segunda-feira, 26 de junho de 2017

Breve História da Imprensa: Os primeiros veículos de imprensa no Brasil, Minas e em Uberaba (Parte 1)


Por Thiago Riccioppo*

A Superintendência do Arquivo Público de Uberaba lança pesquisa sobre uma breve história da imprensa em Uberaba. Para tanto, dividimos o texto em duas partes. A primeira refere-se ao início da imprensa escrita no Brasil, em Minas Gerais, e particularmente em Uberaba. A segunda parte fala especialmente sobre a trajetória de um dos mais antigos jornais do Brasil até o seu fechamento: o Lavoura e Comércio, que circulou ininterruptamente por mais de 100 anos, até 2004.                                                
    

 O início da imprensa escrita no Brasil e em Minas Gerais

            Em 2008 foram celebrados 200 anos da chegada da imprensa no Brasil, tendo para muitos como marco inicial, a publicação do jornal Correio Braziliense. Contudo, é bom saber que as primeiras edições do Correio Braziliense, o primeiro periódico a falar especificamente do País eram feitas em Londres, comandadas Hipólito José da Costa, uma vez que a atividade até então era proibida pela coroa portuguesa em solos brasileiros. O mensário circulou de 1º de julho de 1808 a dezembro de 1822. O veículo somente chegou ao Rio de Janeiro em outubro de 1808.


 
                                  Figura 1. Hipólito José da Costa, editor do jornal Correio Braziliense, considerado o primeiro jornal sobre o Brasil. Autor desconhecido.


           Quando Brasília foi inaugurada em 1960, a marca Correio Braziliense foi negociada com a família de Hipólito da Costa, com o então embaixador do Brasil na Inglaterra, Francisco de Assis Chateaubriand Bandeira de Melo, mais conhecido como Assis Chateaubriand, que colocou em circulação um novo jornal aproveitando-se do antigo nome Correio Braziliense, o qual até hoje é o principal jornal do Distrito Federal.

               
               O Gazeta do Rio de Janeiro, de 10 de setembro de 1808, foi o primeiro jornal publicado em território nacional, com maquinário adquirido na Inglaterra. Tratava-se de um veículo oficial do governo português com ênfase em notícias favoráveis a corte.
Figura 2. Alegoria da chegada da família real portuguesa no Rio de Janeiro em 1808. Pintura Óleo sobre tela de Domingos Antônio Serqueira (1768 -1837). Fonte: Coleção Duque de Palmeira, Lisboa.
       
             Sobre o Correio Braziliense de Hipólito da Costa e o Gazeta do Rio de Janeiro, existiram versões divergentes que se colidiram entre si quanto à questão de qual seria o primeiro jornal brasileiro. Para falar deste assunto, tomamos por base as observações feitas em um artigo escrito pelo jornalista Venício A. de Lima[1] do blog Observatório da imprensa. Venício discerne sobre o embate apresentado por Nelson Werneck Sodré[2], que considera que a introdução da imprensa no Brasil em julho de 1808 como contraditória, na acepção que o impresso Correio Braziliense era elaborado na Inglaterra, por esse motivo era mantido mais por condições externas do que aspirações internas. No entanto, há aqueles que defendem o Correio Braziliense como marco inicial da imprensa no país, tendo em vista que este foi um veículo participativo em discursos de afirmação da identidade nacional, pois se manteve durante sua existência como um bastião significativo entre os defensores da “independência, do interesse nacional, da abolição escravatura e da permanência de Dom Pedro I no Brasil”[3].

            Para o  jornalista Laurentino Gomes[4] em seu livro 1808, a visão romântica sobre o Correio Braziliense se torna tênue ao lançar as seguintes observações,

O mesmo Hipólito que defendia liberdade de expressão e idéias liberais acabaria, porém, inaugurando o sistema de relações promíscuas entre imprensa e governo no Brasil. Por um acordo secreto, D. João começou a subsidiar Hipólito na Inglaterra e a garantir a compra de um determinado número de exemplares do Correio Braziliense, com o objetivo de prevenir qualquer radicalização nas opiniões expressas no jornal. Segundo o historiador Barman, por esse acordo, negociado pelo embaixador português em Londres, D. Domingos de Souza Coutinho, a partir de 1812, Hipólito passou a receber uma pensão anual em troca de críticas amenas ao governo de D. João, que era um leitor assíduo dos artigos e editoriais da publicação. `O público nunca tomou conhecimento desse acordo´, afirma o historiador. De qualquer modo, Hipólito mostrava-se simpático à Coroa portuguesa antes mesmo de negociar o subsídio. `Ele sempre tratou D. João com profundo respeito, nunca questionando sua beneficência´, registrou Barman. O Correio Braziliense, que não apoiou a Independência brasileira, deixou de circular em dezembro de 1822. Hipólito foi nomeado pelo Imperador Pedro I agente diplomático do Brasil em Londres, cargo que envolvia o pagamento de uma nova pensão pelos cofres públicos (Gomes. 2008. pp.135-136 Apud. Lima n/p.).


