19 de abril de 2017

OS Tiradentes de Uberaba: familiares do mártir que viveram por aqui


João Eurípedes de Araújo                                                              
Luiz Henrique Cellurale
Luzia de Fátima Rocha 
Miguel Jacob Neto     
                                                                                                                                                  



            O memorialista e Agente Executivo de Uberaba Antônio Borges Sampaio, que chegou na cidade  em 16 de setembro de 1847, publicou artigo no jornal Lavoura e Comércio do dia 21 de abril de 1904 onde refez a trajetória da família de Tiradentes em Uberaba, baseado em informações que lhes foram passadas por um de seus descendentes, Carolina Tiradentes.

            De acordo com ele, o ramo da família Tiradentes em Uberaba começou com a chegada de parentes de Joaquim José da Silva Xavier, que se transferiram para Dores do Indaiá, Uberaba, Sacramento e Goiás, tendo deixado uma infinidade de filhos, netos, bisnetos e tataranetos. Segundo o trabalho de Sampaio, Joaquim José da Silva Xavier (Tiradentes) teria conhecido Eugênia com quem teve um filho: João de Almeida Beltrão. Beltrão casou-se com Maria Francisca da Silva, com quem teve 8 filhos. Depois da morte de Beltrão, Maria se transferiu para Uberaba juntamente com os seus filhos.

            A afirmação de Sampaio coincide com a do historiador Márcio Jardim em sua publicação no site do Wikipédia em que afirma:

Sem registros comprovados por documentação, Tiradentes teria tido com Eugênia Joaquina da Silva dois filhos, uma Joaquina que logo morreu e João de Almeida Beltrão, que teve oito filhos. (https://pt.wikipedia.org/wiki/Tiradentes, acessado em 19 de abril de 2017)

As afirmações de Sampaio e de Jardim conferem com as do historiador Jair de Almeida Gomes, que por meio de seus estudos sobre a vida de Tiradentes afirma o seguinte:

Tiradentes nunca se casou. Continuava só, porém duas outras mulheres haviam passado em sua vida; ambas de nobre condição social. A primeira, uma mulata, Eugênia Joaquina da Silva, de quem Tiradentes teve um filho de nome João. A outra uma viúva, Antônia Maria do Espírito Santo, vivia nos arredores de Vila Rica (atual Ouro Preto), e também lhe deu uma criança, uma menina de nome Joaquina.(http://www.pael.com.br/tiradentes.html, acessado em 19 de abril de 2017)

           
            Depois do julgamento e da morte de Tiradentes, no movimento da Inconfidência Mineira, partes de seu corpo foram expostas nas principais ruas da cidade de Vila Rica (atual Ouro Preto) para servir de exemplo e inibir outros movimentos revolucionários. Em seguida, sua casa foi demolida e sal grosso foi jogado no quintal, para que nenhuma "erva daninha ali germinasse".

            Depois disso, os familiares de Tiradentes também deixaram Vila Rica e se transferiram para a região do Triângulo Mineiro, na Vila dos Quartéis, atual Dores do Indaiá. Segundo informações de D. Carolina, Tiradentes procurou por todos os meios ocultar da justiça a vida de seu filho João, temendo perseguição. Por isso, ele confiou a guarda do menino a Joaquim de Almeida Beltrão. Contudo, devido aos mau tratos visíveis nos braços e nas pernas de João, sua mãe requisitou a guarda da criança, mas não pôde denunciar o agressor temendo represálias por ser filho de Tiradentes. Ela se transferiu para a casa de Eugênia dois anos depois da execução de Tiradentes. 

Eugênia mandou ensinar seu filho a ler e também o ofício de ourives, sem que alguma coisa transpirasse a respeito da sua paternidade, devido ao cuidado nisso empregado, posto que em Vila Rica houvesse espionagem ativa para saber-se o que sobre Tiradentes se dissesse em família e se denunciado.(SAMPAIO. p. 328)

            Segundo alguns estudiosos do Triângulo Mineiro, essa região servia de refúgio para muitos forasteiros que fugiam do pagamento de impostos - o quinto- e da derrama.  Abrigava também pessoas que cometiam delitos como homicídio e roubo, além dos que sofriam perseguições políticas.
            É provável que os descendentes de Tiradentes tentavam fugir da perseguição política imposta pelo governo português, considerando que os motivos que levaram  Tiradentes ao enforcamento em 1789 ainda os estavam aterrorizando e que, provavelmente, teriam vindo para a região do Triângulo Mineiro e Goiás no final do século XVIII e início do século XIX, num período muito próximo à execução de Tiradentes e anterior à Independência do Brasil.



