16 de fevereiro de 2017

Arquivo Público de Uberaba Comemora o 197º Aniversário de Uberaba


O Arquivo Público de Uberaba/Secretaria de Governo já iniciou seus eventos em comemoração ao 197º aniversário de Uberaba.

Nos dias 13 e 14 os historiadores da instituição realizaram palestras sobre a história de Uberaba na Escola Estadual Felício de Paiva, atingindo 270 alunos.

Estas atividades junto as escolas continuaram até o dia 17 de fevereiro.


Constam também como parte da programação os seguintes eventos:

- Exposição de fotografias e projetos arquitetônicos de 20 de fevereiro a 03 de março das 9 às 17 horas, na sede do Arquivo Público de Uberaba, na praça da Mogiana.
- Publicação e divulgação em jornais, rádios e TV da cidade de texto inédito sobre o inventário do Major Eustáquio. Este trabalho é fruto de pesquisa dos historiadores da instituição.
- Este mesmo texto sobre o inventário do Major Antônio Eustáquio da Silva e Oliveira foi enviado para a Secretaria de Educação que será repassado para todas as escolas de ensino fundamental do município.
- O Arquivo Público também estará participando de eventos promovidos por outros órgãos da Prefeitura Municipal de Uberaba.


João Eurípedes de Araújo
Luiz Henrique Caetano Cellurale
Miguel Jacob Neto


Imagem da Praça Rui Barbosa em Uberaba em 1917. Fonte: Superintendência do Arquivo Público de Uberaba.


15 de fevereiro de 2017

Ações Educativas "Memória e Cidadania" visita Escola Estadual Felício de Paiva e leva história de Uberaba e região a 270 alunos

Cerca de 270 alunos de 12 turmas de 6º a 9º ano, do período matutino, da Escola Estadual Felício de Paiva, acompanhados de seus professores, receberam a visita da Superintendência do Arquivo Público de Uberaba por meio do Projeto Ações Educativas Itinerante – Memória e Cidadania, que tem como objetivo informar os participantes sobre a história do município e fortalecer o sentimento de identidade dos adolescentes que participam das atividades desenvolvidas pela equipe do projeto.


Para aprimorar o aprendizado em sala de aula com vivências práticas, as crianças assistiram aulas ministradas pelos professores Luzia de Fátima Rocha e Luiz Cellurale, participaram de debates e puderam ampliar os conhecimentos sobre a história de Uberaba levantada com base nos registros documentais.



Com intuito de formar cidadãos conscientes e conhecedores da história de Uberaba, o projeto Ações Educativas – Memória e Cidadania fomenta o interesse dos educandos em conhecer mais profundamente a história do município buscando como fonte de pesquisa o acervo documental da Superintendência do Arquivo Público de Uberaba. 










26 de janeiro de 2017

Razões para o desenvolvimento dos principais municípios do Triângulo Mineiro


Neste artigo, o historiador e membro da Academia de Letras do Triângulo Mineiro Antônio Pereira da Silva, reflete sobre possíveis aspectos que fizeram a hegemonia na região em diferentes momentos históricos dos principais municípios do Triângulo Mineiros.


TEORIA


           As principais cidades do Triângulo Mineiro, atualmente, são Uberlândia, Uberaba, Araguari, Ituiutaba, Frutal e Iturama. Destas cidades, três ocuparam e ocupam situação destacada no desenvolvimento econômico regional: Uberlândia, Uberaba e Araguari.

            O crescimento destas cidades está ligado ao comércio com o resto da região, mais o Sudoeste goiano e a parte Sul do antigo estado do Mato Grosso.
            A hegemonia está em Uberlândia, mas não foi sempre assim. Em primeiro lugar o domínio comercial da região foi de Uberaba, depois, por pouco tempo, foi de Araguari e só a partir dos anos 1960 passou-se para Uberlândia.

            A questão é a seguinte: Por quê Uberlândia se destacou superando até Uberaba que foi uma das maiores cidades do Brasil imperial?

            Duas cidades, de outros estados, estão envolvidas nesse processo: Itumbiara, em Goiás, e Três Lagoas, em Mato Grosso do Sul.

