20 de março de 2017

UBERABA – 197 ANOS


           



O Arquivo Público de Uberaba/Secretaria de Governo, em comemoração ao 197º aniversário da cidade, está compartilhando com a comunidade uberabense, algumas curiosidades relativas à vida do Major Antônio Eustáquio[1] da Silva e Oliveira, extraídos de seu inventário, sob a guarda e preservação da instituição. Depois de um estudo aprofundado feito por seus historiadores, foram identificados aspectos relevantes e curiosos do cotidiano desse personagem histórico como: herdeiros, familiares, propriedades, escravos, objetos pessoais e utensílios domésticos.
            O próprio Major foi quem redigiu e registrou o seu testamento, em março de 1827, e, entre outras determinações, declarou Vigário Silva como seu testamenteiro principal.
            Em 1832, após a sua morte, teve início o processo de inventário de seus bens, concluído em 1845.
            Segundo alguns historiadores, o Sargento Mor Antônio Eustáquio da Silva e Oliveira nasceu em 1769, chegou a Uberaba por volta de 1811/1812 e faleceu no ano de 1832.
Foi pai de dois filhos, Francisca da Silva e Oliveira e Valariano Antônio de Mascarenhas, reconhecidos nos autos de seu inventário, mas não teve filhos com sua esposa Ana Angélica de Jesus.
Antônio inicia o seu testamento, fazendo a encomenda de sua alma: (...) “a Santíssima Trindade que a criou (...) e a todos os santos e santas da corte do céu. (...) E assim (...) espero salvar a minha alma pelos merecimentos da paixão e morte de Nosso Senhor Jesus Christo” (...). Também ordenou que fossem rezadas seiscentas missas em intenção de sua alma, das pessoas com as quais fez negócios, para seus falecidos pais e pelas almas do purgatório que mais tivessem necessidade. Além disso, deixou doações em dinheiro para vinte órfãos ou filhas de família pobres e mais 50 mil réis para a construção de uma cadeia, na cidade, e libertou alguns escravos sob determinadas condições: “Deixo o meu escravo Manoel Ferreiro forro, com a obrigação de fazer de graça as obras que minha mulher precisar (...) e Manoel será obrigado a fazer todas as obras da igreja de São Sebastião, caso a farão em sua vida”. (Inventário de Major Eustáquio. p.8v.).
            Em seu inventário destacam-se:
- a Chácara Boa Vista (atual EPAMIG), onde viveu com sua esposa e recebia seus parentes, amigos e negociantes. Além da residência, na chácara, havia engenho, moinho, monjolo, curral murado de pedra, moenda para o fabrico de rapadura, aguardente, açúcar e tenda de ferreiro;
- do plantel de 31 escravos pertencentes ao Major, alguns apresentavam habilidades profissionais, como oficial de ferreiro e carpinteiro, e moravam e executavam as diversas tarefas da chácara;
- dos objetos da casa de Antônio Eustáquio e Ana, chamam a atenção: 16 catres (camas), um aparelho de café de xícaras douradas e uma grande quantidade de talheres de prata (coisa rara e cara, para a época);
- do seu guarda roupa: uma farda, dragonas douradas, coletes de seda, cetim e fustão, calças de brim e chapéus, tudo da melhor qualidade e boa parte vinda do Rio de Janeiro, capital do Brasil, naquela época;
 - dos armamentos: uma espada (fiel e bala real) e uma arma de fogo “fulminante” nova;
- dos objetos diversos: um relógio de ouro, arreios de prata, uma palmatória, uma balança de pesar ouro, além de dois livros de legislação da Independência.
            Todos seus bens foram avaliados em 31:873#000 (trinta e um contos e oitocentos e setenta e três mil réis). Uma fortuna!!
Bom, isso é só um tira gosto! O inventário traz mais uma centena de curiosidades. Para quem se interessar em saber mais ou para o professor que quiser mergulhar, com seus alunos, no fantástico universo da pesquisa (sobre o Major, ou sobre outros itens relacionados à história de nosso município), é só entrar em contato com o Arquivo Público de Uberaba pelo telefone: 3312 4315. Os historiadores João, Luís Henrique e Miguel receberão a todos muito bem e com muitas curiosidades!

Superintendência de Arquivo Público de Uberaba
Atendimento à pesquisa: de segunda a sexta, das 8h30 às 11h30 e das 13h às17h30.
Praça Dr. José Pereira Rebouças, 650 (Mogiana)
Bairro Boa Vista - CEP 38017270
Tel. (34) 3312 4315 - 333802864
emails: arquivopublico@mednet.com.br e arquivouberaba@yahoo.com.br
blog: http://arquivopublicouberaba.blogspot.com.br/





[1]                     Foi mantida a escrita registrada nos documentos.