             Segundo Sampaio, com a morte do filho de Tiradentes, João, em Dores do Indaiá, já no Triângulo Mineiro, a viúva Maria Francisca da Silva resolveu se transferir para Uberaba juntamente com os seus filhos. Assim, de acordo com a genealogia feita por Sampaio, a chegada da família em Uberaba teria ocorrido da seguinte maneira:


            Ressalta-se uma curiosidade na busca de seus familiares uberabenses. Apesar de muitos descendentes nascidos em Uberaba manterem o sobrenome Tiradentes, esse nome não passava de um apelido para Joaquim José da Silva Xavier. Somente na 5º geração de seus descendentes esse alcunha se transformou em sobrenome, como forma de homenagear o personagem histórico que se tornou herói, depois de ter sido morto como vilão. O nome oscilou de acordo com os sabores do sistema político reinante.

            Carolina Tiradentes prestou informações a Sampaio. Ela teve duas filhas: Galvina, casada com Bernardino, e Carlota, casada com Felicíssimo Vieira da Silva. Até o ano de 1904, de acordo com Sampaio, pelo menos 15 descendentes desse ramo eram uberabenses. Sampaio e Carolina eram vizinhos desde o ano de 1848. Por isso, descreveu algumas peculiaridades da neta de Tiradentes:

Quando moça era de estatura alta, direita, harmonicamente conformada, tez clara e rosada; os traços de seu rosto comprido denunciavam os do proto-martir avô; que com a idade, haviam se tornado ainda mais salientes. Ela gozou muita simpatia e estima de pessoas as mais distintas da nossa sociedade, não constando que tivesse ou deixasse algum desafeto. Muitas pessoas que vinham a Uberaba não se retiravam sem visitar D. Carolina. (SAMPAIO. p. 323)

Em Uberaba, Carolina também recordava os passos de sua mãe e o medo da perseguição que envolvia toda a família:

Suas lembranças remontam a sua mãe Eugênia, que parecia limitada a reviver os tristes transe por que tinha passado Tiradentes. Seus últimos anos passou-os em choro contínuo, chorava todo o dia por não ver o pai do seu filho, a cuja memória dedicava amor extremo. Derramava lágrimas quando ouvia falar em Tiradentes. Tudo concorria para recordar-se dos martírios por que Tiradentes havia passado. Estado angustioso este em que continuou mesmo depois de ter sido declarada a Independência, não se podendo capacitar da cessação do perigo para o seu filho João, antes pensava que o anátema infamante posto na sentença que mandara executar Tiradentes vigorava contra João Beltrão. Tudo quanto possuíam que pudesse comprometer o menino João, relativamente a sua paternidade foi queimado, inclusive os bilhetes de Tiradentes a Eugenia, bem como os escritos que estavam em poder dela. (SAMPAIO. p.329)

Carolina Augusta Cesarina - neta de Tiradentes

             O jornal LAVOURA E COMMERCIO do dia 21 de abril de 1904 e de 1924 expõem, na íntegra, os nomes e até as idades de filhos, netos e tataranetos de Galvina e Carlota nascidos na cidade de Uberaba.




Consultas realizadas: 

  • SAMPAIO, Borges;  Uberaba: História, Fatos e Homens; Volume 1; Editora da Academia de Letras do Triângulo Mineiro; 1971; Uberaba
  • Jornal Lavoura e Comércio, 1904 e 1924
  • https://pt.wikipedia.org/wiki/Tiradentes, acessado em 19 de abril de 2017
  • http://www.pael.com.br/tiradentes.html, acessado em 19 de abril de 2917

17 de abril de 2017

"Comércio Infame". Crítica de Orlando Ferreira - "Doca", sobre o consumo de cocaína e morfina em Uberaba na década de 1920

Resenha introdutória: Thiago Riccioppo 

Orlando Ferreira, o “Doca”, como ficou conhecido - foi um dos personagens mais emblemáticos de Uberaba. De tão polêmico, permanece vivo no imaginário político e social local.