            A conquista das regiões citadas, fontes do enriquecimento de Uberlândia, foi possibilitada por três fatores: estrada de ferro, ponte Afonso Pena e estrada de rodagem.

            A estrada de ferro Mogiana, fez a ligação entre um dos principais centros industriais do país (São Paulo) com o Triângulo Mineiro. A ponte Afonso Pena, fez a ligação rápida entre o estado de Goiás e o Triângulo Mineiro. Fora da ponte só se atravessava o limite do estado rumo ao sul por lentas e perigosas balsas. A estrada de rodagem fez a ligação entre a ponte Afonso Pena e a estrada de ferro Mogiana.

            Uberaba era servida pela estrada de ferro e estava distante tanto quanto Uberlândia da ponte Afonso Pena. Mas não tinha estrada de rodagem ligando a cidade ao Sudoeste goiano e ao Sul de Mato Grosso. Tudo o que lhe chegava pela Mogiana, para seguir em frente, tinha que ser em carros de bois, salvo a pequena região ligada à cidade pelas estradas de Quirino Luiz. Com a chegada dos trilhos a hegemonia de Uberaba cresceu. A Mogiana, entretanto, seguiu para frente, até Araguari, passando por Uberabinha e outras pequenas estações. Com isso, Araguari tomou parte da liderança uberabense e mesmo Uberabinha também se apossou de pequena porção. Nisso, a Mogiana prejudicou Uberaba. Até 1915, Araguari dominou o comércio regional. Além disso a chegada da estrada de ferro Noroeste do Brasil ao rio Paraná e imediata passagem para Mato Grosso, chegando rapidamente à divisa com a Bolívia, arrastou quase todo o resto do comércio uberabense regional. Uberaba, conforme nos diz Guido Bilharinho, se não tivesse a pecuária teria se transformado numa corruptela. 

Antônio Pereira da Silva em ocasião de lançamento de um de seus livros. Fonte: Correio de Uberlândia.

            Araguari também sofreu as consequências negativas da estrada de ferro, apesar do estímulo chegado com a Mogiana. Araguari estava mais próximo da zona Sudeste goiana que não é grande produtora de bens primários. Mesmo depois da instalação da Goiás (estrada de ferro) as mercadorias chegadas pelas estradas de ferro seguiam em carros de bois. Araguari ficava mais distante do Sudoeste Goiano e de Mato Grosso que Uberaba e Uberlândia. A chegada da Noroeste ao solo mato-grossense em meados da segunda década do século XIX, arrancou de Araguari e de Uberaba a supremacia comercial sobre a região.

            Duas outras cidades poderiam se desenvolver explorando o comércio com o Sudoeste Goiano e Mato Grosso: Itumbiara e Três Lagoas. Itumbiara estava encostada na ponte Afonso Pena e era uma das pontas da estrada de rodagem. Mas não era servida pela estrada de ferro. As mercadorias vindas de São Paulo e Rio, destinadas ao centro do país, já saiam da Mogiana com destino certo. Só passavam por Itumbiara. O mesmo acontecia com 70% da produção primária do Sudoeste goiano. Só passavam por Itumbiara. Certamente alguma coisa de bom aconteceu para Itumbiara tanto que é uma das maiores cidades goianas. Mas não teve o desenvolvimento que teve Uberlândia.

            Três Lagoas tinha estrada de ferro, mas não tinha rodovias.  Enquanto as rodovias tributárias da uberabinhense não chegaram a Mato Grosso, Três Lagoas comandou o comércio na região e no Sudoeste Goiano. Uberlândia acabou ganhando parte do comércio mato-grossense e quase tudo no Sudoeste, mercê dessas rodovias e do trabalho heroico dos seus motoristas. (Preciso pesquisar mais esta questão de estradas de rodagem de Três Lagoas).