            A historiadora Tânia Regina de Luca[5] concluiu que, apesar da Gazeta do Rio de Janeiro ter sido realmente o primeiro jornal impresso em terras brasileiras, tratava-se de um veículo de comunicação que se colocava apenas como um porta-voz para “(...) informar os atos do governo e trazer noticias do exterior, porém cuidadosamente filtradas pelos censores”[4].

            Quanto aos impressos feitos no Brasil no século XIX, Tânia Regina de Luca, comenta que esses se caracterizavam em obedecer a uma linhagem doutrinária, apoiada geralmente na alegação apaixonada do ideário da Identidade Nacional e sobre a intervenção no espaço público.


(...) é bom lembrar contava com contingente diminuto de leitores, tendo em vista as altíssimas taxas de analfabetismo. Os aspectos comerciais da atividade eram secundários diante da tarefa de interpor-se nos debates e dar publicidades as propostas, ou seja, divulgá-las e torna-las conhecidas. (LUCA, 2006. p. 133-134).


   Até 1822, foram criados mais de 50 periódicos no País. Antes mesmo do desencadeamento da Independência, em locais como Rio de Janeiro, Bahia e Pernambuco circulavam impressos utilizados como uns dos principais instrumentos políticos na luta do processo emancipatório brasileiro. É o que nos revela Isabel Lustosa em Insultos impressos[5].

  Durante o século XVIII, Minas Gerais era a principal capitania da Colônia. No século seguinte, mesmo levando em consideração a queda brusca na arrecadação aurífera e de suas jazidas de diamantes, Minas se mantinha como uma capitania em condições econômicas-sociais diversificadas e dinâmicas. Apesar disso, a imprensa chegou a Minas Gerais tardiamente, quando comparada às demais províncias do período Imperial.[6],


As Minas foram a sexta província a ter jornais circulando. A primeira foi a do Rio de Janeiro, que, em 10 de setembro de 1808, ganhou a Gazeta do Rio de Janeiro. Em segundo lugar, ficou a Bahia, onde, em 14 de maio de 1811, começou a circular aIdade d’Ouro do Brazil. Depois, em 21 de março de 1821, em Pernambuco surgiu a Aurora Pernambucana. A quarta a ter jornais foi a do Maranhão, que, em 10 de novembro de 1821, ganhou O Conciliador do Maranhão (ele já circulava manuscrito desde 15 de abril). Em quinto lugar ficou o Pará, onde, em março de 1822 surgiu O Paraense. Nas Minas, só em 13 de outubro de 1823 (um ano e meio depois do Pará) surgiu o primeiro jornal, o Compilador Mineiro. (MENDES, 2005. n/p).


O Compilador Mineiro circulou de 13 de outubro de 1823 a 9 de janeiro de 1824. Após ele, deu-se início uma rápida disseminação de publicações de impressos, vindo alguns dias depois a surgir o Abelha do Itacolumy, que também teve duração efêmera e foi sucedido pelo O Universal, jornal esse que ocupou destacado papel na imprensa mineira e ficou conhecido por ter como redator-chefe Bernardo Vasconcelos até 1833. O fechamento desse impresso em 1842 chama atenção por um fato curioso, uma vez que foram encerradas suas atividades porque os tipos foram derretidos e fundidos em balas de fuzil para serem utilizadas na Revolução de 1842.

       Ao longo dos mais de 200 anos da imprensa brasileira, houve continuidades e rupturas que acompanharam importantes momentos políticos da vida nacional. Um desses momentos foi sentido com a vinda da família real portuguesa para a Colônia, fator que fundamentou um conjunto de mudanças processadas nas primeiras décadas do século XIX, entre as quais contribuíram para transformar o Brasil, aceleradamente, em uma monarquia independente. Durante o governo imperial, a imprensa se ramificou em diversas áreas do conhecimento e se fazia presente no cotidiano de homens letrados. Ela foi fundamental para divulgar e consolidar os ideais liberais à moda brasileira.