Eclético, era admirador de espiritismo kardecista, ao mesmo tempo em que comparava o marxismo a uma espécie de “comunismo cristão”, que denominava de “comunismo deísta”. Doca foi crítico agressivo da ordem vigente – contestava em suas obras que circularam entre 1912 à década de 1950, o fato do Triângulo Mineiro pertencer a Minas e não a São Paulo. Atacava as oligarquias, as práticas esportivas, especialmente o futebol, a Igreja Católica e a administração pública. Pessoa de raros amigos, não lhe faltou desafetos, pois pouquíssimos passavam incólumes aos seus ataques a sociedade de Uberaba.

Nessas "idas e vindas", Doca fez uma interessante análise no livro “Terra Madrasta: um povo infeliz” sobre o consumo de drogas e a criminalidade em Uberaba nos anos de 1920. Lançando mão de uma publicação de 16 de outubro de 1924, realizada no jornal Lavoura e Comércio, queixava-se do uso indiscriminado de cocaína e morfina, uma vez que estes entorpecentes faziam vítimas, principalmente mulheres, na dependência de vícios, sujeitas ao controle de aliciadores nos prostíbulos da cidade. 
Orlando Ferreira, o "Doca" foi o autor do livro "Terra Madrasta - Um povo infeliz e de outros polêmicos trabalhos sobre a sociedade uberabense. Fonte: APU


Segundo Débora de Souza Silva, a (...) “ideia de que o consumo de drogas é um fenômeno recente demonstra ser um equívoco. Sua presença revelou-se de múltiplas formas em diferentes sociedades ao longo da história do homem”.

Toscano Jr. (2001), compreende que ao longo dos tempos, o uso das drogas está associado não apenas “(..) a medicina e a ciência, mas também a magia, religião, cultura, festa e deleite”. Na perspectiva de Velho (1997, apud Silva), assim “a relação das sociedades humanas com estas substâncias expressa por um lado, uma relação com a natureza e por outro, um processo singular de construção social da realidade. E nenhum grupo social deixou de registrar algum reconhecimento de alterações significativas de percepção e relação com o mundo a sua volta, ainda que por razões variadas”.


Deve-se considerar também que, no final do século XIX e início do século XX, inúmeras drogas que hoje são ilícitas eram reconhecidas pelo uso farmacológico. No Brasil, a Lei nº 4.294 de 14 de julho de 1921, é identificada pela historiografia como a primeira lei de tóxicos do país, consagrando o pressuposto que somente a prescrição médica legitimaria o uso de substâncias vistas como entorpecentes. Contudo, a lei de 1921 estava mais focada na questão do consumo de álcool aos espaços públicos. A vigilância policial não era suficiente para controlar de forma efetiva a venda de entorpecentes em farmácias.


No caso da crítica de Orlando Ferreira, elaborada neste contexto dos anos de 1920, o uso de indiscriminado de cocaína e morfina em Uberaba era recorrente e especialmente agravante entre grupos que estavam à margem daquela sociedade, no caso as prostitutas. Dá-nos uma dimensão de como estes entorpecentes estavam se tornando o um problema social, mesmo que este fenômeno não confrontasse aos interesses daquela sociedade frente a determinados grupos de excluídos.


Leia abaixo, a íntegra das palavras incisivas de Orlando Ferreira que expõem as entranhas do submundo uberabense na década de 1920.