            Enquanto Araguari, Uberaba, Itumbiara e Três Lagoas, possuíam um ou dois dos pilares fundamentais no desenvolvimento econômico regional (ponte, rodovia, ferrovia), Uberabinha possuía as três e ainda ganhou a extensão de suas estradas, através de outros empresários posteriores a Fernando Vilela, aos mais profundos sertões goiano e mato-grossense. Nossa estrada parou na ponte, mas empresários de Itumbiara jogaram extensões para a direita (sudeste), esquerda (sudoeste) e centro. Outros empresários empurraram essa estrada para os fundos de Mato Grosso. Para chegar à Mogiana todas estas pontas de estradas tinham que passar pela ponte Afonso Pena, pela estrada do Fernando Vilela e parar em Uberabinha para embarque na Mogiana. O mesmo acontecia, em ordem inversa, com os produtos acabados vindos das indústrias do Sul.

            Essa parada em Uberabinha estimulou a criação de armazéns de consignação, em que as mercadorias ficavam estocadas até seguirem para seus destinos, via caminhões ou carros de bois (que não despareceram de pronto). Muitas mercadorias goianas eram adquiridas pelos comerciantes de Uberabinha (por escambo) que as revendiam a compradores das indústrias paulistas e cariocas. Por outro lado, a maioria dos compradores preferiam comprar dos atacadistas daqui que aceitavam o pagamento em matérias primas (fumo, toucinho, borracha, sementes etc). Só quem tinha muito dinheiro comprava diretamente de São Paulo. Isso estimulou o desenvolvimento do comércio atacado.

            Parece que um aspecto ainda pouco explorado pelos pesquisadores e que se revela importantíssimo é a parada das mercadorias em Uberabinha, tanto as vindas do profundo Brasil Central quanto as paulistas. Elejo, pois, um quarto item que favoreceu o desenvolvimento de Uberlândia: a parada das mercadorias para a intermediação dos nossos comerciantes.

            Mas o desenvolvimento de Uberabinha, que vai se firmar como o primeiro na região só a partir dos anos 1960, chegou devagar.

           
 Os passos foram os seguintes:
  •             Instalação da Mogiana
  •             Construção da Ponte Afonso Pena
  •             Construção da rodovia do Fernando Vilela
  •             Construção da rodovia da Sul Goiana (Itumbiara/Rio Verde) e outras
  •            Construção de rodovias para Mato Groso a partir das pontas de estradas goianas.

  •             Desenvolvimento do transporte rodoviários com seus motoristas heroicos.
  •             Construção do primeiro trecho de asfalto no Triângulo (Uberlândia/Monte Alegre)
  •             Construção de Brasília.



23 de janeiro de 2017

Debate sobre cinema: Obra e produto, por Guido Bilharinho

Os filmes classificam-se em obras e produtos, conforme sua concepção, elaboração e finalidade, em que os dois primeiros elementos subordinam-se ao último.

Se a finalidade é comercial tem-se produto, que se destina apenas a faturar e gerar lucro. Nesse caso, é adredemente planejado para atingir as mais largas camadas do público, pressupondo pesquisa, estudo e conhecimentos mercadológicos, sem os quais o empreendimento sujeita-se ao fracasso.

À semelhança dos demais artefatos desovados pela indústria, os filmes dessa espécie procuram atender necessidade específica. No caso, de diversão, passatempo e particularidades e exigências emocionais e psicológicas.
Em decorrência de sondagem de mercado, a indústria cientificas e das características do público, seus gostos, inclinações, limitações, idiossincrasias e tendências, procurando, com maior ou menor competência, fornecer-lhe o produto desejado.

Para isso, estabelece as médias estatísticas necessárias e o consequente e adequado formulário de ingredientes e insumos, constantemente checado, reciclado e renovado para acompanhar paripassu as alterações de humor e interesses dos espectadores, que, por sua vez, também se deixam influenciar por essa produção, submetendo-se a ela de bom grado, passiva e acarneiradamente.

Assim, pululam, na técnica, os efeitos especiais; na temática, violência, sexo e particularidades ficcionais; na linguagem cinematográfica, o convencionalismo, a linearidade ou superficialidade e toda linhagem de macetes pré-estabelecidos em consonância com as indicações obtidas.