       De um país agrário, o Brasil se estendeu no decorrer do século XX ao mundo da urbanização e industrialização. Acompanhando essas mudanças, a imprensa escrita se modernizou paulatinamente, constituindo-se num poderoso mecanismo de formação de opinião das massas. Um meio de comunicação que vem influindo nas mudanças e variações dos padrões e valores do capitalismo e da cultura.


Breve história da imprensa em Uberaba (final do século XIX e início do XX) 


          O primeiro jornal impresso que se tem notícia no Triângulo Mineiro foi O Paranahyba, que segundo o memorialista Hildebrando Pontes[7], foi criado pelo médico francês Henrique Des Genettes em 01 de outubro de 1874. Pontes revela que, a maioria dos primeiros impressos obedecia a fins políticos “(...) daí ser a política uma das causas que mais eficazmente contribuíram para o progressivo desenvolvimento da imprensa entre nós”[8]. Ele lembra que, por estes impressos manterem posicionamentos políticos em suas abordagens, alguns jornalistas sofreram violências das partes ofendidas.

Figura 3. Des Genettes, médico francês precursor da imprensa em Uberaba foi figura de proeminência no município tendo apoiado a criação da primeira escola secundária de Uberaba, atual Colégio Marista Diocesano e também participou na construção do Teatro São Luiz. Assumiu os cargos de professor, médico, vereador, advogado e inspetor da instrução pública. Apoiou a construção da Santa Casa. Deu ao "Sertão da Farinha Podre" o nome de "Triângulo Mineiro" e, em 1875, desenvolveu a primeira campanha separatista, desejando anexar o Triângulo Mineiro ao Estado de São Paulo. Ordenou-se em 1876 e, em seguida, foi nomeado vigário. Fonte: APU.


                             Lista dos jornais mais antigos de Uberaba:

                      1 – O Paranahyba – 1874                                            30 - Jornal de Uberaba – 1889
                      2 - Echo do Sertão – 1874 – 1876                               31 – O Clarim - 1889
                      3 – O Beija Flor – 1875                                                32 – A Marcha - 1889
                      4 – Gazeta de Uberaba (1°) – 1875                             33 – O dia - 1890 
                      5 – O Bobo – 1876                                                       34 – O Breach - 1890
                      6 – O Uberabense – 1876                                            35 – O Povo -  1890
                      7 – O Relâmpago – 1876                                             36 – O Commércio - 1890
                      8 – O Progresso – 1878                                               37 – Revista Uberabense - 1891
                      9  - Gazeta de Uberaba (2º) – 1879                             38 – A Revista - 1892
                     10 – O Recreio – 1880                                                  39  - A Espera - 1892
                     11 – Correio Uberabense – 1880                                  40 – O Popular - 1892
                     12 – Aurora Mineira – 1881                                           41 – Gazetinha - 1893
                     13 – Monitor Uberabense – 1881                                  42 – A Procella – 1893
                     14 – A Vespa – 1881                                                     43 – O Tempo - 1893
                     15 – O Tiradentes – 1881                                              44 – Tribuna do Povo – 1893
                     16 – O Moça – 1881                                                      45 -  X - 1894
                     17 – O Mineiro – 1881                                                   46 – A Gazetinha - 1894
                     18 – A Violeta – 1882                                                    47 – A Sogra - 1894
                     19 – O Carrapato – 1882                                              48 – O Prego - 1894
                     20 – O Denunciante – 1882                                          49 – A Cidade de Uberaba - 1895
                     21 – O Nevoeiro – 1882                                                50 – O Jasmim  - 1896
                     22 – O Raio – 1883                                                       51 – A Lucta - 1896
                     23 – O Paladino – 1883                                                52 – Jornal de Uberaba - 1896
                     24 – O Volitivo – 1884                                                   53 – A Gazetinha - 1896
                     25 – O Wagon – 1884                                                   54 – O Clarim – 1896
                     26 – O Dentista – 1884                                                 55 – O Triângulo Mineiro - 1897
                     27 – O Filho do Povo – 1885                                        56 – O Arrebol - 1897
                     28 -  O Caipira – 1885                                                  57 – Revista Agrícola – 1897
                     29 – Gazetinha Mineira – 1886            
                                                                          (JORNAL LAVOURA & COMÉRCIO, 06 de jul. 1999).