8 de março de 2017

8 DE MARÇO: CONQUISTAS E CONTROVÉRSIAS, por Eva Alterman Blay


O Dia Internacional da Mulher foi proposto por Clara Zetkin em 1910 no II Congresso Internacional de Mulheres Socialistas. Nos anos posteriores a 1970 este Dia passou a ser associado a um incêndio que ocorreu em Nova Iorque em 1911. Neste artigo, Eva Alterman Blay procurou recuperar a história do Dia 8 de Março e as distorções que têm sido feitas sobre ele e sobre a luta feminista.


 
O incêndio da Triangle Shirtwaist em 25 de março de 1911 nos Estados Unidos é,
 muitas vezes, associado à instituição do Dia Internacional da Mulher.
Saiba mais sobre o verdadeiro motivo para a criação deste dia, acessando o artigo!

1 de março de 2017

Formação e ocupação do território: A Freguesia de Santo Antônio e São Sebastião de Uberaba

Por Thiago Riccioppo e Marcelo de Souza Silva*


Para entender a formação da Freguesia de Santo Antônio e São Sebastião de Uberaba é necessário uma breve explicação a respeito do local exato onde ela se instalou. Com a expansão das fronteiras de exploração a oeste do Desemboque, em 1806, o sertanista José Francisco de Azevedo instalou um pequeno núcleo colonial nas cabeceiras do Ribeirão do Lageado (dos Ribeiros). Este núcleo era formado por algumas dezenas de cabanas habitadas por colonizadores emigrados do Julgado de Nossa Senhora do Desterro do Desemboque. Os índios aldeanos, por sua vez, viviam às margens do córrego dos Lages, na aldeia conhecida como Uberaba Falsa.[1] O núcleo de colonizadores, que distava cerca de 15 km da aldeia, ficou conhecido como Arraial da Capelinha (ou Lageado), sendo ali instalada por invocação de Santo Antônio e São Sebastião.


                                                                                     Figura 1. Fonte:Lourenço, 2002

Segundo Fontoura, em 1809, o Sargento-mor Antônio Eustáquio da Silva Oliveira, obteve o título de Regente e Curador dos índios do Sertão da Farinha Podre. Desta feita, o dito sargento-mor Antônio Eustáquio realizou algumas explorações na região, entre os anos de 1809 e 1812, juntamente com alguns dos imigrantes geralistas,[2] os quais se estabeleceram fazendas, atraídos pelas notícias de alta fertilidade das terras. Lourenço aponta para a importância das redes de parentesco para a ocupação das terras a oeste do Desemboque. O sargento Eustáquio (ou Major Eustáquio, como ficou conhecido) recebeu seu título de curador devido a influências de seu irmão e, assim como ele, várias outras famílias, que posteriormente se configurariam como relevantes no contexto social do município de Uberaba, vieram à região.



Esses fazendeiros, muitas vezes, já traziam alguma escravaria, recebida de herança, mas a regra era que geralmente não tinha muitas posses. Por isso, desde o início, dada a dificuldade inicial de comprar escravos, esses homens se preocupavam em ocupar suas fazendas com posseiros pobres (agregados), transformados, assim, num campesinato dependente. [3]



Segundo Pontes,[4] no ano de 1806, o major Eustáquio visitou o núcleo dos sertanistas e notou a falta de recursos naturais que pudessem garantir o confortável estabelecimento e crescimento do povoado. Por isso, ele teria se voltado às terras aldeanas, na margem direita do Córrego dos Lages, e ali construiu uma fazenda.[5]  Algum tempo depois, a cerca de três quilômetros dali, ainda às margens daquele córrego, ele construiu uma residência,[6] usada como retiro, e que deu origem ao lugar conhecido por Paragem de Santo Antônio.




