22 de junho de 2017

Hora H: Histórias, curiosidades e fatos que marcaram Uberaba




Apresentando

Hora H é uma publicação semanal, do Arquivo Público de Uberaba. 
Nela estarão curiosidades da história de Uberaba: textos, fotos, propagandas e também informações sobre nossas atividades.
Ressaltamos que as citações obedecem a ortografia da época.

Divirtam-se!

O São João

Aproveitando datas e movimentos em torno, nosso primeiro assunto é a festa de São João.
Foi da matéria do Lavoura e Comércio, 1903: “Costumes Antigos”, escrita por João Vieira de Almeida, que extraímos narrativa e inspiração.

João vai contar sobre as festas de São João em sua mocidade. Isso para antes de 1888: “Naqueles saudosos tempos, os costumes eram outros, porque ainda havia escravos que faziam quase parte da família [...] e tomavam parte saliente na festa [...]”.

Sua memória apeia numa fazenda.


A Preparação:


Gente ralando mandioca, fazendo farinha e polvilho.
Matança de porco visando linguiça e toucinho.
Forno aquecendo para mais logo os assados e biscoitos.
E doces e caldas de doces e compoteiras de doces.
Tudo aguardando e querendo.

Lá fora, varrição meticulosa do terreiro e decoração grotesca das senzalas. Para homenagear o Santo, ordenava-se asseio e beleza.


Dia da Festa:


Junho. De tardezinha começavam a chegar vizinhos, parentes, amigos e compadres.

Escurecia. Cerimônia elevando o mastro. Fogueira acesa assando batata doce e cana-de-açúcar.

Entre o fogo e a fé se acreditava que a gente podia andar em brasas sem queimar os pés.

Oito da noite o oratório era aberto, o povo lá se juntava e fazia a reza em honra ao Santo.

Depois o profano assumia.

Moças nas janelas soltando estrelinhas, meninos queimando rodinhas e pistolões.

Diz João: “[...] os negros e os caboclos de instantes a instantes davam salvas com uma roqueira fazendo estremecer as paredes da casa”.

Hora da “janta”. Veio a fome e se juntou à comida. Uma santa ceia para a casa grande e um rega-bofe para a escravaria.

E no caminhar das palavras, João Vieira junta o São João, os negros e os colonos europeus, e vai expondo seu pensar saudoso: “[...] a parte da festa de cunho mais característico que vai desaparecendo com a introdução dos colonos europeus é o batuque dos pretos.”.

Em detalhes nos deixa uma preciosidade histórica:

“[...] os pretos formavam um grande circulo em cujo centro ficava o tocador de tambaque (atabaque), espécie de caixa de rufo, um tambor fabricado de um só tronco de arvore, concava, e tendo couro numa só das extremidades. Este era o mestre sala, o regente da orchestra, enfim, a cujo aceno tudo porava ou continuava a dansar. [...] outros ainda tocavam pandeiros, raspavam taquaras dentadas e agitavam chocalhos [...] o batuque prosseguia ininterrupto até o raiar do dia.”
 Meia-noite. Desciam todos para uma fonte de água mais próxima. Iam lavar o São João. Mergulhado na água três vezes. Assim que o Santo emergia todos queriam lavar o rosto na água santificada ou contemplar a sua imagem no espelho da corrente. Aquilo traria sorte, felicidade.

Depois voltavam para as mesas e acabavam de vez com a fartura.

João Vieira despede-se de suas lembranças e cai na realidade: “Hoje, o que se vê pelas cidades? Os vulgares foguetes, os sediços, as ignobeis rodinhas, e os detestaveis pistolões. Onde o encanto das reuniões familiares, onde o cunho popular das festas? Ah! O cosmopolitismo [...]”.



Propagandas


Por ser assunto sempre atual, pretendemos dedicar uma coluna ao tema.

Vejam estas, extraídas do Jornal Gazeta de Uberaba, de 1879: 


Expediente

Textos: Miguel Jacob Neto e João Vieira de Almeida
Revisão: Maria Rita Trindade Hoyler
Departamento de Difusão, Apoio à Pesquisa e Atendimento

Atas da Câmara Municipal de Uberaba

Está sob a guarda da Superintendência do Arquivo Público de Uberaba, as Atas da Câmara Municipal de Uberaba, desde o ano de 1837. Todo este material está disponível para consulta na entidade. Nesta postagem, apresentamos o conteúdo de uma destas Atas.