            No final do século XIX, Pontes nos mostra que a grande maioria dos jornais publicados em Uberaba era composta de pequenos formatos editoriais e tiveram duração efêmera de no máximo um ano. Além destes, havia composições de grandes periódicos de acordo com o padrão da época. Nas mesmas oficinas tipográficas em que esses eram feitos, era comum também a confecção de pequenos jornais de duração de dois a três meses e que logo mudavam de nome. Noutros formatos, haviam determinadas edições criadas especialmente para dar destaque as comemorações, quando comumente se limitavam  à tiragem de apenas uma única edição.

            A distribuição dos periódicos normalmente se fazia no perímetro urbano e é compreensível o fato de não ter alcançado sucesso entre o público leitor, uma vez que naquela época a população não era afeita à leitura. Esta situação melhorou progressivamente ao longo do século XX devido ao aumento da população, à cobertura dos sistemas educacionais, à presença de imigrantes, à introdução de novos hábitos e costumes adquiridos pela presença da ferrovia, ao telégrafo e ao surgimento e o acesso a novas tecnologias. Ao final do século XIX até 1930 existiram aproximadamente 175 impressos em Uberaba.

            O Paranahyba sobre o qual Pontes comenta, foi um jornal dedicado aos interesses comerciais, industriais e fabris de Minas Gerais, Goiás e Mato Grosso. Era publicado em média de 4 a 5 vezes por mês com tiragem de cerca de 200 exemplares, no formato entre quatro páginas a três colunas. A sede da oficina funcionava no prédio número 13 da antiga Rua Direita, hoje Rua Coronel Manoel Borges. Pontes indica que o nome de O Paranahyba pode ter sido dado devido a duas hipóteses: a primeira em homenagem feita ao amigo de Des Genettes, José Paranahyba; a segunda devido ao nome do rio Paranaíba que divide o Estado de Goiás com o norte da região mineira do Triângulo Mineiro. “O prelo era manual, com a alavanca e pêros, e os pés ou suportes, em cruz. (...) serviu a impressão de diversos outros jornais de Uberaba: O Echo do Sertão, O Beija Flor, O Bobo, a Gazeta de Uberaba (primeira), O Uberabense e o Relâmpago”[9].      
Capa do jornal "Echo do Sertão", coordenado por Henrique Raymundo De Genettes, de junho de 1875. Este foi um dos primeiros impressos a circular em Uberaba. Fonte: Superintendência do Arquivo Público Mineiro.

            O termo Triângulo Mineiro foi vinculado a esta região de Minas Gerais ao que se sabe pela primeira por Des Genettes, que em suas publicações o utilizava para substituir o nome do antigo Sertão da Farinha Podre. Tempos depois, o jornal O Paranahyba teve seu nome trocado por Echo do Sertão, folha esta que tinha como bandeira o debate sobre separação da região do Triângulo Mineiro e a anexação desta pelo Estado São Paulo. Após algumas tiragens, o jornal muda seu foco da luta separatista, passando a dar ênfase em debates amplos, mudando seu formato e aumentando a sua tiragem para 650 exemplares. O Echo do Sertão encerrou suas publicações em março de 1886 na tiragem de número 66. Após seu fim, o Echo do Sertão passou a ser chamado de O Uberabense.

            O quarto jornal de Uberaba foi um dos que mais durou naquele contexto, comparado a tantos outros que tiveram vida curta. Tratava-se do semanário Gazeta de Uberaba, sucessor de O Beija Flor, que também era impresso na tipografia do Echo do Sertão, atendendo a mesma linha discursiva no enfoque da campanha da defesa da encampação do Triângulo Mineiro ao Estado de São Paulo. O Gazeta de Uberaba foi distribuído pela primeira vez em 1875, o seu primeiro diretor e redator era José Augusto de Paiva Teixeira. Na primeira etapa de sua existência foi publicado até fevereiro de 1876.

 Em 27 de abril de 1879 foi criado um jornal com o mesmo título por João Caetano de Oliveira e Souza e José Frederico Ludovice. De acordo com as primeiras edições, o Gazeta de Uberaba era mantido pela firma "Ludovice e Companhia" e administrado por José Augusto de Paiva Teixeira. Nessa  época, o impresso mantinha uma atuação político-partidária oponente ao Partido Liberal que era representado por outro jornal com o título de Correio Uberabense. Os seus principais redatores do jornal foram: João Caetano de Oliveira e Souza, João José Frederico Ludovice, Thomaz Pimental de Ulhôa e Ten. Wenceslau Pereira de Oliveira. 
Parte da primeira página da edição nº 3 do Jornal Gazeta de Uberaba de 11 de maio de 1879. Fonte: Superintendência do Arquivo Púbico de Uberaba.