A partir da construção deste retiro do Major, muitos fatores levaram à migração dos moradores do Arraial da Capelinha e outras regiões para aquele lugar. Ainda de acordo com Pontes, a influência do Major Eustáquio, seu crescente poder nos negócios públicos, e a conseqüente posição social elevada, atraiu os moradores daquele povoado para junto de seu retiro. Além desse motivo, podemos destacar outros como a proteção promovida pelo Major e, acima de tudo, as melhores condições naturais existentes no local por ele estabelecido. Esse foi, pois, o núcleo que originou a cidade de Uberaba, descrito pelo viajante Auguste de Saint-Hilaire em 1819:


O arraial é composto de umas trinta casas espalhadas nas duas margens do riacho (Córrego da Lage) e todas, sem exceção, haviam sido recém construídas sendo que algumas ainda estavam inacabadas quando ali passei. Muitas delas eram espaçosas e feitas com esmero (...). Os habitantes do lugar estavam tentando conseguir com que o Governo Central elevasse o arraial a sede de paróquia.[7]





Figura 2 – “O patrimônio de uma capela se constitui por entre as sesmarias, contribui para o seu sustento, possibilita o acesso a terra.” A primeira capela de Uberaba foi erigida nas margens do Córrego Lageado [onde se estabeleceram os sertanistas que vieram com José Francisco de Azevedo] com o Orago de Santo Antônio e São Sebastião. “A Capela acolhe moradores em pequenas porções de uma gleba. Torna-se instrumento de urbanização e cria uma nova paisagem”. Por volta de 1815 a 1817, em Uberaba, a população gradativamente, transferiu-se para as proximidades do córrego da Lage, onde já havia um pequeno número de moradores, trazendo um Orago de Santo Antônio e São Sebastião para uma capela próxima. (adaptação de MARX, Murilo, Cidade no Brasil: terra de quem?, São Paulo: Edusp, 1989, realizada pelos historiadores do Arquivo Público de Uberaba. Boletim Informativo do Arquivo Público, n. 6, março de 1995, p. 4).





Figura 3 – Uberaba torna-se um próspero local. Em 1820, é elevado a Freguesia, sendo a pequena capela elevada à condição de Matriz. Em 1836, torna-se vila e ganha um rossio: uma praça onde o povo encontra-se para buscar água da fonte do indaiá, comprar e vender utensílios. E uma nova matriz está sendo construída. Nesse ínterim, “uma câmara administrará o município. Uma nova etapa de vida urbana e de ordem fundiária”. Uberaba é elevada a condição de cidade em 1856. A construção da Matriz está ganhando duas torres e a pequena capela está sendo demolida. (adaptação de MARX, Murilo, Cidade no Brasil: terra de quem?,São Paulo: Edusp, 1989, realizada pelos historiadores do Arquivo Público de Uberaba. Boletim Informativo do Arquivo Público, n. 6, março de 1995, p. 4).




Figura 4 – “Cresce a vila e se adensa, aumenta a importância dos limites de todo o tipo e se multiplicam as questões de alinhamento”. Termina a construção da Matriz, que ganha dois sinos. “Surge o loteador, o empreendedor imobiliário que retalha uma gleba, vende suas parcelas, passa igualmente a desenhar a cidade”. A Matriz é reformada, ficando somente uma torre, o novo cemitério, inaugurado em 1900, permanece até hoje. (adaptação de MARX, Murilo, Cidade no Brasil: terra de quem?,São Paulo: Edusp, 1989, realizada pelos historiadores do Arquivo Público de Uberaba. Boletim Informativo do Arquivo Público, n. 6, março de 1995, p. 4).


De forma resumida, esta representação gráfica mostra a formação urbana de Uberaba. Na primeira figura temos a instalação da primeira capela, transferida  do local onde haviam se estabelecido os sertanistas que vieram com José Francisco de Azevedo. O local preciso desta primeira capela é onde hoje está a Escola Estadual Minas Gerais, no bairro São Benedito. Vemos na segunda figura que a Capela estava no alto de um morro, com algumas casas abaixo. Atrás da capela, como era costume, havia o cemitério. A matriz, que está no mesmo local até hoje, começou a ser construída algumas centenas de metros morro abaixo, onde hoje se localiza a praça central, Rui Barbosa.



Thiago Riccioppo - Mestre em História pela Universidade Federal de Uberlândia - UFU, historiador da Superintendência do Arquivo Público de Uberaba e Gerente Executivo da Fundação Museu do Zebu Edilson Lamartine Mendes.
*Marcelo de Souza Silva - Doutor em História pela Universidade Federal do Rio de Janeiro - UFRJ e professor na Universidade Federal do Triângulo Mineiro - UFTM.




