quarta-feira, 19 de abril de 2017

Os Tiradentes de Uberaba: familiares do mártir que viveram por aqui


João Eurípedes de Araújo                                                              
Luiz Henrique Cellurale
Luzia de Fátima Rocha 
Miguel Jacob Neto     
                                                                                                                                                  



            O memorialista e Agente Executivo de Uberaba Antônio Borges Sampaio, que chegou na cidade  em 16 de setembro de 1847, publicou artigo no jornal Lavoura e Comércio do dia 21 de abril de 1904 onde refez a trajetória da família de Tiradentes em Uberaba, baseado em informações que lhes foram passadas por um de seus descendentes, Carolina Tiradentes.

            De acordo com ele, o ramo da família Tiradentes em Uberaba começou com a chegada de parentes de Joaquim José da Silva Xavier, que se transferiram para Dores do Indaiá, Uberaba, Sacramento e Goiás, tendo deixado uma infinidade de filhos, netos, bisnetos e tataranetos. Segundo o trabalho de Sampaio, Joaquim José da Silva Xavier (Tiradentes) teria conhecido Eugênia com quem teve um filho: João de Almeida Beltrão. Beltrão casou-se com Maria Francisca da Silva, com quem teve 8 filhos. Depois da morte de Beltrão, Maria se transferiu para Uberaba juntamente com os seus filhos.

            A afirmação de Sampaio coincide com a do historiador Márcio Jardim em sua publicação no site do Wikipédia em que afirma:

Sem registros comprovados por documentação, Tiradentes teria tido com Eugênia Joaquina da Silva dois filhos, uma Joaquina que logo morreu e João de Almeida Beltrão, que teve oito filhos. (https://pt.wikipedia.org/wiki/Tiradentes, acessado em 19 de abril de 2017)

As afirmações de Sampaio e de Jardim conferem com as do historiador Jair de Almeida Gomes, que por meio de seus estudos sobre a vida de Tiradentes afirma o seguinte:

Tiradentes nunca se casou. Continuava só, porém duas outras mulheres haviam passado em sua vida; ambas de nobre condição social. A primeira, uma mulata, Eugênia Joaquina da Silva, de quem Tiradentes teve um filho de nome João. A outra uma viúva, Antônia Maria do Espírito Santo, vivia nos arredores de Vila Rica (atual Ouro Preto), e também lhe deu uma criança, uma menina de nome Joaquina.(http://www.pael.com.br/tiradentes.html, acessado em 19 de abril de 2017)

           
            Depois do julgamento e da morte de Tiradentes, no movimento da Inconfidência Mineira, partes de seu corpo foram expostas nas principais ruas da cidade de Vila Rica (atual Ouro Preto) para servir de exemplo e inibir outros movimentos revolucionários. Em seguida, sua casa foi demolida e sal grosso foi jogado no quintal, para que nenhuma "erva daninha ali germinasse".

            Depois disso, os familiares de Tiradentes também deixaram Vila Rica e se transferiram para a região do Triângulo Mineiro, na Vila dos Quartéis, atual Dores do Indaiá. Segundo informações de D. Carolina, Tiradentes procurou por todos os meios ocultar da justiça a vida de seu filho João, temendo perseguição. Por isso, ele confiou a guarda do menino a Joaquim de Almeida Beltrão. Contudo, devido aos mau tratos visíveis nos braços e nas pernas de João, sua mãe requisitou a guarda da criança, mas não pôde denunciar o agressor temendo represálias por ser filho de Tiradentes. Ela se transferiu para a casa de Eugênia dois anos depois da execução de Tiradentes. 

