamente deputado estadual para o mandato de 1967 a 1971. No mês de outubro de 1969, posicionou-se contra a cobrança abusiva dos impostos e denunciou a indústria das multas no Estado de Minas Gerais. Sugeriu a revisão da legislação sobre o assunto a que ele chamou de "absolutista" (Lavoura e Comércio, 28 de agosto de 1969). Questionou os baixos salários recebidos pelos fiscais, que complementavam sua renda com a participação direta e indireta sobre a arrecadação, o que favorecia o descontrole na aplicação das mesmas. De acordo com o jornal "Lavoura e Comércio do dia 28 de agosto de 1969:

O deputado José Marcus Cherém, ao sugerir a revisão da legislação, argumentou que "as multas de 40 e 60 por cento estabelecidas pela Lei nº 5043 e as da Lei nº 4337, que chegam a ser quase um confisco, precisam ser revistas e alteradas imediatamente. Salientou também ser necessária a revisão imediata do artigo 58 da Lei nº 4337, que considera infração punível até mesmo a falta involuntária do contribuinte, esclarecendo que não pode ter caráter absolutista o princípio estabelecido pelo artigo 136 do Código Tributário Nacional, segundo o qual as penalidades por infrações independem da intenção do agente, da efetividade e extensão dos efeitos do ato. (Lavoura e Comércio, 28 de agosto de 1969)

            Quatro meses depois da denúncia, faleceu o Deputado José Marcus Cherém, no dia 7 de dezembro de 1969, em Belo Horizonte, aos 50 anos de idade, não tendo concluído o seu mandato.  


Deputado José Marcus Cherém sendo velado no prédio da Câmara
Municipal de Uberaba, onde funcionava a Prefeitura Municipal
Lavoura e Comércio, 9 de dezembro de 1969


Corpo de Marcus Cherém sendo transladado pelo Corpo de Bombeiro,
pelas ruas principais da cidade, para o Cemitério Municipal
Lavoura e Comércio, 9 de dezembro de 1969

        Pelo decreto 447/72 de 16 de agosto de 1972, a avenida de acesso ao Estádio, antiga estrada Uberaba - Delta, anteriormente denominada Nações Unidas, passou a ser chamada avenida Deputado Marcus Cherém.
           A biografia desse personagem permite aprofundar a análise das  lideranças políticas da cidade que dedicaram sua vida na luta contra as injustiças praticadas ao longo da nossa história.


Historiador Luiz Cellurale
Superintendência do Arquivo Publico de Uberaba