        Devido à eleição pelo pleito de deputado estadual para Assembleia Legislativa mineira em 1885, João Caetano de Oliveira saiu do cenário editorial da impressa uberabense. Entretanto, o jornal continuou em atividade, sendo redigido pelos jornalistas supracitados. 


         A partir de então, somou-se a redação da Gazeta de Uberaba, a figura de Juventino Polycarpo Alves de Lima, que naquela época era juiz municipal de Uberaba e político conservador. Os debates do periódico estavam sustentados na luta contra os liberais que se moviam pelas colunas de outro jornal, o Monitor Uberabense. Em seguida, os liberais mantiveram-se alinhados na Gazetinha Mineira, que nas palavras de Pontes era “politicamente redigida pelo Tenente Coronel Antônio Borges Sampaio do Partido Liberal” [10].

         Juventino Polycarpo Alves de Lima ficou afastado temporariamente do cenário político uberabense devido a sua nomeação para Juiz de Araxá, logo após foi removido para a Comarca de Entre Rios, no governo de Cesário Alvim. Com pouco tempo nessa Comarca, após sua exoneração, volta para Uberaba onde novamente reintegrava-se a redação e direção do Gazeta de Uberaba. Lima desempenhou funções na redação do jornal até sua morte em 1890. 

      No ano seguinte, toma frente da direção do jornal o professor Alexandre Barbosa, sucedido posteriormente pelo então promotor de justiça pública de Uberaba, Joaquim José Saraiva Júnior, outro que também não permaneceu por muito tempo na direção, haja vista que foi transferido para a Promotoria de Monte Alegre. A partir daí a coordenação e redação do Gazeta de Uberaba passou para as mãos de Chrispiniano Tavares, José Maria Teixeira de Azevedo e outros. Quando entra em cena a República, a aderência política afeita pela folha, ajustou-se ao Partido Republicano Mineiro - PRM.

         Já no ano de 1895, o então proprietário do Gazeta de Uberaba, Tobias Antônio Rosa, mudou-se para o município de Ribeirão Preto, levando consigo o jornal, que lá passou a ser intitulado de São Paulo e Minas. Dois anos após retornar a Uberaba, Tobias Antônio Rosa novamente reabriu as portas da redação do jornal com o seu nome anterior, Gazeta de Uberaba.
Imagem do Cel. Tobias Antônio Rosa - proprietário do Jornal Gazeta de Uberaba de 1895 a 1915
 Fonte: Acervo Superintendência de Aquivo Público, de Uberaba.

Na sucessão da presidência do Estado de Minas Gerais de Bias Fortes para Silviano Brandão, surge em Uberaba o Partido da Lavoura e Comércio, entidade que representava os interesses de segmentos econômicos da região que eram contrários às taxas cobradas em detrimento aos seus interesses financeiros. Assim nasce o então jornal Lavoura e Comércio de propriedade de Antônio Garcia de Adjunto. O embate de interesses políticos na região ficou marcado claramente nas linhas editorias dos dois jornais: de um lado estava o Gazeta de Uberaba, alinhado as proposições políticas do governo de Minas Gerais de Silviano Brandão, de outro o Lavoura e Comércio, entrincheirando os interesses classistas locais.

A oposição do Gazeta de Uberaba ao jornal Lavoura e Comércio se deu até a fusão do Partido da Lavoura e Comércio com o PRM em janeiro de 1903. Após esse período, o Gazeta de Uberaba centrou-se noutras questões de interesses gerais, como relata Pontes[11]. Daquele momento, até maio de 1909 foram redatores do jornal: José Maria Teixeira de Azevedo Júnior, Acrísio da Gama e Silva, Desidério Ferreira de Melo, José Maria dos Reis, Hildebrando de Araújo Pontes, Philippe Achê, João Eloy da Costa Carmelo, cujo último deixou a redação do jornal em abril de 1910, quando foi substituído por José Affonso de Azevedo.