[1] Esse nome, Uberaba Falsa, deve-se ao fato de situar-se próximo ao rio que era confundido com aquele que seria o verdadeiro rio Uberaba, situado mais ao norte.
[2] Como eram conhecidos os imigrantes provenientes das zonas auríferas da província de Minas Gerais.
[3] LOURENÇO, L. A. B. A oeste das Minas: escravos, índios e homens livres numa fronteira oitocentista. Triângulo Mineiro (1750-1860). Uberlândia: EdUFU, 2003.  p. 86.
[4] PONTES, Hildebrando. História de Uberaba e a civilização do Brasil Central. Uberaba: Academia de Letras do Triângulo Mineiro, 1970.
[5] Segundo informativo do Arquivo Público de Uberaba, esta fazenda se localizava onde hoje se encontra a Fazenda Experimental da EPAMIG (Empresa de Pesquisa Agropecuária de Minas Gerais), próxima da Univerdecidade.
[6] No local hoje conhecido como Praça Rui Barbosa, centro de Uberaba, especificamente onde se encontra o Hotel Chaves.
[7] SAINT-HILAIRE, Auguste. Viagem a Província de Goiás. Belo Horizonte: Itatiaia, 1975, p. 128.

Três diferentes datas: Origens da Freguesia de São Sebastião e Santo Antônio de Uberaba (1820), da Vila de Uberaba (1836) e da cidade (1856)

* Por Thiago Riccioppo

A primeira vila fundada no Brasil foi São Vicente, em 22 de janeiro de 1532, nos primeiros tempos da colonização portuguesa, fruto da orientação da formação do malogrado sistema de capitanias hereditárias em poderes descentralizados, que buscavam garantir a posse dessas terras a leste do hemisfério sul-americano, dispostas pelo Tratado de Tordesilhas. Durante séculos, até a proclamação da República, quando eram fundadas vilas e cidades no Brasil, significava que o antigo arraial ou a freguesia adquiriria autonomia político-administrativa e, dessa maneira, assumiria um caráter da administração pública relativamente parecido ao que hoje denominamos de município. As recém-criadas Vilas eram constituídas de Câmara de Vereadores, cobravam impostos, baixavam “posturas”, nome dado às leis municipais, recebiam um “juiz de fora”, cadeia, dentre outras atribuições. Ao se fundar uma vila, os intentos da administração estatal eram estender os tentáculos do poder político-administrativo central ao âmbito regional.


Interior do cemitério  de Uberaba em 1889, atual praça Frei Eugênio. Ponto original de fundação da Freguesia de São Sebastião e Santo Antônio de Uberaba. Acervo: Superintendência do Arquivo Público de Uberaba.


Segundo fontes de testemunhos de viajantes do período joanino e inventários “post-mortem”, o pequeno aglomerado urbano que deu origem ao Arraial da Farinha Podre e a outros aglomerados protourbanos de nossa região era composto, geralmente, por pessoas pobres, excluídas da posse da terra, muitas das quais se especializavam em alguns ofícios e serviços como fiandeiras e tecedeiras, comerciantes de molhados, alfaiates, carpinteiros e jornaleiros, ou seja, homens que se empregavam temporariamente em trabalhos na roça, além de prostitutas, escravos e ex-escravos. Esses aglomerados interagiam fortemente nas necessidades dos homens do campo com os aparatos que o Estado poderia oferecer, tais como: o casamento, funerais, batizados, registros, além de significar uma zona comercial. Muitos desses aglomerados deram origens a vilas e cidades, enquanto outros permaneceram como pequenos arraiais e não se desenvolveram ou mesmo desapareceram. 


Foi assim que surgiu a Freguesia de Santo Antônio e São Sebastião de Uberaba, fundada em 02 de março de 1820, e, posteriormente, a Vila de Uberaba, em 22 de fevereiro de 1836, quando esta foi desmembrada da Vila de Araxá, criada em 1831. As relações de poderes da instituída Vila reforçaram o comando das elites políticas oligárquicas e suas respectivas famílias a se assentarem. 


Em 1856, a Vila recebe o título honorífico de Cidade. Uberaba, ao longo do século XIX, tornou-se um significativo núcleo econômico-comercial para os padrões da época, integrando uma ampla área do Brasil Central. A cidade recebeu traçados urbanos maiores, relacionados ao núcleo fundacional (atuais Praça Frei Eugênio e, posteriormente, Praça Rui Barbosa), como praças, ruas e bairros e instituições de maior complexidade, ao se criarem escolas, hospitais, sedes de jornais etc. Forjaram-se novas mentalidades, como a dos imigrantes e dos transmigrados ao povo local, formando, com o tempo, o “jeito de ser” uberabense.