Nessa conjuntura, o diretor e a equipe não ultrapassam o nível técnico-profissional, no qual se dirige filme como se guia veículo ou se pilota avião. Nada, pois, de pessoal, próprio, criativo, apenas restrito ao conhecimento indispensável à utilização e funcionamento da parafernália técnica respectiva.


Quando o propósito é artístico e cultural, ocorre total inversão das e nas disposições e posições acima relacionadas, conquanto também seja imprescindível conhecer e dominar os meios técnicos necessários à filmagem.


O filme, nessa hipótese, perfaz não mero objeto descartável, mas, obra autoral, aliando inventividade ou pelo menos perícia formal e substância temática, que, por força de série de circunstâncias, pode até não configurar arte ou pelo menos não atingir seus maiores patamares, por dependentes de aptidão, talento, esforço, informação e consciência artística, além de persistente e exaustiva elaboração.


Nesse caso, a temática e seu conteúdo não visam agradar ao público, mas, ao contrário, externar estética e criticamente visão pessoal do mundo, pressupondo criatividade e elaboração formal, análise e questionamento dos fundamentos e organização da sociedade e do comportamento coletivo e individual dos seres humanos.


O produto procura manipular o sentimento e a emoção. A obra destina-se à inteligência e à sensibilidade.


(do livro inédito Ficção e Cinema)
______________
Guido Bilharinho é advogado atuante em Uberaba, editor da revista internacional de poesia Dimensão de 1980 a 2000 e autor de livros de Literatura (poesia, ficção e crítica literária), Cinema


12 de dezembro de 2016

AS QUATRO PARTES DO FILME - Crítica de Cinema


Obra de Hildebrando de Melo


Por Guido Bilharinho*

A semelhança de um fruto, por exemplo, o filme apresenta, num certo sentido, quatro partes principais: envoltório ou casca, membrana ou película, polpa ou matéria e, finalmente, o núcleo (conteúdo e forma).

No caso, o envoltório ou casca consiste na infra-estrutura de produção convocada e posta a serviço de sua realização, permitindo ao diretor a organização e condução da narrativa,
fornecendo-lhe meios e modos para que seja efetivada e transmitida com a
maior perfeição possível.

A membrana ou película (significando a fina pele que entremeia a casca e a polpa, mantendo-as unidas), prefigura-se na competência técnica do diretor e demais membros da equipe.

A polpa ou matéria compreende a estória, os fatos e a ação. À primeira vista, segundo o entendimento corrente, seria o fator principal de qualquer obra de ficção.

No entanto, simples envoltório, apenas representa, como no símile natural, elemento que compõe o filme, independentemente da casca e até da película, solidificando e mantendo a polpa agregada.

A casca, não obstante sua função, pode estar solta e ser até extraída ou retirada que o fruto permanece unificado, íntegro.

Já, a precariedade da membrana ou película acarreta automática atrofia do núcleo.  Quer isso dizer que tanto a competência e a técnica quanto a ação e os fatos, por melhores sejam, ainda não configuram a obra ou filme, mas, suas partes externas, com funções específicas e relativa importância.

O que se deve considerar, segundo Hegel, não é a estória, mas, o aqui denominado núcleo (concepção e expressão), ou seja, seu sentido, significado e elaboração formal, sintetizando continente e conteúdo internos.

O que distingue filme comercial de filme de arte é apenas sua quarta parte. As demais, por alheias ao específico artístico, não têm o condão de diferençar, qualificar ou desqualificar
a realização, atribuindo-lhe essa ou aquela categoria.

Em consequência, pode-se ter filme competente e seguramente dirigido, tecnicamente perfeito, contando com entrecho repleto de peripécias, intrigas, ação, lances dramáticos ou fulminantes, hábil e coerentemente narrados, trançados ou entrançados, mas que não seja arte, não atingindo o grau, o nível e as condições próprias, necessárias e indispensáveis a essa condição. Ou seja, seu conteúdo é vazio de sentido, de verdade humana e carente de sutileza, perspicácia e tratamento sofisticado. Ao contrário, pois, da percepção corrente, na hipótese quatripartite considerada, o núcleo perfaz todo o complexo autoral e unitário que engloba desde o entendimento do mundo até a maneira (ou forma) de conduzir o drama humano enfocado e de utilizar a linguagem cinematográfica.