Eugênia mandou ensinar seu filho a ler e também o ofício de ourives, sem que alguma coisa transpirasse a respeito da sua paternidade, devido ao cuidado nisso empregado, posto que em Vila Rica houvesse espionagem ativa para saber-se o que sobre Tiradentes se dissesse em família e se denunciado.(SAMPAIO. p. 328)

            Segundo alguns estudiosos do Triângulo Mineiro, essa região servia de refúgio para muitos forasteiros que fugiam do pagamento de impostos - o quinto- e da derrama.  Abrigava também pessoas que cometiam delitos como homicídio e roubo, além dos que sofriam perseguições políticas.
            É provável que os descendentes de Tiradentes tentavam fugir da perseguição política imposta pelo governo português, considerando que os motivos que levaram  Tiradentes ao enforcamento em 1789 ainda os estavam aterrorizando e que, provavelmente, teriam vindo para a região do Triângulo Mineiro e Goiás no final do século XVIII e início do século XIX, num período muito próximo à execução de Tiradentes e anterior à Independência do Brasil.



             Segundo Sampaio, com a morte do filho de Tiradentes, João, em Dores do Indaiá, já no Triângulo Mineiro, a viúva Maria Francisca da Silva resolveu se transferir para Uberaba juntamente com os seus filhos. Assim, de acordo com a genealogia feita por Sampaio, a chegada da família em Uberaba teria ocorrido da seguinte maneira:


            Ressalta-se uma curiosidade na busca de seus familiares uberabenses. Apesar de muitos descendentes nascidos em Uberaba manterem o sobrenome Tiradentes, esse nome não passava de um apelido para Joaquim José da Silva Xavier. Somente na 5º geração de seus descendentes esse alcunha se transformou em sobrenome, como forma de homenagear o personagem histórico que se tornou herói, depois de ter sido morto como vilão. O nome oscilou de acordo com os sabores do sistema político reinante.

            Carolina Tiradentes prestou informações a Sampaio. Ela teve duas filhas: Galvina, casada com Bernardino, e Carlota, casada com Felicíssimo Vieira da Silva. Até o ano de 1904, de acordo com Sampaio, pelo menos 15 descendentes desse ramo eram uberabenses. Sampaio e Carolina eram vizinhos desde o ano de 1848. Por isso, descreveu algumas peculiaridades da neta de Tiradentes:

Quando moça era de estatura alta, direita, harmonicamente conformada, tez clara e rosada; os traços de seu rosto comprido denunciavam os do proto-martir avô; que com a idade, haviam se tornado ainda mais salientes. Ela gozou muita simpatia e estima de pessoas as mais distintas da nossa sociedade, não constando que tivesse ou deixasse algum desafeto. Muitas pessoas que vinham a Uberaba não se retiravam sem visitar D. Carolina. (SAMPAIO. p. 323)

Em Uberaba, Carolina também recordava os passos de sua mãe e o medo da perseguição que envolvia toda a família:

Suas lembranças remontam a sua mãe Eugênia, que parecia limitada a reviver os tristes transe por que tinha passado Tiradentes. Seus últimos anos passou-os em choro contínuo, chorava todo o dia por não ver o pai do seu filho, a cuja memória dedicava amor extremo. Derramava lágrimas quando ouvia falar em Tiradentes. Tudo concorria para recordar-se dos martírios por que Tiradentes havia passado. Estado angustioso este em que continuou mesmo depois de ter sido declarada a Independência, não se podendo capacitar da cessação do perigo para o seu filho João, antes pensava que o anátema infamante posto na sentença que mandara executar Tiradentes vigorava contra João Beltrão. Tudo quanto possuíam que pudesse comprometer o menino João, relativamente a sua paternidade foi queimado, inclusive os bilhetes de Tiradentes a Eugenia, bem como os escritos que estavam em poder dela. (SAMPAIO. p.329)

Carolina Augusta Cesarina - neta de Tiradentes

             O jornal LAVOURA E COMMERCIO do dia 21 de abril de 1904 e de 1924 expõem, na íntegra, os nomes e até as idades de filhos, netos e tataranetos de Galvina e Carlota nascidos na cidade de Uberaba.




Consultas realizadas: 

  • SAMPAIO, Borges;  Uberaba: História, Fatos e Homens; Volume 1; Editora da Academia de Letras do Triângulo Mineiro; 1971; Uberaba
  • Jornal Lavoura e Comércio, 1904 e 1924
  • https://pt.wikipedia.org/wiki/Tiradentes, acessado em 19 de abril de 2017
  • http://www.pael.com.br/tiradentes.html, acessado em 19 de abril de 2917

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