Thiago Riccioppo - Mestre em História pela Universidade Federal de Uberlândia – UFU; Historiador da Superintendência do Arquivo Público de Uberaba e Gerente Executivo da Fundação Museu do Zebu Edilson Lamartine Mendes - ABCZ


Assista ao vídeo produzido pela Prefeitura de Uberaba, com  supervisão de pesquisadores da Superintendência do Arquivo Público de Uberaba sobre a formação do Triângulo Mineiro e de Uberaba:




16 de fevereiro de 2017

Arquivo Público de Uberaba Comemora o 197º Aniversário de Uberaba


O Arquivo Público de Uberaba/Secretaria de Governo já iniciou seus eventos em comemoração ao 197º aniversário de Uberaba.

Nos dias 13 e 14 os historiadores da instituição realizaram palestras sobre a história de Uberaba na Escola Estadual Felício de Paiva, atingindo 270 alunos.

Estas atividades junto as escolas continuaram até o dia 17 de fevereiro.


Constam também como parte da programação os seguintes eventos:

- Exposição de fotografias e projetos arquitetônicos de 20 de fevereiro a 03 de março das 9 às 17 horas, na sede do Arquivo Público de Uberaba, na praça da Mogiana.
- Publicação e divulgação em jornais, rádios e TV da cidade de texto inédito sobre o inventário do Major Eustáquio. Este trabalho é fruto de pesquisa dos historiadores da instituição.
- Este mesmo texto sobre o inventário do Major Antônio Eustáquio da Silva e Oliveira foi enviado para a Secretaria de Educação que será repassado para todas as escolas de ensino fundamental do município.
- O Arquivo Público também estará participando de eventos promovidos por outros órgãos da Prefeitura Municipal de Uberaba.


João Eurípedes de Araújo
Luiz Henrique Caetano Cellurale
Miguel Jacob Neto


Imagem da Praça Rui Barbosa em Uberaba em 1917. Fonte: Superintendência do Arquivo Público de Uberaba.


15 de fevereiro de 2017

Ações Educativas "Memória e Cidadania" visita Escola Estadual Felício de Paiva e leva história de Uberaba e região a 270 alunos

Cerca de 270 alunos de 12 turmas de 6º a 9º ano, do período matutino, da Escola Estadual Felício de Paiva, acompanhados de seus professores, receberam a visita da Superintendência do Arquivo Público de Uberaba por meio do Projeto Ações Educativas Itinerante – Memória e Cidadania, que tem como objetivo informar os participantes sobre a história do município e fortalecer o sentimento de identidade dos adolescentes que participam das atividades desenvolvidas pela equipe do projeto.


Para aprimorar o aprendizado em sala de aula com vivências práticas, as crianças assistiram aulas ministradas pelos professores Luzia de Fátima Rocha e Luiz Cellurale, participaram de debates e puderam ampliar os conhecimentos sobre a história de Uberaba levantada com base nos registros documentais.



Com intuito de formar cidadãos conscientes e conhecedores da história de Uberaba, o projeto Ações Educativas – Memória e Cidadania fomenta o interesse dos educandos em conhecer mais profundamente a história do município buscando como fonte de pesquisa o acervo documental da Superintendência do Arquivo Público de Uberaba. 










26 de janeiro de 2017

Razões para o desenvolvimento dos principais municípios do Triângulo Mineiro


Neste artigo, o historiador e membro da Academia de Letras do Triângulo Mineiro Antônio Pereira da Silva, reflete sobre possíveis aspectos que fizeram a hegemonia na região em diferentes momentos históricos dos principais municípios do Triângulo Mineiros.


TEORIA


           As principais cidades do Triângulo Mineiro, atualmente, são Uberlândia, Uberaba, Araguari, Ituiutaba, Frutal e Iturama. Destas cidades, três ocuparam e ocupam situação destacada no desenvolvimento econômico regional: Uberlândia, Uberaba e Araguari.

            O crescimento destas cidades está ligado ao comércio com o resto da região, mais o Sudoeste goiano e a parte Sul do antigo estado do Mato Grosso.
            A hegemonia está em Uberlândia, mas não foi sempre assim. Em primeiro lugar o domínio comercial da região foi de Uberaba, depois, por pouco tempo, foi de Araguari e só a partir dos anos 1960 passou-se para Uberlândia.

            A questão é a seguinte: Por quê Uberlândia se destacou superando até Uberaba que foi uma das maiores cidades do Brasil imperial?

            Duas cidades, de outros estados, estão envolvidas nesse processo: Itumbiara, em Goiás, e Três Lagoas, em Mato Grosso do Sul.