Constitui, pois, concepção unitária e ao mesmo tempo abrangente do que seja (ou deva ser entendido) como núcleo ou cerne de qualquer obra ficcional, independentemente da arte em que se manifeste, seja literatura (que inclui o texto teatral), seja cinema.

Esse entendimento do fenômeno ou prática ficcional faculta sua compreensão, análise e avaliação, classificando- o ou desclassificando-o sob o ponto de vista artístico. Mesmo que se não o faça de imediato, consciente e eficazmente (por meio da crítica), o passar dos seres humanos pelo tempo encarrega-se de separar uns e outros ou uns dos outros, relegando ao oblívio os que não atingiram o status artístico, condenando-os ao desaparecimento.


(do livro inédito Ficção e Cinema)
Artigo publicado no periódico "Cultura: Jornal Angolano de Artes e Letras". Ed. 5 a 18 de Dezembro de 2016 | Nº 123 | Ano V • Diretor: José Luís Mendonça
________
Guido Bilharinho é advogado atuante em Uberaba/Brasil, editor da revista internacional de poesia Dimensão de 1980 a 2000 e autor de livros de Literatura (poesia, ficção e crítica literária), Cinema (história e crítica), História (do Brasil e regional).


22 de novembro de 2016

Colonização do Triângulo Mineiro: Origens do Desemboque

Por Thiago Riccioppo *
       Marcelo de Souza Silva *

           O antigo sertão da Farinha Podre, onde se formou o município de Uberaba, compreende toda a área que abrange o ângulo formado pelo encontro dos rios Grande e Paranaíba, no sudoeste do Estado de Minas Gerais, limitada pela Serra da Canastra e Mata da Corda. Este território é hoje ocupado pelas micro-regiões do Triângulo Mineiro e Alto Paranaíba, com a latitude 19º 45’ 27” e a longitude 47º 55’ 36”. Na vasta área de 4 524 Km, o perímetro urbano uberabense ocupa atualmente 260 Km2 . A altitude é de 764 metros. Está localizada num ponto equidistante das principais capitais – em média 500 km – Belo Horizonte, São Paulo e Brasília. Sua localização geográfica tem profunda ligação com a maneira como se deu a ocupação da região e a posterior formação do município. 

            A história da ocupação do Triângulo Mineiro é marcada pelo conflito. Nos seus primórdios, antes da chegada dos bandeirantes, os nativos que aqui viviam eram membros da tribo dos Tremembés. A hipótese mais provável é que estes índios vieram do norte e ocuparam a região até o início do século XVIII, momento em que foram expulsos pelos Caiapós, nação está  encontrada no momento da colonização da região. Segundo o memorialista Edelweiss Teixeira,[1] o domínio desta nação ia desde Itu/SP a Cachoeira de Urubupungá, passando pelo Triângulo Mineiro até Vila Boa de Goiás, rumo aos rios Araguaia e Tocantins. 

            No século XVIII, a região do Triângulo Mineiro pertencia à província de São Paulo e a sua ocupação está inserida no processo de interiorização da exploração econômica da colônia, ou seja, num primeiro momento, as expedições, oficiais e não oficiais, vinham com o objetivo principal de capturar índios.  Com a descoberta de ouro na província de Goiás, e depois em Cuiabá, começaram os esforços por melhorar o caminho ligando São Paulo às minas. Segundo Luís Bustamante Lourenço,[2] foi entre 1722 e 1725 que os sertanistas paulistas, sob a liderança de Bartolomeu Bueno da Silva, o lendário Anhanguera, descobriram as minas de Goiás e, desta feita, formaram-se arraiais e vilas naquela região.  O caminho, uma linha reta, entre São Paulo e as minas goianas, foi estabelecido por decreto régio em 1730, mapeadas atualmente graças aos relatos de viajantes[3] que passaram pela região já no século seguinte. 