Confira:


FUNDO: Câmara Municipal de Uberaba
SÉRIE: Atas de Reuniões da Câmara Municipal
Data-Limite: 07/01/1857 a 29/04/1993

Data: 07/01/1857
Sessão: Sessão de Posse da Nova Câmara em 7 de Janeiro de 1857
Assunto:
Aos sete dias do mês de Janeiro do Ano do Nascimento do Nosso Senhor Jesus Christo de mil oitocentos e cincoenta e sete, nesta cidade do Uberaba, Comarca do Paraná Provincia de Minas Geraes, no Paço da Câmara Municipal da mesma cidade, na Sala das Sessões, achando-se reunida a Câmara com os vereadores: Joaquim Antonio Rosa, Jose Ferreira da Rocha, Jose Teixeira Alves de Oliveira, Jose Elias de Sousa, Antonio Borges Sampayo, sob a presidência do cidadão Francisco Rodrigues de Barcellos, faltando com causa justa o vereador Camillo Antonio de Menezes e sem ela os vereadores Salvador Ferras de Almeida e Antonio Eloy Cassimiro: e achando-se tambem presentes os cidadãos João Baptista Maxado, Joaquim Alves Gondim, Jose Marinho de Oliveira Ramos, Francisco Rodrigues de Souza e Balduino José dos Santos, para o fim de prestarem juramento e tomarem posse de Vereadores da Câmara Municipal desta cidade, para o quatriênio de 1857 a 1860, o fizerão aos Santos Evangelhos em um livro deles conforme a formula estabelecida no Artigo 17 da Lei do 1º de Outubro de 1828, e como ouvessem de tomar posse, e prestar o mesmo juramento os vereadores Francisco Rodrigues de Barcellos, Joaquim Antonio Rosa, José Ferreira da Rocha, José Teixeira Alves de Oliveira, por terem sido reeleitos, depois de todos terem tomado asento e ocupando a Presidência o novo vereador João Baptista Maxado, prestarão estes o juramento conforme o Artigo 17 da Lei citada, e logo o cidadão Francisco Rodrigues de Barcellos, tornando ocupar a cadeira da Presidência, declarou instalada a Câmara Municipal desta cidade do Uberaba, para funcionar o quatriênio de 1857 a 1860, do que para constar se lavrou a presente ata em se assinarão todos os vereadores presentes. Eu Silverio Bernardes Leão Secretário da Câmara Municipal o escrevi;
Secretário: Silverio Fernandes Leão
Livro: 01                Página (s): 01 e 01

Departamento de Gestão de Documentos e Arquivo Histórico





21 de junho de 2017

Alunos da UFU (Universidade Federal de Uberlândia), campus de Ituiutaba/Pontal visitam o ARQUIVO PÚBLICO DE UBERABA


Sessenta alunos do curso de História da UFU estiveram reunidos no Arquivo Público de Uberaba no dia 20 de junho com objetivo de conhecer os Departamentos da Instituição e fazer um levantamento de fontes sobre a história regional.


         Com orientações dos historiadores do Arquivo Público de Uberaba, João Eurípedes de Araújo e Luiz Henrique Cellurale, verificaram o processo de digitalização de documentos feito pela funcionária Priscila Mariano e o trabalho conduzido pela equipe de Edguimar Antônio de Oliveira, no Departamento de Gestão de Documentos.

         Regidos pelo Guia de Fontes, examinaram diversos tipos de material do Acervo da Instituição, como: Inventário de Major Eustáquio de 1832, a Divisão da Sesmaria de Ponte Alta, de 1799 e o processo criminal da escrava Maria Rita, de 1886; além de jornais, revistas e livros produzidos em Uberaba no começo do século XIX, assim como os trabalhos historiográficos realizados pelo Arquivo Público.

         O Arquivo permanente, ou histórico é uma rica fonte documental para os pesquisadores, especialmente para os alunos do curso de história, pois permite a realização de projetos sobre a história local, com desdobramentos para "TCCs" (Trabalhos de Conclusão de Curso), Dissertações (Mestrado) e Teses (Doutorados).

         Os professores da Universidade, doutores Aurelino José Fereira Filha, Eduardo Giavara e Carlos Eduardo Moreira, sugeriram, na ocasião, uma parceria entre a Universidade de Uberlândia e o Arquivo com a finalidade de realizar pesquisas aproveitando a base documental do Acervo da Instituição, o que, certamente, traria mais luzes sobre a rica e controvertida história da região. 