            A conquista das regiões citadas, fontes do enriquecimento de Uberlândia, foi possibilitada por três fatores: estrada de ferro, ponte Afonso Pena e estrada de rodagem.

            A estrada de ferro Mogiana, fez a ligação entre um dos principais centros industriais do país (São Paulo) com o Triângulo Mineiro. A ponte Afonso Pena, fez a ligação rápida entre o estado de Goiás e o Triângulo Mineiro. Fora da ponte só se atravessava o limite do estado rumo ao sul por lentas e perigosas balsas. A estrada de rodagem fez a ligação entre a ponte Afonso Pena e a estrada de ferro Mogiana.

            Uberaba era servida pela estrada de ferro e estava distante tanto quanto Uberlândia da ponte Afonso Pena. Mas não tinha estrada de rodagem ligando a cidade ao Sudoeste goiano e ao Sul de Mato Grosso. Tudo o que lhe chegava pela Mogiana, para seguir em frente, tinha que ser em carros de bois, salvo a pequena região ligada à cidade pelas estradas de Quirino Luiz. Com a chegada dos trilhos a hegemonia de Uberaba cresceu. A Mogiana, entretanto, seguiu para frente, até Araguari, passando por Uberabinha e outras pequenas estações. Com isso, Araguari tomou parte da liderança uberabense e mesmo Uberabinha também se apossou de pequena porção. Nisso, a Mogiana prejudicou Uberaba. Até 1915, Araguari dominou o comércio regional. Além disso a chegada da estrada de ferro Noroeste do Brasil ao rio Paraná e imediata passagem para Mato Grosso, chegando rapidamente à divisa com a Bolívia, arrastou quase todo o resto do comércio uberabense regional. Uberaba, conforme nos diz Guido Bilharinho, se não tivesse a pecuária teria se transformado numa corruptela. 

Antônio Pereira da Silva em ocasião de lançamento de um de seus livros. Fonte: Correio de Uberlândia.

            Araguari também sofreu as consequências negativas da estrada de ferro, apesar do estímulo chegado com a Mogiana. Araguari estava mais próximo da zona Sudeste goiana que não é grande produtora de bens primários. Mesmo depois da instalação da Goiás (estrada de ferro) as mercadorias chegadas pelas estradas de ferro seguiam em carros de bois. Araguari ficava mais distante do Sudoeste Goiano e de Mato Grosso que Uberaba e Uberlândia. A chegada da Noroeste ao solo mato-grossense em meados da segunda década do século XIX, arrancou de Araguari e de Uberaba a supremacia comercial sobre a região.

            Duas outras cidades poderiam se desenvolver explorando o comércio com o Sudoeste Goiano e Mato Grosso: Itumbiara e Três Lagoas. Itumbiara estava encostada na ponte Afonso Pena e era uma das pontas da estrada de rodagem. Mas não era servida pela estrada de ferro. As mercadorias vindas de São Paulo e Rio, destinadas ao centro do país, já saiam da Mogiana com destino certo. Só passavam por Itumbiara. O mesmo acontecia com 70% da produção primária do Sudoeste goiano. Só passavam por Itumbiara. Certamente alguma coisa de bom aconteceu para Itumbiara tanto que é uma das maiores cidades goianas. Mas não teve o desenvolvimento que teve Uberlândia.

            Três Lagoas tinha estrada de ferro, mas não tinha rodovias.  Enquanto as rodovias tributárias da uberabinhense não chegaram a Mato Grosso, Três Lagoas comandou o comércio na região e no Sudoeste Goiano. Uberlândia acabou ganhando parte do comércio mato-grossense e quase tudo no Sudoeste, mercê dessas rodovias e do trabalho heroico dos seus motoristas. (Preciso pesquisar mais esta questão de estradas de rodagem de Três Lagoas).

            Enquanto Araguari, Uberaba, Itumbiara e Três Lagoas, possuíam um ou dois dos pilares fundamentais no desenvolvimento econômico regional (ponte, rodovia, ferrovia), Uberabinha possuía as três e ainda ganhou a extensão de suas estradas, através de outros empresários posteriores a Fernando Vilela, aos mais profundos sertões goiano e mato-grossense. Nossa estrada parou na ponte, mas empresários de Itumbiara jogaram extensões para a direita (sudeste), esquerda (sudoeste) e centro. Outros empresários empurraram essa estrada para os fundos de Mato Grosso. Para chegar à Mogiana todas estas pontas de estradas tinham que passar pela ponte Afonso Pena, pela estrada do Fernando Vilela e parar em Uberabinha para embarque na Mogiana. O mesmo acontecia, em ordem inversa, com os produtos acabados vindos das indústrias do Sul.