Figura 1 – Estrada do Anhangüera ou dos Goiases (1736). Apud LOURENÇO, op. cit, p. 35.

            Neste período inicial de colonização de Goiás – quando o Triângulo passou a pertencer a esta província, os índios Caiapós, que povoavam aquela região ameaçavam a estabilidade dos arraiais de ouro e o tráfego pela estrada, promovendo ataques constantes aos viajantes. Em vista destes problemas, em 1749, a Coroa Portuguesa decidiu guerrear contra estes índios e, para aumentar a segurança da estrada, o governo da capitania goiana contratou os serviços do sertanista paulista Antônio Pires de Campo, que partiu para a região acompanhado de 500 índios bororos, numa campanha de extermínio e aprisionamento dos caiapós que durou até 1750. Sob ordens do governador paulista fundou, na região que passou a ser conhecida desde então com Sertão da Farinha Podre, aldeamentos protegidos por seus índios bororos.



Figura 2 – Distribuição da população indígena em terras aldeanas do Sertão da Farinha Podre, em 1821. Apud: LOURENÇO, op. cit., p. 61.


            Os aldeamentos tinham características diferentes dos demais aglomerados populacionais típicos da colônia. Lourenço aponta estes últimos podiam ser considerados como proto-urbanos, devido tanto às atividades que ali se desenvolviam, como o comércio, quanto pelo regime jurídico dos moradores. Os aldeãos não eram escravos e nem homens livres, era-lhes imposta a condição de morar naqueles lugares, explorados pelo administrador do aldeamento. A aculturação e a submissão dos índios aos interesses coloniais era uma das funções da formação de aldeamentos. Contudo, nos aldeamentos do Sertão da Farinha Podre, a população indígena era reduzida e o processo de aculturação estava bastante avançado. Dessa maneira:

Neles a agricultura de subsistência era a principal atividade econômica dos índios, embora a caça e a coleta ainda compusessem parte de sua dieta. As famílias viviam juntas no núcleo e, diariamente, os homens se deslocavam para os campos de cultivo, enquanto as mulheres permaneciam em suas casas, envolvidas no trabalho do artesanato e no beneficiamento de produtos agrícolas, numa divisão sexual do trabalho já tipicamente luso-brasileira.[4]

            Os índios viviam, portanto, um regime de trabalho compulsório, mas que não se encaixa nos termos clássicos da agricultura colonial – marcada pela escravidão, latifúndio e produção de gêneros para a exportação. Sendo assim, podemos aferir que a vida nos aldeamentos do Sertão da Farinha Podre, em seus momentos iniciais, obedecia ao objetivo de simplesmente conservar a estrada para as minas goianas. 

            Nos anos subsequentes à instalação das aldeias, transformações na economia mineradora de Minas Gerais, e a descoberta de ouro e diamantes no Sertão da Farinha Podre (em um lugar conhecido como Desemboque), começaram as imigrações para a região, principalmente daqueles que moravam nas imediações das vilas produtoras de ouro na província mineira. Mais uma vez Lourenço nos esclarece:

Tal imigração, contudo, deu-se em proporções mineiras e não paulistas, isto é, contando com uma população migrante muito maior. Um grande (e pouco estudado) movimento centrífugo de população, talvez o maior até então visto, tendo como área de repulsão e região mineradora da capitania de Minas Gerais, iniciou-se a partir da década de 1760 em direção a todas as regiões circunvizinhas.[5]

            Portanto, diferentemente do que a historiografia regional aponta e, também, contrariamente ao que prega o imaginário coletivo do povo do Triângulo, esta região, apesar de formação específica no sentido de estar ligada às províncias paulista e goiana, tem sim também uma profunda ligação com os processos históricos desencadeados pelo enfraquecimento das regiões auríferas na província mineira, deixando claras, então, a vinculação cultural e histórica do Triângulo no conjunto das tradições e ao próprio “jeito de ser” do mineiro.