Confira as imagens da visita dos alunos do curso de História da UFU a Superintendência do Arquivo Público de Uberaba:

Alunos da UFU na Mapoteca do Arquivo Público de Uberaba
Alunos da UFU conhecendo o acervo documental do Arquivo Público,
acompanhado do professor de História


Alunos da UFU conhecendo o acervo documental do Arquivo Público,
acompanhado do professor de História
Pesquisador Miguel Jacob do APU concedendo entrevista à repórter da TV Integração
Historiador Luiz Cellurale do APU sendo entrevista por repórter da TV Integração
Historiador João Eurípedes de Araújo do APU em entrevista à repórter da TV Integração

Alunos do curso de História da UFU - campus Ituiutaba/Pontal no sala de
palestras do Arquivo Público de Uberaba


Alunos da UFU conhecendo a Mapoteca do Arquivo Público de Uberaba



                   

12 de junho de 2017

Breve História da Imprensa: Os primeiros veículos de imprensa no Brasil, Minas e em Uberaba (Parte 1)


Por Thiago Riccioppo*

A Superintendência do Arquivo Público lança pesquisa sobre uma breve história da imprensa em Uberaba. Para tanto, dividimos o texto em duas partes. A primeira é sobre o início da imprensa escrita no Brasil e em Minas Gerais, abordando também seu início em Uberaba. A Segunda parte, fala especialmente sobre a trajetória de um dos mais antigos jornais do Brasil até o seu fechamento, o jornal Lavoura e Comércio, que circulou ininterruptamente por mais de 100 anos até o ano de 2004. 
Confira:
    

 O início da imprensa escrita no Brasil e em Minas Gerais

            Em 2008 foram celebrados 200 anos da chegada da imprensa no Brasil, tendo para muitos como marco inicial, a publicação do jornal Correio Braziliense. Contudo, é bom saber que as primeiras edições do Correio Braziliense, o primeiro periódico a falar especificamente do País eram feitas em Londres, comandadas Hipólito José da Costa, uma vez que a atividade até então era proibida pela coroa portuguesa em solos brasileiros. O mensário circulou de 1º de julho de 1808 a dezembro de 1822. O veículo somente chegou ao Rio de Janeiro em outubro de 1808.


 
                                  Figura 1. Hipólito José da Costa, editor do jornal Correio Braziliense, considerado o primeiro jornal sobre o Brasil. Autor desconhecido.


           Quando Brasília foi inaugurada em 1960, a marca Correio Braziliense foi negociada com a família de Hipólito da Costa, com o então embaixador do Brasil na Inglaterra, Assis Chateaubriand, que colocou em circulação um novo jornal aproveitando-se do antigo nome Correio Braziliense, o qual até hoje é o principal jornal do Distrito Federal.

               
               A Gazeta do Rio de Janeiro, de 10 de setembro de 1808, foi o primeiro jornal publicado em território nacional, com maquinário adquirido na Inglaterra. Tratava-se de um veículo oficial do governo português com ênfases em notícias favoráveis a corte.


Figura 2. Alegoria da chegada da família real portuguesa no Rio de Janeiro em 1808. Pintura Óleo sobre tela de Domingos Antônio Serqueira (1768 -1837). Fonte: Coleção Duque de Palmeira, Lisboa.
       
             Sobre o Correio Braziliense de Hipólito da Costa e o Gazeta do Rio de Janeiro, existiram versões divergentes que se colidem entre si quanto a questão de qual seria o primeiro jornal brasileiro. Para falar deste assunto, tomamos por base às observações feitas em um artigo escrito pelo jornalista Venício A. de Lima[1] do blog Observatório da imprensa. Venício discerne sobre o embate apresentado por Nelson Werneck Sodré[2], que considera que a introdução da imprensa no Brasil em julho de 1808 como contraditória, na acepção que o impresso Correio Braziliense era elaborado na Inglaterra, por esse motivo era mantido mais por condições externas do que aspirações internas. No entanto, têm aqueles que defendem o Correio Braziliense como marco inicial da imprensa no país, tendo em vista que este foi um veículo participativo em discursos de afirmação da identidade nacional, pois se manteve durante sua existência como um bastião significativo entre os defensores da “independência, do interesse nacional, da abolição escravatura e da permanência de Dom Pedro I no Brasil”[3].