Hildebrando Pontes, mostra no seu estudo sobre a imprensa de Uberaba que, o Gazeta de Uberaba a partir de 1909, ajustou seu enfoque editorial em defesa do recém-criado Partido Civilista, contrário à indicação feita pela convenção nacional ao pleito da presidência da República. Pontes ainda conta que o jornal tomou outra linha absolutamente diferente pela marcada até então quando,


[...] Entretanto por transação de 21 de janeiro do ano seguinte, entre os diretores os senhores Tobias Rosa e Filho e o Coronel Américo Brasileiro Fleury, passou a ser, a Gazeta de Uberaba, desse dia em diante propriedade do último. Essa transação inverteu diametralmente, os pólos de defesa política do jornal, que passou a ser agora, órgão francamente hermista politicamente redigida pelo deputado Afrânio de Mello Franco, e literariamente redigido pelo José Afonso de Azevedo, figurando, ainda, no seu corpo de colaboradores, além de outros, o Dr. José Julio de Freitas Coutinho, Juiz Municipal de Uberaba. Cessada a campanha hermista, continuou como órgão do PRM, redactoriado pelos doutores Lauro de Oliveira Borges, Alaor Prata Soares e José Julio de Freitas Coutinho. (PONTES, JORNAL CORREIO CATÓLICO, 1931. n/p).

           
            Em 1911 o Gazeta de Uberaba transformou-se em propriedade de uma associação dirigida pelos mesmos nomes ditos na citação acima, somando ao corpo de redatores Pedro de Alcântara Cavalcante de Albuquerque Paraíso, Diocleciano Vieira e Ranulpho Taveira e o secretário Quirino Pucci. No entanto, o jornal teve suas atividades interrompidas em 1912. Em novembro de 1913, o coronel Tobias Rosa fundou a Gazeta do Triângulo, uma associação que defendia os interesses do PRM – Democrata. Em 1915 rearticulou a volta do Gazeta de Uberaba, mas desta vez, a folha atendia aos interesses  do “Partido da Concentração Municipal de Uberaba”. Nesse contorno, o Gazeta de Uberaba funcionou até 1917, ano em que faleceu o Coronel Tobias Rosa.

           Em 1927, através de uma aliança encabeçada por João Henrique Vieira Sampaio da Silva, foi adquirido da família de Tobias Rosa o título e material gráfico da extinta folha; dessa maneira constituiu-se a Sociedade Anônima Gazeta de Uberaba que reativou o jornal Gazeta de Uberaba. A presidência da sociedade era exercida por Mário de Moraes e Castro, a direção do jornal estava João Henrique e a gerência de Orlando Bruno.


Thiago Riccioppo - Mestre em História pela Universidade Federal de Uberlândia - UFU, historiador da Superintendência do Arquivo Público de Uberaba e Gerente Executivo da Fundação Museu do Zebu Edilson Lamartine Mendes.
Revisão: Maria Rita Trindade Hoyler 



[1] LIMA, Venício A. 200 anos de imprensa no Brasil: história de continuidades e de ruptura.Observatório da imprensa: Disponível em: http://historiaemprojetos.blogspot.com/2008/08/200-anos-de-imprensa-no-brasil-histria.html. Acesso em 05 de setembro de 2014.
[2] SODRÉ, Nelson Werneck. A história da imprensa no Brasil. (4ed). São Paulo: Mauad, 2004. Apud. LIMA, Venício A. 200 anos de imprensa no Brasil: história de continuidades e de ruptura.
[3] LIMA, Venício A. Op. Cit. Nota 1. n/p.
[4] GOMES, Laurentino. 1808. 8 ª ed. São Paulo: Planeta, 2008.
[5] LUCA, Tânia Regina. História dos, nos e por meios dos periódicos. (In): PINSKY, Carla Bassanezi. (Org.) Fontes Histórias. 2 ed. São Paulo: Contexto, 2006. p. 133.
[6] Id. Ibid. p. 133.
[7] LUSTOSA, Isabel. Insultos impressos: a guerra dos jornalistas na independência (1821-1823). São Paulo: Cia das Letras, 2000. passim.

[8] O termo províncias, que eram subdivisões do território nacional, foi adotado ainda no âmbito do Reino de Portugal, Brasil e Algarves em 28 de fevereiro de 1821 pelas Cortes Gerais e Extraordinárias da Nação Portuguesa. Este termo foi mantido durante o Império.

[9] PONTES, Hildebrando. A Imprensa de Uberaba. JORNAL CORREIO CATÓLICO, 21 de mar. 1931. nº 360. n/p. Transcrição do Original: João Eurípedes de Araújo.
[10] Id. Ibid. n/p. 
[11] Id. Ibid. n/p. nº 360.n/p.

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