            Essa parada em Uberabinha estimulou a criação de armazéns de consignação, em que as mercadorias ficavam estocadas até seguirem para seus destinos, via caminhões ou carros de bois (que não despareceram de pronto). Muitas mercadorias goianas eram adquiridas pelos comerciantes de Uberabinha (por escambo) que as revendiam a compradores das indústrias paulistas e cariocas. Por outro lado, a maioria dos compradores preferiam comprar dos atacadistas daqui que aceitavam o pagamento em matérias primas (fumo, toucinho, borracha, sementes etc). Só quem tinha muito dinheiro comprava diretamente de São Paulo. Isso estimulou o desenvolvimento do comércio atacado.

            Parece que um aspecto ainda pouco explorado pelos pesquisadores e que se revela importantíssimo é a parada das mercadorias em Uberabinha, tanto as vindas do profundo Brasil Central quanto as paulistas. Elejo, pois, um quarto item que favoreceu o desenvolvimento de Uberlândia: a parada das mercadorias para a intermediação dos nossos comerciantes.

            Mas o desenvolvimento de Uberabinha, que vai se firmar como o primeiro na região só a partir dos anos 1960, chegou devagar.

           
 Os passos foram os seguintes:
  •             Instalação da Mogiana
  •             Construção da Ponte Afonso Pena
  •             Construção da rodovia do Fernando Vilela
  •             Construção da rodovia da Sul Goiana (Itumbiara/Rio Verde) e outras
  •            Construção de rodovias para Mato Groso a partir das pontas de estradas goianas.

  •             Desenvolvimento do transporte rodoviários com seus motoristas heroicos.
  •             Construção do primeiro trecho de asfalto no Triângulo (Uberlândia/Monte Alegre)
  •             Construção de Brasília.



23 de janeiro de 2017

Debate sobre cinema: Obra e produto, por Guido Bilharinho

Os filmes classificam-se em obras e produtos, conforme sua concepção, elaboração e finalidade, em que os dois primeiros elementos subordinam-se ao último.

Se a finalidade é comercial tem-se produto, que se destina apenas a faturar e gerar lucro. Nesse caso, é adredemente planejado para atingir as mais largas camadas do público, pressupondo pesquisa, estudo e conhecimentos mercadológicos, sem os quais o empreendimento sujeita-se ao fracasso.

À semelhança dos demais artefatos desovados pela indústria, os filmes dessa espécie procuram atender necessidade específica. No caso, de diversão, passatempo e particularidades e exigências emocionais e psicológicas.
Em decorrência de sondagem de mercado, a indústria cientificas e das características do público, seus gostos, inclinações, limitações, idiossincrasias e tendências, procurando, com maior ou menor competência, fornecer-lhe o produto desejado.

Para isso, estabelece as médias estatísticas necessárias e o consequente e adequado formulário de ingredientes e insumos, constantemente checado, reciclado e renovado para acompanhar paripassu as alterações de humor e interesses dos espectadores, que, por sua vez, também se deixam influenciar por essa produção, submetendo-se a ela de bom grado, passiva e acarneiradamente.

Assim, pululam, na técnica, os efeitos especiais; na temática, violência, sexo e particularidades ficcionais; na linguagem cinematográfica, o convencionalismo, a linearidade ou superficialidade e toda linhagem de macetes pré-estabelecidos em consonância com as indicações obtidas.

Nessa conjuntura, o diretor e a equipe não ultrapassam o nível técnico-profissional, no qual se dirige filme como se guia veículo ou se pilota avião. Nada, pois, de pessoal, próprio, criativo, apenas restrito ao conhecimento indispensável à utilização e funcionamento da parafernália técnica respectiva.


Quando o propósito é artístico e cultural, ocorre total inversão das e nas disposições e posições acima relacionadas, conquanto também seja imprescindível conhecer e dominar os meios técnicos necessários à filmagem.


O filme, nessa hipótese, perfaz não mero objeto descartável, mas, obra autoral, aliando inventividade ou pelo menos perícia formal e substância temática, que, por força de série de circunstâncias, pode até não configurar arte ou pelo menos não atingir seus maiores patamares, por dependentes de aptidão, talento, esforço, informação e consciência artística, além de persistente e exaustiva elaboração.