            Para jornalista Laurentino Gomes[4] em seu livro 1808, a visão romântica sobre o Correio Braziliense se torna tênue ao lançar as seguintes observações,

O mesmo Hipólito que defendia liberdade de expressão e idéias liberais acabaria, porém, inaugurando o sistema de relações promíscuas entre imprensa e governo no Brasil. Por um acordo secreto, D. João começou a subsidiar Hipólito na Inglaterra e a garantir a compra de um determinado número de exemplares do Correio Braziliense, com o objetivo de prevenir qualquer radicalização nas opiniões expressas no jornal. Segundo o historiador Barman, por esse acordo, negociado pelo embaixador português em Londres, D. Domingos de Souza Coutinho, a partir de 1812, Hipólito passou a receber uma pensão anual em troca de críticas amenas ao governo de D. João, que era um leitor assíduo dos artigos e editoriais da publicação. `O público nunca tomou conhecimento desse acordo´, afirma o historiador. De qualquer modo, Hipólito mostrava-se simpático à Coroa portuguesa antes mesmo de negociar o subsídio. `Ele sempre tratou D. João com profundo respeito, nunca questionando sua beneficência´, registrou Barman. O Correio Braziliense, que não apoiou a Independência brasileira, deixou de circular em dezembro de 1822. Hipólito foi nomeado pelo Imperador Pedro I agente diplomático do Brasil em Londres, cargo que envolvia o pagamento de uma nova pensão pelos cofres públicos (Gomes. 2008. pp.135-136 Apud. Lima n/p.).


            A historiadora Tânia Regina de Luca[5] concluiu que, apesar da Gazeta do Rio de Janeiro ter sido realmente o primeiro jornal impresso em terras brasileiras, tratava-se de um veículo de comunicação que se colocava apenas como um porta-voz para “(...) informar os atos do governo e trazer noticias do exterior, porém cuidadosamente filtradas pelos censores”[4].

            Quanto aos impressos feitos no Brasil no século XIX, Tânia Regina de Luca, comenta que esses se caracterizavam em obedecer a uma linhagem doutrinária, apoiada geralmente na alegação apaixonada do ideário da Identidade Nacional e sobre a intervenção no espaço público.


(...) é bom lembrar contava com contingente diminuto de leitores, tendo em vista as altíssimas taxas de analfabetismo. Os aspectos comerciais da atividade eram secundários diante da tarefa de interpor-se nos debates e dar publicidades as propostas, ou seja, divulgá-las e torna-las conhecidas. (LUCA, 2006. p. 133-134).


   Até 1822, foram criados mais de 50 periódicos no País. Antes mesmo do desencadeamento da Independência, em cidades como Rio de Janeiro, Bahia e Pernambuco circulavam impressos utilizados como uns dos principais instrumentos políticos na luta do processo emancipatório brasileiro. É o que nos revela Isabel Lustosa em Insultos impressos[5].

  Durante o século XVIII, Minas Gerais era a principal capitania da Colônia. No século seguinte, mesmo levando em consideração a queda brusca na arrecadação aurífera e de suas jazidas de diamantes, Minas se mantinha como uma capitania em condição econômicas-sociais diversificadas e dinâmicas. Apesar disso, a imprensa chegou a Minas Gerais tardiamente, quando comparada as demais províncias do período Imperial.[6],


As Minas foram a sexta província a ter jornais circulando. A primeira foi a do Rio de Janeiro, que, em 10 de setembro de 1808, ganhou a Gazeta do Rio de Janeiro. Em segundo lugar, ficou a Bahia, onde, em 14 de maio de 1811, começou a circular aIdade d’Ouro do Brazil. Depois, em 21 de março de 1821, em Pernambuco surgiu a Aurora Pernambucana. A quarta a ter jornais foi a do Maranhão, que, em 10 de novembro de 1821, ganhou O Conciliador do Maranhão (ele já circulava manuscrito desde 15 de abril). Em quinto lugar ficou o Pará, onde, em março de 1822 surgiu O Paraense. Nas Minas, só em 13 de outubro de 1823 (um ano e meio depois do Pará) surgiu o primeiro jornal, o Compilador Mineiro. (MENDES, 2005. n/p).


O Compilador Mineiro circulou de 13 de outubro de 1823 a 9 de janeiro de 1824. Após ele, deu-se início uma rápida disseminação de publicações de impressos, vindo alguns dias depois a surgir o Abelha do Itaculumy, que também teve duração efêmera e foi sucedido pelo O Universal, jornal esse que ocupou destacado papel na imprensa mineira e ficou conhecido por ter como redator-chefe Bernardo Vasconcelos até 1833. O fechamento desse impresso em 1842 chama atenção por um fato curioso, uma vez que foram encerradas suas atividades porque os tipos foram derretidos e fundidos em balas de fuzil para serem utilizadas na Revolução de 1842.