Capa do livro "Terra Madrasta - Um povo Infeliz de Orlando Ferreira. Fonte: APU

Comércio Infame,
por Orlando Ferreira - Doca

As autoridades locais não ligam a menor a importância à saúde pública e permitem criminosamente que pessoas sem alma e sem pudor espalhem a morte por toda parte com a rendosíssima venda de morfina, cocaína, etc. Os chamados vícios elegantes – a toxicomania – numa efervescência incrível, propagaram-se assustadoramente em Uberaba e exercem o seu império absoluto sobre um bando de criaturas infelizes, de uma existência miserável, sem que pessoa alguma venha em auxilio desses seres desgraçados que, com a vida degradante que arrastam, são inúteis para si, para a sua família e para a sociedade. Eu já denunciei publicamente, pela imprensa, um despudorado médico desta cidade, o qual, de longa data, vem exercendo o indecoroso comércio de morfina e cocaína e tem feito inúmeras vítimas. Há muitos outros “vendedores da morte” cujos nomes a polícia conhece, mas polícia hoje em dia só se preocupa seriamente com as perseguições pessoais e com as seções eleitorais; não lhe sobra tempo para mais nada... Por isso o comércio infame continua ativíssimo, sem pagar imposto. E as autoridades locais não dão sinal de si e consentem mesmo que se pratiquem os maiores abusos nesta infeliz terra, sem incomodar nunca esses bandidos que, livremente, às escancaras, exercem uma profissão indecorosíssima e prejudicialíssima à sociedade.

O médico que eu denunciei publicamente não se defendeu, não foi procurado pela polícia, é do tipo mais asqueroso e imundo que vivem em Uberaba: ébrio habitual, cocainomaniaco, sem clínica, atrasadíssimo, mantem um rendez-vous numa rua central, onde explora o comércio infame, onde recebe meretrizes que ali iniciam e satisfazem o vício terrível da toxicomania e, colossalmente desbriando, conduz no bolso uma boceta de rapé, misturado com cocaína, que ele infamemente oferece as pessoas que procuram, as quais, desta forma, ficam iniciadas e sentem os primeiro feitos da tentadora substância. Este bandido, este tipo desprezível e nojento, nunca foi incomodado pela polícia. Pelo contrário, ele vive solto e até insulta as autoridades. Quando alguma autoridade “atrevida” tem a ousadia de processar alguns desses “vendedores da morte” – como aconteceu com o farmacêutico A. O., desta cidade, contra o qual chegou a ser lavrado o auto de flagrante – observa-se imediatamente uma agitação nos arraiais políticos e esses famigerados, malditos e nojentos paredros de bobagem, quais meretrizes devassas, saem a campo para devolver a sua prostituição moral, e, com a maior facilidade, conseguem realizar os seus criminosos intuitos, impedindo a benéfica e saneadora ação policial. Infames e degenerados “políticos”! Devido, portanto, a devassidão política neste fato gravíssimo que eu acabo de apontar, tem-se a lamentar mais um doloroso caso de autoridade exautorada e outro lado de perigosa e desastrada impunidade, isto é, de um lado, vemos hoje um delegado de polícia que queria cumprir o seu dever, sem fé, sem coragem, sem estímulo, e de outro lado, um moço a rir das leitas, a debochar de tudo, e ainda mais encorajado a continuar no comércio infame e a fazer novas vitimas! Está garantido pela lei! Irrisório! Simplesmente irrisório! Há um outro médico aqui, muito religioso, o qual, para os casos sérios de doença, que requerem acurado estudo, trabalho honesto, diagnóstico seguro e inteligente, só encontra uma solução: injeção de morfina! Há várias pessoas que, devido ao procedimento criminoso desse médico sem alma e sem pudor; estão hoje quase perdidas, viciadas no uso terrível dessas substâncias venenosas! Infeliz daquele que cair nas suas garras! É um monstro! Entre as suas vitimas, posso citar o Sr. J. C., residente em Conceição das Alagoas, município de Uberaba, e M.T.A, residente em Goiás.