Nesse caso, a temática e seu conteúdo não visam agradar ao público, mas, ao contrário, externar estética e criticamente visão pessoal do mundo, pressupondo criatividade e elaboração formal, análise e questionamento dos fundamentos e organização da sociedade e do comportamento coletivo e individual dos seres humanos.


O produto procura manipular o sentimento e a emoção. A obra destina-se à inteligência e à sensibilidade.


(do livro inédito Ficção e Cinema)
______________
Guido Bilharinho é advogado atuante em Uberaba, editor da revista internacional de poesia Dimensão de 1980 a 2000 e autor de livros de Literatura (poesia, ficção e crítica literária), Cinema


12 de dezembro de 2016

AS QUATRO PARTES DO FILME - Crítica de Cinema


Obra de Hildebrando de Melo


Por Guido Bilharinho*

A semelhança de um fruto, por exemplo, o filme apresenta, num certo sentido, quatro partes principais: envoltório ou casca, membrana ou película, polpa ou matéria e, finalmente, o núcleo (conteúdo e forma).

No caso, o envoltório ou casca consiste na infra-estrutura de produção convocada e posta a serviço de sua realização, permitindo ao diretor a organização e condução da narrativa,
fornecendo-lhe meios e modos para que seja efetivada e transmitida com a
maior perfeição possível.

A membrana ou película (significando a fina pele que entremeia a casca e a polpa, mantendo-as unidas), prefigura-se na competência técnica do diretor e demais membros da equipe.

A polpa ou matéria compreende a estória, os fatos e a ação. À primeira vista, segundo o entendimento corrente, seria o fator principal de qualquer obra de ficção.

No entanto, simples envoltório, apenas representa, como no símile natural, elemento que compõe o filme, independentemente da casca e até da película, solidificando e mantendo a polpa agregada.

A casca, não obstante sua função, pode estar solta e ser até extraída ou retirada que o fruto permanece unificado, íntegro.

Já, a precariedade da membrana ou película acarreta automática atrofia do núcleo.  Quer isso dizer que tanto a competência e a técnica quanto a ação e os fatos, por melhores sejam, ainda não configuram a obra ou filme, mas, suas partes externas, com funções específicas e relativa importância.

O que se deve considerar, segundo Hegel, não é a estória, mas, o aqui denominado núcleo (concepção e expressão), ou seja, seu sentido, significado e elaboração formal, sintetizando continente e conteúdo internos.

O que distingue filme comercial de filme de arte é apenas sua quarta parte. As demais, por alheias ao específico artístico, não têm o condão de diferençar, qualificar ou desqualificar
a realização, atribuindo-lhe essa ou aquela categoria.

Em consequência, pode-se ter filme competente e seguramente dirigido, tecnicamente perfeito, contando com entrecho repleto de peripécias, intrigas, ação, lances dramáticos ou fulminantes, hábil e coerentemente narrados, trançados ou entrançados, mas que não seja arte, não atingindo o grau, o nível e as condições próprias, necessárias e indispensáveis a essa condição. Ou seja, seu conteúdo é vazio de sentido, de verdade humana e carente de sutileza, perspicácia e tratamento sofisticado. Ao contrário, pois, da percepção corrente, na hipótese quatripartite considerada, o núcleo perfaz todo o complexo autoral e unitário que engloba desde o entendimento do mundo até a maneira (ou forma) de conduzir o drama humano enfocado e de utilizar a linguagem cinematográfica.

Constitui, pois, concepção unitária e ao mesmo tempo abrangente do que seja (ou deva ser entendido) como núcleo ou cerne de qualquer obra ficcional, independentemente da arte em que se manifeste, seja literatura (que inclui o texto teatral), seja cinema.

Esse entendimento do fenômeno ou prática ficcional faculta sua compreensão, análise e avaliação, classificando- o ou desclassificando-o sob o ponto de vista artístico. Mesmo que se não o faça de imediato, consciente e eficazmente (por meio da crítica), o passar dos seres humanos pelo tempo encarrega-se de separar uns e outros ou uns dos outros, relegando ao oblívio os que não atingiram o status artístico, condenando-os ao desaparecimento.


(do livro inédito Ficção e Cinema)
Artigo publicado no periódico "Cultura: Jornal Angolano de Artes e Letras". Ed. 5 a 18 de Dezembro de 2016 | Nº 123 | Ano V • Diretor: José Luís Mendonça
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Guido Bilharinho é advogado atuante em Uberaba/Brasil, editor da revista internacional de poesia Dimensão de 1980 a 2000 e autor de livros de Literatura (poesia, ficção e crítica literária), Cinema (história e crítica), História (do Brasil e regional).