       Ao longo dos mais de 200 anos da imprensa brasileira, houveram continuidades e rupturas que acompanharam importantes momentos políticos da vida nacional. Um desses momentos foi sentido com a vinda da família real portuguesa para a Colônia, fator que fundamentou um conjunto de mudanças processadas nas primeiras décadas do século XIX, entre as quais contribuíram para transformar o Brasil, aceleradamente, numa monarquia independente. Durante o governo imperial, a imprensa se ramificou em diversas áreas do conhecimento e se fazia presente no cotidiano de homens letrados. Ela foi fundamental para divulgar e consolidar os ideais liberais à moda brasileira.



       De um país agrário, o Brasil se estendeu no decorrer do século XX ao mundo da urbanização e industrialização. Acompanhando essas mudanças, a imprensa escrita se modernizou paulatinamente, constituindo-se num poderoso mecanismo de formação de opinião das massas. Um meio de comunicação que vem influindo nas mudanças e variações dos padrões e valores do capitalismo e da cultura.


Breve história da imprensa em Uberaba (final do século XIX e início do XX) 


          O primeiro jornal impresso que se tem notícia no Triângulo Mineiro foi O Paranahyba, que segundo o memorialista Hildebrando Pontes[7], foi criado pelo médico francês Henrique Des Genettes em 01 de outubro de 1874. Pontes revela que, a maioria dos primeiros impressos obedecia a fins políticos “(...) daí ser a política uma das causas que mais eficazmente contribuíram para o progressivo desenvolvimento da imprensa entre nós”[8]. Ele lembra que, por estes impressos manterem posicionamentos políticos em suas abordagens, alguns jornalistas sofreram violências das partes ofendidas.

Figura 3. Des Genettes, médico francês precursor da imprensa em Uberaba foi figura de proeminência no município tendo apoiado a criação da primeira escola secundária de Uberaba, atual Colégio Marista Diocesano e também participou na construção do Teatro São Luis. Assumiu os cargos de professor, médico, vereador, advogado e inspetor da instrução pública. Apoiou a construção da Santa Casa. Deu ao "Sertão da Farinha Podre" o nome de "Triângulo Mineiro" e, em 1875, desenvolveu a primeira campanha separatista, desejando anexar o Triângulo Mineiro ao Estado de São Paulo. Ordenou-se em 1876 e, em seguida, foi nomeado vigário. Fonte: APU.


                             Lista dos jornais mais antigos de Uberaba:

                      1 – O Paranahyba – 1874                                            30 - Jornal de Uberaba – 1889
                      2 - Echo do Sertão – 1874 – 1876                               31 – O Clarim - 1889
                      3 – O Beija Flor – 1875                                                32 – A Marcha - 1889
                      4 – Gazeta de Uberaba (1°) – 1875                             33 – O dia - 1890 
                      5 – O Bobo – 1876                                                       34 – O Breach - 1890
                      6 – O Uberabense – 1876                                            35 – O Povo -  1890
                      7 – O Relâmpago – 1876                                             36 – O Commércio - 1890
                      8 – O Progresso – 1878                                               37 – Revista Uberabense - 1891
                      9  - Gazeta de Uberaba (2º) – 1879                             38 – A Revista - 1892
                     10 – O Recreio – 1880                                                  39  - A Espera - 1892
                     11 – Correio Uberabense – 1880                                  40 – O Popular - 1892
                     12 – Aurora Mineira – 1881                                           41 – Gazetinha - 1893
                     13 – Monitor Uberabense – 1881                                  42 – A Procella – 1893
                     14 – A Vespa – 1881                                                     43 – O Tempo - 1893
                     15 – O Tiradentes – 1881                                              44 – Tribuna do Povo – 1893
                     16 – O Moça – 1881                                                      45 -  X - 1894
                     17 – O Mineiro – 1881                                                   46 – A Gazetinha - 1894
                     18 – A Violeta – 1882                                                    47 – A Sogra - 1894
                     19 – O Carrapato – 1882                                              48 – O Prego - 1894
                     20 – O Denunciante – 1882                                          49 – A Cidade de Uberaba - 1895
                     21 – O Nevoeiro – 1882                                                50 – O Jasmim  - 1896
                     22 – O Raio – 1883                                                       51 – A Lucta - 1896
                     23 – O Paladino – 1883                                                52 – Jornal de Uberaba - 1896
                     24 – O Volitivo – 1884                                                   53 – A Gazetinha - 1896
                     25 – O Wagon – 1884                                                   54 – O Clarim – 1896
                     26 – O Dentista – 1884                                                 55 – O Triângulo Mineiro - 1897
                     27 – O Filho do Povo – 1885                                        56 – O Arrebol - 1897
                     28 -  O Caipira – 1885                                                  57 – Revista Agrícola – 1897
                     29 – Gazetinha Mineira – 1886            
                                                                          (JORNAL LAVOURA & COMÉRCIO, 06 de jul. 1999).