Há um outro monstro nesta cidade, muito beato, filiado a várias irmandades, passador de nota falsa, que manda vir continuamente grandes quantidades de substâncias tóxicas, que ele vende infamemente a torto e a direito, a varejo e a atacado, auferindo grandes lucros! Ente asqueroso bandido, que devia estar presentemente entre as grades de uma prisão, vive solto e até gosta de pregar moral pelas colunas de um jornaleco de ideias retrógadas e obscurantistas!... Há nesta cidade um outro farmacêutico, tipo desprezível, amarelo, viciado em morfina, o qual, de acordo com o seu sócio, teve a coragem e  infâmia de vender a um tipo também desprezível e muito conhecido no comércio condenado, 100 vidros de cocaína só de uma vez!!!... Quando o referido farmacêutico consultou o seu sócio se podia vender, este farmacêutico  respondeu:

- Ora, todos vendem! Soube disso pelo farmacêutico A. D. que presenciou o fato. Atualmente, é isso uma das melhores especulações em Uberaba, onde abundam por toda parte os depósitos de venenos e pululam os vendedores. Nenhuma autoridade aqui exerce vigilância sobre as farmácias e casas comerciais a fim de impedir a venda de substâncias tóxicas.

A liberdade é absoluta e todos os canalhas podem explorar a fraqueza humana, com o consentimento das autoridades uberabenses!... Em quase todos os inúmeros e incontáveis bordéis da cidade, as meretrizes fazem desbragadamente uso de venenos e compram por preços elevadíssimos, a 20$000 e até a 50$000 a grama, vidros de cocaína das donas desses antros de perversão, vidros estes obtidos nas farmácias a razão de 3$ cada um! Uma dessas cafetinas, Ritinha do Padre, devido a numerosas queixas, chegou a ser processada, mas, muito protegida, continua livre com seu rendoso comércio!...

Sobre a epígrafe “Venda de tóxicos”, o órgão oficial saiu da sua doce comodidade, de seu esplendido modus vivendi que absolutamente não o deixa ser “palmatória de mundo”..., e teve o incomodo (coitadinho!) de publicar o seguinte:

“Está assumindo um aspecto muito grave a venda de tóxicos, cocaína principalmente, nas casas públicas noturnas da cidade, e mesmo por toda a parte, a qualquer hora, nas barbas de quem quer que seja. As vítimas dessa exploração são principalmente as decaídas. Os vendedores da morte agem despudoradamente, certos de não serem incomodados”. (Lavoura e Comércio, n. 2751, de 16/10/1924)

Trecho do Jornal Lavoura e Comércio do qual Orlando Ferreira comenta “Venda de Tóxicos”. (Lavoura e Comércio, n. 2751, de 16/10/1924). 

Fonte: FERREIRA, O. Terra Madrasta: um povo infeliz. Uberaba: O Triângulo, 1928.  p. 64 -65.
Resenha introdutória: Thiago Riccioppo 

13 de abril de 2017

Páscoa em Uberaba

Luiz Cellurale
Miguel Jacob Neto


            Em todo ano a data do Carnaval é alterada, assim como as datas da Semana Santa, de Corpus Christi e de outras festividades religiosas. A Páscoa é a festa central das igrejas, tanto judaicas, quanto cristãs.

            Páscoa tem origem etimológica na palavra hebraica "pasach", que significa passagem, em uma referência ao episódio bíblico e histórico da libertação dos hebreus, da escravidão no Egito, quando a opressão em que viviam deu lugar à liberdade. Os cristãos se apropriaram da festa judaica para a celebração da ressurreição de Cristo, e a representaram como passagem da morte para a vida eterna. É sempre comemorada pelos judeus na primeira lua cheia do mês de Nissan (nome dado ao primeiro mês do calendário judaico religioso – sétimo mês do calendário civil).

            O calendário gregoriano (nosso calendário atual) é baseado no sistema solar. As Igrejas cristãs adotaram o domingo seguinte ao da Páscoa judaica como o da celebração da Ressurreição de Jesus. Desta forma, para nós que vivemos no hemisfério Sul, o domingo de Páscoa é, portanto, aquele que se segue à primeira lua cheia do outono. O domingo de Carnaval é sempre o sétimo antes da Páscoa cristã. A quinta-feira de Corpus Christi é sempre a primeira depois do domingo da Santíssima Trindade, comemorado 57 dias depois da Páscoa. Assim, o domingo da Páscoa é a data de referência das demais festas litúrgicas chamadas móveis, pois há as que não se alteram, como o Natal, comemorado invariavelmente no dia 25 de dezembro. 