            Outro fator de povoamento da região foi a descoberta de zonas auríferas da região do Desemboque, que constituiu o primeiro núcleo, fora das aldeias, de colonização do Sertão da Farinha Podre, servido de dispersor para as futuras vilas de Araxá, Uberaba, Prata e Patrocínio. Os dois primeiros centros administrativos desta região, segundo Sonia Fontoura,[6] foram Desemboque, em 1776 e Araxá, em 1811, a que era submetida Uberaba.. Apesar disso, não foi somente devido ao ouro que se deve a formação do julgado do Desemboque. Havia uma questão relativa à jurisdição paroquial que, hipoteticamente, determinou o crescimento acelerado da região. O padre de Desemboque, Marcos Freire de Carvalho, abriu uma picada (espécie de estrada) até Santa Cruz, na capitania de Goiás e o Bispo daquela região reconheceu, dessa forma, aquela região como parte de sua jurisdição. A ânsia por escapar dos desígnios do governo mineiro por parte dos habitantes do Desemboque, segundo Lourenço,[7] pode ter ligação com o fato de o governador da província mineira, Luís Diogo, em 1765, ter publicado uma derrama de 13 arrobas, o que teria provocado uma “fuga” de mineiros rumo ao Desemboque para escapar dela. Dessa forma, se deu em Desemboque um povoamento acelerado, e a região se tornou zona de intenso contrabando do ouro proveniente das Gerais. Assim, não se pode estabelecer o quanto a relevância do povoado de Desemboque se deve ao ouro ali descoberto ou ao fato de ter se conformado uma possibilidade de escape das rígidas deliberações mineiras, uma zona aurífera em declínio.


Figura 3 – Mapa dos povoados surgidos no Oeste Mineiro de 1750 e 1800, principais picadas e caminhos. Apud, LOURENÇO, op. cit., 78. 
            
A primazia do Julgado do Desemboque foi anulada com a anexação da região do Sertão da Farinha Podre a Minas Gerais. Em 1816, sob a jurisdição Mineira, a principal atividade do Desemboque,[8] o contrabando, ficou prejudicada e, assim, outras regiões do Triângulo, especialmente próximas à antiga estrada do Anhanguera, ganharam sua vez no povoamento e exploração.
          

[1] TEIXEIRA, Edelweiss. O Triângulo Mineiro nos Oitocentos: séculos XVIII e XIX. Uberaba: Intergraff Editora, 2001, p. 32.
[2] LOURENÇO, L. A. B. A oeste das Minas: escravos, índios e homens livres numa fronteira oitocentista. Triângulo Mineiro (1750-1860). Uberlândia: EdUFU, 2003. 
[3] Entre eles Auguste de Saint-Hilaire, Eschwege e Luís D´Alincourt.
[4] LOURENÇO, L. A. B, op. cit., p. 51. 
[5] Idem, ibidem, p. 59.
[6] FONTOURA, Sonia Maria. A invenção do inimigo: Racismo e Xenofobia em Uberaba 1890-1942.. Franca: Unesp, 2001. Dissertação (mestrado).
[7] LOURENÇO, L. A. B. op. cit., p. 79 et. seq.
[8] Segundo, mais uma vez, as hipóteses de Lourenço (2002).


* Thiago Riccioppo - Mestre em História pela Universidade Federal de Uberlândia - UFU, historiador da Superintendência do Arquivo Público de Uberaba e Gerente Executivo do Museu do Zebu.
*Marcelo de Souza Silva - Doutor em História pela Universidade Federal do Rio de Janeiro - UFRJ e professor na Universidade Federal do Triângulo Mineiro - UFTM.


Imagens do Desemboque realizadas na década de 1970. Fonte: Superintendência do Arquivo Público de Uberaba





















          

Projeto "Ações Educativas Itinerante" da Superintendência do Arquivo Público de Uberaba é realizado com 200 alunos

    O Projeto Ações Educativas Itinerante desenvolve um trabalho de informação e divulgação sobre a importância e competências de um Arquivo Público e a evolução histórica da cidade e do patrimônio cultural junto às escolas das redes pública e privada .

    Nos dias 17,18 e 21 de novembro, cerca de 200 alunos foram atendidos no  Sesc Uberaba com aulas ministradas pela professora Luzia Rocha .