            No final do século XIX, Pontes nos mostra que a grande maioria dos jornais publicados em Uberaba eram compostos em pequenos formatos editoriais e tiveram duração efêmera de no máximo um ano. Além destes, haviam composições de grandes periódicos de acordo com o padrão da época. Nas mesmas oficinas tipográficas em que esses eram feitos, era comum também a confecção pequenos jornais de duração de dois a três meses e que logo mudavam de nome. Noutros formatos, haviam determinadas edições criadas especialmente para dar destaque as comemorações, elas comumente se limitavam  à tiragem de apenas uma única edição.

            A distribuição dos periódicos normalmente se faziam no perímetro urbano e é compreensível de não ter alcançado sucesso entre o público leitor, uma vez que naquela época a população não era afeita à leitura. Esta situação melhorou progressivamente ao longo do século XX devido ao aumento da população, a cobertura dos sistemas educacionais, a presença de imigrantes, a introdução de novos hábitos e costumes adquiridos pela presença da ferrovia, o telégrafo,o surgimento e o acesso a novas tecnologias. Ao final do século XIX até 1930 existiram aproximadamente 175 impressos em Uberaba.

            O Paranahyba que Pontes comenta, foi um jornal dedicado aos interesses comerciais, industriais e fabris de Minas Gerais, Goiás e Mato Grosso, era publicado na média de 4 a 5 vezes por mês com tiragem cerca de 200 exemplares, no formato entre quatro páginas a três colunas. A sede da oficina funcionava no prédio número 13 da antiga Rua Direita, hoje Rua Coronel Manoel Borges. Pontes indica que o nome de O Paranahyba pode ter sido dado devido a duas hipóteses, a primeira em homenagem feita ao amigo de Des Genettes, José Paranahyba, a segunda devido ao nome do rio Paranaíba que divide o Estado de Goiás com o norte da região mineira do Triângulo Mineiro. “O prelo era manual, com a alavanca e pêros, e os pés ou suportes, em cruz. (...) serviu a impressão de diversos outros jornais de Uberaba: O Echo do Sertão, O Beija Flor, O Bobo, a Gazeta de Uberaba (primeira), O Uberabense e o Relâmpago”[9].       

            O termo Triângulo Mineiro foi vinculado a esta região de Minas Gerais ao que se sabe pela primeira por Des Genettes, que em suas publicações o utilizava para substituir o nome do antigo Sertão da Farinha. Tempos depois, o jornal O Paranahyba teve seu nome trocado por Echo do Sertão, folha esta que tinha como bandeira o debate sobre separação da região do Triângulo Mineiro e a anexação desta pelo Estado São Paulo. Após algumas tiragens, o jornal muda seu foco da luta separatista, passando a dar ênfase em debates amplos, mudando seu formato e aumentando a sua tiragem para 650 exemplares. O Echo do Sertão encerrou suas publicações em março de 1886 na tiragem de número 66. Após seu fim, o Echo do Sertão passou a ser chamado de O Uberabense.

            O quarto jornal de Uberaba foi um dos que mais durou naquele contexto, comparado a tantos outros que tiveram vida curta. Tratava-se do semanário Gazeta de Uberaba, sucessor de O Beija Flor, que também era impresso na tipografia do Echo do Sertão, atendendo a mesma linha discursiva no enfoque da campanha da defesa da encampação do Triângulo Mineiro ao Estado de São Paulo. O Gazeta de Uberaba foi distribuído pela primeira vez em 1875, o seu primeiro diretor e redator era José Alexandre de Paiva Teixeira. Na primeira etapa de sua existência foi publicado até fevereiro de 1876.