            Em Uberaba, desde o surgimento da cidade, há 197 anos, se comemora o ritual da Páscoa. Como em todas as cidades do mundo, aqui também se verifica a diversidade e o sincretismo de culto religioso, com predominância para o cristianismo. No entanto, notícias de jornais dão conta da importância das comemorações desta data, tendo em vista a participação da população no drama religioso da paixão e morte de Cristo.

            Até hoje, todos os dias da semana que antecediam a Páscoa são celebrados solenemente, com participação popular em procissões e em práticas rituais em recintos religiosos. Por isso esse período ficou conhecido como Semana Santa.

            O primeiro domingo de ramos relembra a entrada de Cristo na cidade santa de Jerusalém, quando foi aclamado pelo povo naquela época. Em Uberaba este ritual se repete anualmente onde os próprios fiéis carregam os ramos numa procissão que culmina na Igreja.

            Na segunda-feira ocorre a procissão do encontro. Comumente as mulheres carregam pelas ruas da cidade o andor de Nossa Senhora das Dores e os homens, a imagem de Cristo morto. Em determinado momento acontece o encontro das duas imagens.

            Um dos exemplos mais significativos da devoção popular no passado ocorreu no ano de 1904, quando a imagem de Nossa Senhora das Dores foi recebida na Estação da Mogiana, vinda de Igarapava, e percorreu a rua Barão de Ataliba (atual Artur Machado), seguida por uma multidão de fiéis para a procissão do encontro, quando as imagens  de Nossa Senhora e a de Cristo se cruzaram ao som do cântico de Verônica[1].


Procissão do Encontro - 1904

Na quinta-feira santa há a instituição da Eucaristia. Momento sagrada no qual se procede a releitura do trecho bíblico no qual Cristo, reunido com seus discípulos, consciente de que seu futuro estava decretado, garantiu a sua permanência junto a humanidade sob a forma da partilha do pão e do vinho, que se transformariam no seu próprio corpo e sangue. Para isso, Jesus tomando o pão disse: " tomai e comei, isto é o meu corpo que será entregue por vós e tomai e bebei, este é o cálice de meu sangue, o sangue da nova aliança, que será derramado por vós e por todos, para remissão dos pecados"!

            Os momentos mais acentuados na Sexta-feira da Paixão, acontecem às 15h, em todas as Igrejas do mundo, quando os católicos celebram a morte de Cristo. Em canto fúnebre, o sacerdote mostra à comunidade Cristo morto na cruz enquanto entoa o seguinte cântico: "eis o lenho da cruz no qual pendeu o Salvador do mundo".

            No sábado, a vigília pascal marca o reencontro com a divindade ressuscitada. A Páscoa é o momento mais importante de toda a semana e significa a realização plena da existência humana. Por isso, é uma celebração muito concorrida. Na foto abaixo observa-se o grande agrupamento de pessoas em frente à Catedral, que se tornou pequena para o número de participantes, no ano de 1938.
Missa da Páscoa em 1938

 Abaixo seguem algumas notícias de jornais que demonstravam a importância desse acontecimento religioso.













[1] Verônica é um personagem bíblico que limpou com um lenço a face Cristo enquanto ele se encaminhava ao Gólgota para ser crucificado. Em seguida, notou que os contornos de seu rosto ficaram marcados no lenço devido à quantidade de sangue que escorria de seu rosto. Quando ela o abriu para mostrar à multidão entoou um canto que é repetido todos os anos durante a procissão do enterro:
O vos omnes qui transitis per viam, attendite, et videte si est dolor similis sicut dolor meus. Attendite, inversi populi et videte dolorem meum.
Tradução: Oh vós homens que passais pela via, vinde e vede se há dor semelhante à minha.Atentai povos do mundo e vede a minha dor.


29 de março de 2017

Resenha do livro Gritos na Escuridão, por Adércio Simões Franco


Gritos na Escuridão registra uma simbiose entre realidade e ficção, o que resulta em excelente romance, quer pela abordagem da realidade histórica, quer pela sua elaboração ficcional.

Trata-se, este romance, de um crime bárbaro, de uma brutalidade chocante, que abalou a sociedade, levando-a quase, ao linchamento dos criminosos, não fosse o cuidado de os transferir para a prisão de Uberaba.