    O envolvimento dos alunos e professores contribuiu de maneira significativa para que essa ação pedagógica atingisse seus objetivos com sucesso.

     A Superintendente do Arquivo Público de Uberaba, Marta Zedinick de Casanova, agradece ao Sesc pela oportunidade de divulgar a história de Uberaba e região.


Veja nas imagens como foram as atividades realizadas:









18 de novembro de 2016

AS QUATRO PARTES DO FILME

Guido Bilharinho


A semelhança de um fruto, por exemplo, o filme apresenta, num certo sentido, quatro partes principais: envoltório ou casca, membrana ou película, polpa ou matéria e, finalmente, o núcleo (conteúdo e forma).

No caso, o envoltório ou casca consiste na infraestrutura de produção convocada e posta a serviço de sua realização, permitindo ao diretor a organização e condução da narrativa, fornecendo-lhe meios e modos para que seja efetivada e transmitida com a maior perfeição possível.

A membrana ou película (significando a fina pele que entremeia a casca e a polpa, mantendo-as unidas), prefigura-se na competência técnica do diretor e demais membros da equipe.

A polpa ou matéria compreende a estória, os fatos e a ação. À primeira vista, segundo o entendimento corrente, seria o fator principal de qualquer obra de ficção.

No entanto, simples envoltório, apenas representa, como no símile natural, elemento que compõe o filme, independentemente da casca e até da película, solidificando e mantendo a polpa agregada.

A casca, não obstante sua função, pode estar solta e ser até extraída ou retirada que o fruto permanece unificado, íntegro.
Já, a precariedade da membrana ou película acarreta automática atrofia do núcleo.

Quer isso dizer que tanto a competência e a técnica quanto a ação e os fatos, por melhores sejam, ainda não configuram a obra ou filme, mas, suas partes externas, com funções específicas e relativa importância.

O que se deve considerar, segundo Hegel, não é a estória, mas, o aqui denominado núcleo (concepção e expressão), ou seja, seu sentido, significado e elaboração formal, sintetizando continente e conteúdo internos.

O que distingue filme comercial de filme de arte é apenas sua quarta parte. As demais, por alheias ao específico artístico, não têm o condão de diferençar, qualificar ou desqualificar a realização, atribuindo-lhe essa ou aquela categoria.

Em consequência, pode-se ter filme competente e seguramente dirigido, tecnicamente perfeito, contando com entrecho repleto de peripécias, intrigas, ação, lances dramáticos ou fulminantes, hábil e coerentemente narrados, trançados ou entrançados, mas que não seja arte, não atingindo o grau, o nível e as condições próprias, necessárias e indispensáveis a essa condição.

Ou seja, seu conteúdo é vazio de sentido, de verdade humana e carente de sutileza, perspicácia e tratamento sofisticado.

Ao contrário, pois, da percepção corrente, na hipótese quatripartite considerada, o núcleo perfaz todo o complexo autoral e unitário que engloba desde o entendimento do mundo até a maneira (ou forma) de conduzir o drama humano enfocado e de utilizar a linguagem cinematográfica.

Constitui, pois, concepção unitária e ao mesmo tempo abrangente do que seja (ou deva ser entendido) como núcleo ou cerne de qualquer obra ficcional, independentemente da arte em que se manifeste, seja literatura (que inclui o texto teatral), seja cinema.

Esse entendimento do fenômeno ou prática ficcional faculta sua compreensão, análise e avaliação, classificando-o ou desclassificando-o sob o ponto de vista artístico.

Mesmo que se não o faça de imediato, consciente e eficazmente (por meio da crítica), o passar dos seres humanos pelo tempo encarrega-se de separar uns e outros ou uns dos outros, relegando ao oblívio os que não atingiram o status artístico, condenando-os ao desaparecimento.

(do livro inédito Ficção e Cinema)

______________

Guido Bilharinho é advogado atuante em Uberaba, editor da revista internacional de poesia Dimensão de 1980 a 2000 e autor de livros de Literatura (poesia, ficção e crítica literária), Cinema (história e crítica), História (do Brasil e regional).