 Em 27 de abril de 1879 o mesmo jornal foi recriado por João Caetano e Rosa, nessa época o impresso mantinha uma atuação político-partidária oponente ao Partido Liberal que era representado por outro jornal com o título de Correio Uberabense. Os seus principais redatores foram: João Caetano de Oliveira e Souza, João José Frederico Ludovice, Thomaz Pimental de Ulhôa e Ten. Wenceslau Pereira de Oliveira. Devida a eleição pelo pleito de deputado estadual para Assembléia Legislativa mineira em 1885, João Caetano de Oliveira saiu do cenário editorial da impressa uberabense. Entretanto, o jornal continuou em atividade, sendo redigido pelos jornalistas supracitados. 

           A partir de então, somou-se a redação da Gazeta de Uberaba, a figura de Juventino Polycarpo Alves de Lima, que naquela época era juiz municipal de Uberaba e político conservador. Os debates do periódico estavam sustentados na luta contra os liberais que se moviam pelas colunas de outro jornal, o Monitor Uberabense. Em seguida, os liberais mantiveram-se alinhados na Gazetinha Mineira, que nas palavras de Pontes era “politicamente redigida pelo Tenente Coronel Antônio Borges Sampaio do Partido Liberal” [10].

         Juventino Polycarpo Alves de Lima ficou afastado temporariamente do cenário político uberabense devido a sua nomeação para Juiz de Araxá, logo após foi removido para a Comarca de Entre Rios, no governo de Cesário Alvim. Com pouco tempo nessa Comarca, após sua exoneração, volta para Uberaba onde novamente reintegrava-se a redação e direção do Gazeta de Uberaba. Lima desempenhou funções na redação do jornal até sua morte em 1890. 

      No ano seguinte, toma frente da direção do jornal o professor Alexandre Barbosa, sucedido posteriormente pelo então promotor de justiça pública de Uberaba, Joaquim José Saraiva Júnior, outro que também não permaneceu por muito tempo na direção, haja vista que foi transferido para a Promotoria de Monte Alegre. Sendo assim, a coordenação e redação do Gazeta de Uberaba passou para as mãos de Chrispiniano Tavares, José Maria Teixeira de Azevedo e outros. Quando entra em cena a República, a aderência política afeita pela folha, ajustou-se ao Partido Republicano Mineiro - PRM.

Já no ano de 1895, o então proprietário do Gazeta de Uberaba, Tobias Antônio Rosa, mudou-se para o município de Ribeirão Preto, levando consigo o jornal, lá passou a ser intitulado de São Paulo e Minas. Dois anos após retornar a Uberaba, Tobias Antônio Rosa novamente reabriu as portas da redação do jornal com o seu nome anterior, Gazeta de Uberaba.

Na sucessão da presidência do Estado de Minas Gerais de Bias Fortes para Silviano Brandão, surge em Uberaba o Partido da Lavoura e Comércio, entidade que representava os interesses de segmentos econômicos da região que eram contrários às taxas cobradas em detrimento aos seus interesses financeiros. Assim nasce o então jornal Lavoura e Comércio de propriedade de Antônio Garcia de Adjunto. O embate de interesses políticos na região ficou marcado claramente nas linhas editorias dos dois jornais, de um lado estava o Gazeta de Uberaba, alinhado as proposições políticas do governo de Minas Gerais de Silviano Brandão, de outro o Lavoura e Comércio, entrincheirando os interesses classistas locais.

A oposição do Gazeta de Uberaba ao jornal Lavoura e Comércio se deu até a fusão do Partido da Lavoura e Comércio com PRM em janeiro de 1903. Após esse período, o Gazeta de Uberaba centrou-se noutras questões de interesses gerais, como relata Pontes[11]. Daquele momento, até maio de 1909 foram redatores do jornal José Maria Teixeira de Azevedo Júnior, Acrísio da Gama e Silva, Desidério Ferreira de Melo, José Maria dos Reis, Hildebrando de Araújo Pontes, Philippe Achê, João Eloy da Costa Carmelo, cujo último deixou a redação do jornal em abril de 1910, quando foi substituído por José Affonso de Azevedo.