A cidade do crime ganhou nome fictício, Volta Grande, bem como, naturalmente, os nomes de seus personagens.


O autor, Paulo Fernando Silveira, acadêmico da Academia de Letras do Triângulo Mineiro, de Uberaba, é escritor, advogado, professor universitário, juiz federal aposentado e vasto curriculum-vitae na área jurídica no Brasil e no exterior.


Com esta experiência, na qualidade de escritor, caminhou da realidade à ficção, relatando com perspicácia, o crime ocorrido.

Esta ficção, nasce de uma realidade, conforme explica, pelo acesso que teve a jornais da época dos eventos e que se encontram no Arquivo Público de Uberaba, além de documentos que lhe foram confiados por seu amigo e colega de faculdade. Contou ainda com testemunhos de quem participou dos fatos ou deles tiveram conhecimento.

A geografia de Minas, São Paulo, Goiás, Distrito Federal, está presente em vasto espaço, com registros de acidentes geográficos, ruas e até bairros de cidades.

Enquanto isto, o autor vai situando os personagens e sua visão do mundo.

Adroaldo, apelido de Jacu, era fugitivo de Almenara, vivia em meio promíscuo, onde as brigas irrompiam com bastante constância. Fazia parte do contexto social. Homem de fato, tinha de beber muito e bater em alguém para mostrar a sua superior masculinidade. (p.13)
(Frutal) sofria a influência dos paulistas, tendo como referência a cidade de São José do Rio Preto. ( p.167)

Nesta outra sequência, realidade e ação mostram a esperteza do personagem.
Só para se certificar, Moreno indagou: - O volks está aqui ou em Volta Grande? Eles já estavam adentrando em Uberaba.

-Eu o deixei aqui, na casa de um primo meu. Depois é que peguei o ônibus para Rio Preto para encontrar com você. (...) Depois que o comparsa partiu, no seu Opala, ele pegou um taxi e foi em direção ao bairro Santa Maria, não muito distante dali.

Naquela mesma noite, ele tomou o ônibus para Belo Horizonte. Chegando lá de manhãzinha, comprou passagem para Brasília. Para matar o tempo foi a um cinema situado na Praça Sete. Em Brasília, aproveita para ver a sua beleza arquitetônica, passeia no shopping. Depois ruma-se para Goiânia. ( p.181)

O tempo literário se expande numa cristalização cronológica, enquanto vários eventos são repetidos em flashes.

A fala dos personagens identifica o estrato social a que pertencem ou a profissão que exercem, e ao se formar o tecido verbal a realidade se revela com bastante nitidez, fazendo com que a oralidade se identifique com o que se ouve no dia a dia.
O que você está matutando? – faz parte do diálogo dos peões enquanto levavam uma boiada. (p.14)

Os peões cantaram de galo. Traziam armas na cintura. Depois de uns goles, começaram a brigar com todo mundo. Diziam que eram machos e não levavam desaforo para casa. (p.138)

A fala da cafetina retoma, em flash, o modo de vida dos peões mencionado em capítulo anterior.

Requeiro que ele seja conduzido preso para a cidade de Uberaba, ficando lá, trancafiado, à disposição da justiça (p.205). Assim se expressa o delegado de Volta Grande.
Intime todos os familiares para depor (p.126) A fala do delegado-chefe Bonicelli vem quase sempre, acentuada de objetividade.

Já o advogado sempre se embasa no Código de processo penal, citando-o ipsis litteris, do qual, Bonicelli sabia de cor. (p. 204)

Carvalhinho, repórter do jornal O Diário, vê a tragédia como matéria de primeira!

Acabei de ser informado pelo inspetor Vivaldo, que, lá (em Volta grande) uma família inteira foi trucidada, (...) – É matéria de primeira! E, aqui, na nossa cidade, vou ter exclusividade! (P.81) Notar o uso da vírgula, interrompendo a fala, carregada do impacto da novidade.

O mesmo Carvalhinho, com o desenrolar do tempo, fica indignado com a frieza do facínora, a quem entrevistou. Bem diferente daquele que vibrou-se por uma notícia de primeira.