Hildebrando Pontes, mostra no seu estudo sobre a impressa de Uberaba que, o Gazeta de Uberaba a partir de 1909, ajustou seu enfoque editorial a defesa do recém-criado Partido Civilista, contrário a indicação feita pela convenção nacional ao pleito da presidência da República. Pontes ainda conta que o jornal tomou outra linha absolutamente diferente pela marcada até então quando,


[...] Entretanto por transação de 21 de janeiro do ano seguinte, entre os diretores os senhores Tobias Rosa e Filho e o Coronel Américo Brasileiro Fleury, passou a ser, a Gazeta de Uberaba, desse dia em diante propriedade do último. Essa transação inverteu diametralmente, os pólos de defesa política do jornal, que passou a ser agora, órgão francamente hermista politicamente redigida pelo deputado Afrânio de Mello Franco, e literariamente redigido pelo José Afonso de Azevedo, figurando, ainda, no seu corpo de colaboradores, além de outros, o Dr. José Julio de Freitas Coutinho, Juiz Municipal de Uberaba. Cessada a campanha hermista, continuou como órgão do PRM, redactoriado pelos doutores Lauro de Oliveira Borges, Alaor Prata Soares e José Julio de Freitas Coutinho. (PONTES, JORNAL CORREIO CATÓLICO, 1931. n/p).

           
            Em 1911 o Gazeta de Uberaba transformou-se em propriedade de uma associação dirigida pelos mesmos nomes ditos na citação acima, somando ao corpo de redatores Pedro de Alcântara Cavalcante de Albuquerque Paraíso, Diocleciano Vieira e Ranulpho Taveira e o secretário Quirino Pucci. No entanto, o jornal teve suas atividades interrompidas em 1912. Em novembro de 1913, o coronel Tobias Rosa, a Gazeta do Triângulo, uma associação que defendia os interesses do PRM – Democrata, mas 1915 rearticulou a volta do Gazeta de Uberaba, mas desta vez, a folha atendia aos interesses  do “Partido da Concentração Municipal de Uberaba”. Nesse contorno, o Gazeta de Uberaba funcionou até 1917, ano em que faleceu o Coronel Tobias Rosa.

            Dez anos depois em 1927, através de uma aliança encabeçada por João Henrique Vieira Sampaio da Silva, foi adquirido da família de Tobias Rosa o título e material gráfico da extinta folha, desta maneira constituiu-se a Sociedade Anônima Gazeta de Uberaba que reativou mais uma vez o jornal Gazeta de Uberaba. A presidência da sociedade era exercida por Mário de Moraes e Castro, a direção do jornal estava João Henrique e a gerência de Orlando Bruno.


Thiago Riccioppo - Mestre em História pela Universidade Federal de Uberlândia - UFU, historiador da Superintendência do Arquivo Público de Uberaba e Gerente Executivo da Fundação Museu do Zebu Edilson Lamartine Mendes.



[1] LIMA, Venício A. 200 anos de imprensa no Brasil: história de continuidades e de ruptura.Observatório da imprensa: Disponível em: http://historiaemprojetos.blogspot.com/2008/08/200-anos-de-imprensa-no-brasil-histria.html. Acesso em 05 de setembro de 2014.
[2] SODRÉ, Nelson Werneck. A história da imprensa no Brasil. (4ed). São Paulo: Mauad, 2004. Apud. LIMA, Venício A. 200 anos de imprensa no Brasil: história de continuidades e de ruptura.
[3] LIMA, Venício A. Op. Cit. Nota 1. n/p.
[4] GOMES, Laurentino. 1808. 8 ª ed. São Paulo: Planeta, 2008.
[5] LUCA, Tânia Regina. História dos, nos e por meios dos periódicos. (In): PINSKY, Carla Bassanezi. (Org.) Fontes Histórias. 2 ed. São Paulo: Contexto, 2006. p. 133.
[6] Id. Ibid. p. 133.
[7] LUSTOSA, Isabel. Insultos impressos: a guerra dos jornalistas na independência (1821-1823). São Paulo: Cia das Letras, 2000. passim.

[8] O termo províncias, que eram subdivisões do território nacional, foi adotado ainda no âmbito do Reino de Portugal, Brasil e Algarves em 28 de fevereiro de 1821 pelas Cortes Gerais e Extraordinárias da Nação Portuguesa. Este termo foi mantido durante o Império.

[9] PONTES, Hildebrando. A Imprensa de Uberaba. JORNAL CORREIO CATÓLICO, 21 de mar. 1931. nº 360. n/p. Transcrição do Original: João Eurípedes de Araújo.
[10] Id. Ibid. n/p. 
[11] Id. Ibid. n/p. nº 360.n/p.