Cara !!!... Carvalhinho vociferou, com enfática veemência, usando ironicamente, o mesmo vocativo, empregado pelo assassino. E prosseguiu no mesmo tom áspero: - Vou te dizer com franqueza! Em toda minha vida de repórter policial, nunca vi coisa igual da espécie! Sua ação, vergonha infame e desumana, não encontra nenhum precedente pior na história, nem do mesmo quilate de maldade. (p.256)

Uso pessoal, com valor de gíria, de palavras como rapaz, cara, por Balduíno:
Rapaz, eu não vou te telefonar mais não! Eu faço uma ligação e agora mesmo já tem polícia aqui no meu pé para me prender! ( p.194)
Cara! Se eu pudesse rebobinar a fita! (p.252 )

Registre-se ainda o uso de monólogo interior, quando Balduíno conversa com seu próprio facão: Aguarde aqui, que vou precisar de você mais tarde. (p. 221)
Visualidade – as manchetes eram sempre anunciadas em letras garrafais:
MORENO CHEGA PRESO A OBERABA (p.194)
VOLTA GRANDE ENTERRA OS SEUS DEZ MORTOS (p.127)

O autor não narra apenas um crime. Comenta para reflexão de leitor, as falhas do nosso sistema, aspectos legais muitas vezes frouxos, resultando na infeliz expressão cunhada por D. João VI -  é coisa para inglês ver – no tempo em que a Inglaterra era senhora do mundo e administrava, inclusive, a política e as finanças do Brasil.

Um condenado pode ser levado à prisão com penas que lhe são imputadas por 150, 200 ou mesmo 300 anos...

No Brasil, o limite máximo da pena de prisão é de 30 anos, nos termos do artigo 75, do Código Penal que reza: o tempo de cumprimento das penas privativas de liberdade não pode ser superior a 30 anos (p. 264)

Esta pena vai-se abrandando com o tempo, considerando-se vários fatores, passando o condenado para regime semiaberto (em troca de trabalho de qualquer natureza) e deste para regime aberto (só dormir na prisão), além de outras benesses.

Roberval e Balduíno, como também Moreno, fugiram da prisão e nunca mais foram capturados, havendo, por isso, prescrição de pena por seus crimes. Leon cumpriu pena de 16 anos, beneficiado pelos vários regimes de progressão.

E tudo isso acontece, depois de competente trabalho de investigação e captura, envolvendo um delegado-chefe, vindo de Belo horizonte para esta função, e seus colaboradores, recheado de enganos e de acertos, onde não faltou até o lado cômico, ao se prender um dos assassinos enquanto tomava banho, hospedado numa pensão, quando se preparava para nova fuga...

A memória não é uma ressurreição do passado, ela sempre inova, transfigura o passado.
Berdiaeff, apud Castagnino – Tiempo y Expresión literária.
O autor expôs fatos e leis. Ao leitor, que não se contentar apenas coma uma leitura linear, abre-se o leque para a sua reflexão...


Paulo Fernando Silveira. Gritos na escuridão. Curitiba. Juruá, 2013.

28 de março de 2017

Projeto Ações Educativas- Memória e Cidadania promove palestra para cerca de 800 alunos no Arquivo Público de Uberaba


A Superintendência do  Arquivo Público de Uberaba por meio do projeto Ações Educativas - Memória e Cidadania atendeu no mês de fevereiro e março cerca de 800 alunos  com palestras ministradas pela coordenadora do projeto Luzia de Fátima Rocha e  o historiador Luis Celurali.

 Os alunos acompanhados de seus professores puderam ampliar seus conhecimentos sobre a história de Uberaba e região, conhecer as competências do Arquivo, o acervo documental e a forma como são guardados e arquivados os documentos.

A Importância dos Documentos Históricos para a Formação das Identidades de uma Comunidade foi um dos temas abordados e debatidos  durante as palestras.

Agradecemos a  E.E. Felício de Paiva, E.E.  Professora Corina de Oliveira, E. M. Anísio Teixeira, E. M. Frederico Peiró, SENAC e Colégio Marista, que com suas presenças nos proporcionaram a oportunidade de desenvolver nossas atividades.


Veja como foram animados os encontros: