22 de novembro de 2016

Colonização do Triângulo Mineiro: Origens do Desemboque

Por Thiago Riccioppo *
       Marcelo de Souza Silva *

           O antigo sertão da Farinha Podre, onde se formou o município de Uberaba, compreende toda a área que abrange o ângulo formado pelo encontro dos rios Grande e Paranaíba, no sudoeste do Estado de Minas Gerais, limitada pela Serra da Canastra e Mata da Corda. Este território é hoje ocupado pelas micro-regiões do Triângulo Mineiro e Alto Paranaíba, com a latitude 19º 45’ 27” e a longitude 47º 55’ 36”. Na vasta área de 4 524 Km, o perímetro urbano uberabense ocupa atualmente 260 Km2 . A altitude é de 764 metros. Está localizada num ponto equidistante das principais capitais – em média 500 km – Belo Horizonte, São Paulo e Brasília. Sua localização geográfica tem profunda ligação com a maneira como se deu a ocupação da região e a posterior formação do município. 

            A história da ocupação do Triângulo Mineiro é marcada pelo conflito. Nos seus primórdios, antes da chegada dos bandeirantes, os nativos que aqui viviam eram membros da tribo dos Tremembés. A hipótese mais provável é que estes índios vieram do norte e ocuparam a região até o início do século XVIII, momento em que foram expulsos pelos Caiapós, nação está  encontrada no momento da colonização da região. Segundo o memorialista Edelweiss Teixeira,[1] o domínio desta nação ia desde Itu/SP a Cachoeira de Urubupungá, passando pelo Triângulo Mineiro até Vila Boa de Goiás, rumo aos rios Araguaia e Tocantins. 

            No século XVIII, a região do Triângulo Mineiro pertencia à província de São Paulo e a sua ocupação está inserida no processo de interiorização da exploração econômica da colônia, ou seja, num primeiro momento, as expedições, oficiais e não oficiais, vinham com o objetivo principal de capturar índios.  Com a descoberta de ouro na província de Goiás, e depois em Cuiabá, começaram os esforços por melhorar o caminho ligando São Paulo às minas. Segundo Luís Bustamante Lourenço,[2] foi entre 1722 e 1725 que os sertanistas paulistas, sob a liderança de Bartolomeu Bueno da Silva, o lendário Anhanguera, descobriram as minas de Goiás e, desta feita, formaram-se arraiais e vilas naquela região.  O caminho, uma linha reta, entre São Paulo e as minas goianas, foi estabelecido por decreto régio em 1730, mapeadas atualmente graças aos relatos de viajantes[3] que passaram pela região já no século seguinte. 



Figura 1 – Estrada do Anhangüera ou dos Goiases (1736). Apud LOURENÇO, op. cit, p. 35.

            Neste período inicial de colonização de Goiás – quando o Triângulo passou a pertencer a esta província, os índios Caiapós, que povoavam aquela região ameaçavam a estabilidade dos arraiais de ouro e o tráfego pela estrada, promovendo ataques constantes aos viajantes. Em vista destes problemas, em 1749, a Coroa Portuguesa decidiu guerrear contra estes índios e, para aumentar a segurança da estrada, o governo da capitania goiana contratou os serviços do sertanista paulista Antônio Pires de Campo, que partiu para a região acompanhado de 500 índios bororos, numa campanha de extermínio e aprisionamento dos caiapós que durou até 1750. Sob ordens do governador paulista fundou, na região que passou a ser conhecida desde então com Sertão da Farinha Podre, aldeamentos protegidos por seus índios bororos.



Figura 2 – Distribuição da população indígena em terras aldeanas do Sertão da Farinha Podre, em 1821. Apud: LOURENÇO, op. cit., p. 61.


            Os aldeamentos tinham características diferentes dos demais aglomerados populacionais típicos da colônia. Lourenço aponta estes últimos podiam ser considerados como proto-urbanos, devido tanto às atividades que ali se desenvolviam, como o comércio, quanto pelo regime jurídico dos moradores. Os aldeãos não eram escravos e nem homens livres, era-lhes imposta a condição de morar naqueles lugares, explorados pelo administrador do aldeamento. A aculturação e a submissão dos índios aos interesses coloniais era uma das funções da formação de aldeamentos. Contudo, nos aldeamentos do Sertão da Farinha Podre, a população indígena era reduzida e o processo de aculturação estava bastante avançado. Dessa maneira:

Neles a agricultura de subsistência era a principal atividade econômica dos índios, embora a caça e a coleta ainda compusessem parte de sua dieta. As famílias viviam juntas no núcleo e, diariamente, os homens se deslocavam para os campos de cultivo, enquanto as mulheres permaneciam em suas casas, envolvidas no trabalho do artesanato e no beneficiamento de produtos agrícolas, numa divisão sexual do trabalho já tipicamente luso-brasileira.[4]

            Os índios viviam, portanto, um regime de trabalho compulsório, mas que não se encaixa nos termos clássicos da agricultura colonial – marcada pela escravidão, latifúndio e produção de gêneros para a exportação. Sendo assim, podemos aferir que a vida nos aldeamentos do Sertão da Farinha Podre, em seus momentos iniciais, obedecia ao objetivo de simplesmente conservar a estrada para as minas goianas. 

            Nos anos subsequentes à instalação das aldeias, transformações na economia mineradora de Minas Gerais, e a descoberta de ouro e diamantes no Sertão da Farinha Podre (em um lugar conhecido como Desemboque), começaram as imigrações para a região, principalmente daqueles que moravam nas imediações das vilas produtoras de ouro na província mineira. Mais uma vez Lourenço nos esclarece:

Tal imigração, contudo, deu-se em proporções mineiras e não paulistas, isto é, contando com uma população migrante muito maior. Um grande (e pouco estudado) movimento centrífugo de população, talvez o maior até então visto, tendo como área de repulsão e região mineradora da capitania de Minas Gerais, iniciou-se a partir da década de 1760 em direção a todas as regiões circunvizinhas.[5]

            Portanto, diferentemente do que a historiografia regional aponta e, também, contrariamente ao que prega o imaginário coletivo do povo do Triângulo, esta região, apesar de formação específica no sentido de estar ligada às províncias paulista e goiana, tem sim também uma profunda ligação com os processos históricos desencadeados pelo enfraquecimento das regiões auríferas na província mineira, deixando claras, então, a vinculação cultural e histórica do Triângulo no conjunto das tradições e ao próprio “jeito de ser” do mineiro.

            Outro fator de povoamento da região foi a descoberta de zonas auríferas da região do Desemboque, que constituiu o primeiro núcleo, fora das aldeias, de colonização do Sertão da Farinha Podre, servido de dispersor para as futuras vilas de Araxá, Uberaba, Prata e Patrocínio. Os dois primeiros centros administrativos desta região, segundo Sonia Fontoura,[6] foram Desemboque, em 1776 e Araxá, em 1811, a que era submetida Uberaba.. Apesar disso, não foi somente devido ao ouro que se deve a formação do julgado do Desemboque. Havia uma questão relativa à jurisdição paroquial que, hipoteticamente, determinou o crescimento acelerado da região. O padre de Desemboque, Marcos Freire de Carvalho, abriu uma picada (espécie de estrada) até Santa Cruz, na capitania de Goiás e o Bispo daquela região reconheceu, dessa forma, aquela região como parte de sua jurisdição. A ânsia por escapar dos desígnios do governo mineiro por parte dos habitantes do Desemboque, segundo Lourenço,[7] pode ter ligação com o fato de o governador da província mineira, Luís Diogo, em 1765, ter publicado uma derrama de 13 arrobas, o que teria provocado uma “fuga” de mineiros rumo ao Desemboque para escapar dela. Dessa forma, se deu em Desemboque um povoamento acelerado, e a região se tornou zona de intenso contrabando do ouro proveniente das Gerais. Assim, não se pode estabelecer o quanto a relevância do povoado de Desemboque se deve ao ouro ali descoberto ou ao fato de ter se conformado uma possibilidade de escape das rígidas deliberações mineiras, uma zona aurífera em declínio.


Figura 3 – Mapa dos povoados surgidos no Oeste Mineiro de 1750 e 1800, principais picadas e caminhos. Apud, LOURENÇO, op. cit., 78. 
            
A primazia do Julgado do Desemboque foi anulada com a anexação da região do Sertão da Farinha Podre a Minas Gerais. Em 1816, sob a jurisdição Mineira, a principal atividade do Desemboque,[8] o contrabando, ficou prejudicada e, assim, outras regiões do Triângulo, especialmente próximas à antiga estrada do Anhanguera, ganharam sua vez no povoamento e exploração.
          

[1] TEIXEIRA, Edelweiss. O Triângulo Mineiro nos Oitocentos: séculos XVIII e XIX. Uberaba: Intergraff Editora, 2001, p. 32.
[2] LOURENÇO, L. A. B. A oeste das Minas: escravos, índios e homens livres numa fronteira oitocentista. Triângulo Mineiro (1750-1860). Uberlândia: EdUFU, 2003. 
[3] Entre eles Auguste de Saint-Hilaire, Eschwege e Luís D´Alincourt.
[4] LOURENÇO, L. A. B, op. cit., p. 51. 
[5] Idem, ibidem, p. 59.
[6] FONTOURA, Sonia Maria. A invenção do inimigo: Racismo e Xenofobia em Uberaba 1890-1942.. Franca: Unesp, 2001. Dissertação (mestrado).
[7] LOURENÇO, L. A. B. op. cit., p. 79 et. seq.
[8] Segundo, mais uma vez, as hipóteses de Lourenço (2002).


* Thiago Riccioppo - Mestre em História pela Universidade Federal de Uberlândia - UFU, historiador da Superintendência do Arquivo Público de Uberaba e Gerente Executivo do Museu do Zebu.
*Marcelo de Souza Silva - Doutor em História pela Universidade Federal do Rio de Janeiro - UFRJ e professor na Universidade Federal do Triângulo Mineiro - UFTM.


Imagens do Desemboque realizadas na década de 1970. Fonte: Superintendência do Arquivo Público de Uberaba





















          

Projeto "Ações Educativas Itinerante" da Superintendência do Arquivo Público de Uberaba é realizado com 200 alunos

    O Projeto Ações Educativas Itinerante desenvolve um trabalho de informação e divulgação sobre a importância e competências de um Arquivo Público e a evolução histórica da cidade e do patrimônio cultural junto às escolas das redes pública e privada .

    Nos dias 17,18 e 21 de novembro, cerca de 200 alunos foram atendidos no  Sesc Uberaba com aulas ministradas pela professora Luzia Rocha .

    O envolvimento dos alunos e professores contribuiu de maneira significativa para que essa ação pedagógica atingisse seus objetivos com sucesso.

     A Superintendente do Arquivo Público de Uberaba, Marta Zedinick de Casanova, agradece ao Sesc pela oportunidade de divulgar a história de Uberaba e região.


Veja nas imagens como foram as atividades realizadas:









18 de novembro de 2016

AS QUATRO PARTES DO FILME

Guido Bilharinho


A semelhança de um fruto, por exemplo, o filme apresenta, num certo sentido, quatro partes principais: envoltório ou casca, membrana ou película, polpa ou matéria e, finalmente, o núcleo (conteúdo e forma).

No caso, o envoltório ou casca consiste na infraestrutura de produção convocada e posta a serviço de sua realização, permitindo ao diretor a organização e condução da narrativa, fornecendo-lhe meios e modos para que seja efetivada e transmitida com a maior perfeição possível.

A membrana ou película (significando a fina pele que entremeia a casca e a polpa, mantendo-as unidas), prefigura-se na competência técnica do diretor e demais membros da equipe.

A polpa ou matéria compreende a estória, os fatos e a ação. À primeira vista, segundo o entendimento corrente, seria o fator principal de qualquer obra de ficção.

No entanto, simples envoltório, apenas representa, como no símile natural, elemento que compõe o filme, independentemente da casca e até da película, solidificando e mantendo a polpa agregada.

A casca, não obstante sua função, pode estar solta e ser até extraída ou retirada que o fruto permanece unificado, íntegro.
Já, a precariedade da membrana ou película acarreta automática atrofia do núcleo.

Quer isso dizer que tanto a competência e a técnica quanto a ação e os fatos, por melhores sejam, ainda não configuram a obra ou filme, mas, suas partes externas, com funções específicas e relativa importância.

O que se deve considerar, segundo Hegel, não é a estória, mas, o aqui denominado núcleo (concepção e expressão), ou seja, seu sentido, significado e elaboração formal, sintetizando continente e conteúdo internos.

O que distingue filme comercial de filme de arte é apenas sua quarta parte. As demais, por alheias ao específico artístico, não têm o condão de diferençar, qualificar ou desqualificar a realização, atribuindo-lhe essa ou aquela categoria.

Em consequência, pode-se ter filme competente e seguramente dirigido, tecnicamente perfeito, contando com entrecho repleto de peripécias, intrigas, ação, lances dramáticos ou fulminantes, hábil e coerentemente narrados, trançados ou entrançados, mas que não seja arte, não atingindo o grau, o nível e as condições próprias, necessárias e indispensáveis a essa condição.

Ou seja, seu conteúdo é vazio de sentido, de verdade humana e carente de sutileza, perspicácia e tratamento sofisticado.

Ao contrário, pois, da percepção corrente, na hipótese quatripartite considerada, o núcleo perfaz todo o complexo autoral e unitário que engloba desde o entendimento do mundo até a maneira (ou forma) de conduzir o drama humano enfocado e de utilizar a linguagem cinematográfica.

Constitui, pois, concepção unitária e ao mesmo tempo abrangente do que seja (ou deva ser entendido) como núcleo ou cerne de qualquer obra ficcional, independentemente da arte em que se manifeste, seja literatura (que inclui o texto teatral), seja cinema.

Esse entendimento do fenômeno ou prática ficcional faculta sua compreensão, análise e avaliação, classificando-o ou desclassificando-o sob o ponto de vista artístico.

Mesmo que se não o faça de imediato, consciente e eficazmente (por meio da crítica), o passar dos seres humanos pelo tempo encarrega-se de separar uns e outros ou uns dos outros, relegando ao oblívio os que não atingiram o status artístico, condenando-os ao desaparecimento.

(do livro inédito Ficção e Cinema)

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Guido Bilharinho é advogado atuante em Uberaba, editor da revista internacional de poesia Dimensão de 1980 a 2000 e autor de livros de Literatura (poesia, ficção e crítica literária), Cinema (história e crítica), História (do Brasil e regional).

1 de novembro de 2016

Filmes do Irã: A MAÇÃ - As Situações e Suas Circunstâncias

Por Guido Bilharinho*




Uma das particularidades mais acentuadas, senão a mais reiterada de todos os possíveis e variáveis aspectos a serem considerados no cinema iraniano contemporâneo, é a eleição da temática familiar.

A abordagem das situações e suas circunstâncias concentra-se geralmente num acontecimento específico, problematizado ficcionalmente. Essa orientação possibilita extremada contenção fática, redundando em decorrente economia de meios e modos.

Se a primeira condição permite a viabilização cinematográfica dados seus baixos custos, a segunda restringe seu alcance formal e também técnico, embora este, do ponto de vista cultural e artístico, seja secundário, por instrumental.

Já no que tange à forma, a limitação atinge o cerne do fazer artístico, daí decorrendo, como vem acontecendo nessa filmografia, com algumas exceções, a prevalência da estória sobre a elaboração artística, em descumprimento à sua regra básica, que é sua razão de ser, isto é, a produção de beleza para atendimento do prazer estético, a mais alta consecução da inteligência e sensibilidade humanas.

Na ficção, que é o caso, sobreleva ainda seu urdimento, conteúdo e desdobramento, na apreensão e respeito às verdades da natureza humana.

Se no primeiro caso, o filme A Maçã (Sib, Irã, 1998), de Samira Makhmalbaf (1980-), deixa de atender aos requisitos mais imperativos da formalização artística, no segundo alcança o desiderato a que se propôs de construção e exposição de situação humana e familiar específica.

Se essa característica impõe-se desde logo e em todo seu decorrer, não é ela propriamente que deve ser notada e realçada, mas, sim, o depuramento com que se desenvolve e a espontaneidade e autenticidade demonstradas, que emocionam e encantam.

O drama familiar focalizado forma cosmologia peculiar, em que seus elementos constitutivos (casal e duas filhas gêmeas), orbitam em coordenadas próprias, perfeitamente entrosadas, até que a interferência do mundo exterior denuncia sua anormalidade.

A partir daí, a ação reparte-se em pelo menos dois níveis distintos, que se comunicam e se influenciam, determinando alteração no conspecto sedimentado. O núcleo familiar sofre, pois, acentuada mutação sob a ação externa, obrigando-o a sair de seu enclausuramento e a contactar e relacionar-se com o mundo, o outro elemento dessa confluência de situações e ações.

Além da delicadeza e sutileza com que se processa essa etapa da ação fílmica, ressalta-se a poetização de atos, gestos e do descarnado décor, em procedimento imagético que os valoriza para além da vizualização direta e imediata.

À frente da imagem não está somente o olhar mecânico da câmera, porém, o olhar humano e sensível do artista, atingindo o clímax na cena final, emblemática, que se descurada da estetização da imagem e da composição de sua sucessividade, não olvida a elaboração dos conteúdos que viabiliza.

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Guido Bilharinho é advogado atuante em Uberaba, editor da revista internacional de poesia Dimensão de 1980 a 2000 e autor de livros de Literatura (poesia, ficção e crítica literária), Cinema (história e crítica), História (do Brasil e regional).


18 de outubro de 2016

Filmes do Irã: Gosto de Cereja, o mistério humano




O filme Gosto de Cereja (Ta’m-E-Guilass, Irã, 1997), de Abbas Kiarostami (1940-2016), insere-se na linha de seriedade temática, em que o conflito humano não constitui, como no filme comercial, mera sucessão de fatos, acontecimentos, intrigalhadas e choques de interesses. Porém, articula-se a partir da angústia existencial, radicalizando seus efeitos. Não interessa ao cineasta a origem de sua causalidade, ou seja, a motivação que a deflagra e a impulsiona até cristalizar-se na ação fílmica. Não se evidenciam fatos e motivos, mas, atitudes e consequências. Seu foco de interesse restringe-se, mas, simultaneamente, aprofunda-se no cerne da condição humana. Não, porém, de sua problemática objetiva e física, na qual necessidades materiais e orgânicas devam ser atendidas e satisfeitas. Mas, de seu íntimo questionamento, centrado em sentimento angustioso de perplexidade, desencanto e desespero existencial.

Ao contrário do palavroso costume ocidental de excessivamente verbalizar estados de espírito e convulsões emocionais, Kiarostami dispensa apelos explicativos e elide manifestações justificativas.
Nada há a expor e muito menos satisfação a dar em razão da determinação do protagonista.
Nada também a lamentar.

De maneira direta, seca e discreta, a personagem reflete a gravidade de sua decisão enquanto passeia sua angústia à procura de quem ultime as providências que julga indispensáveis ao coroamento de seu gesto radical.
         Apenas isso é o filme. Um homem à procura de quem pratique rápida tarefa ou, como diz, lhe preste serviço bem remunerado. Isso e o espanto e a reação que a proposta provoca, tal seu inusitado e a maneira simples, direta e despida de emoção como é formulada.

Esse o filme. Exposição e tratado da multiplicidade e perplexidade da conduta humana guiada pela emoção e dirigida pela razão em comunhão de propósitos e meios de se atingi-los.

Na linguagem desataviada de Kiarostami, um indivíduo percorrendo com seu carro estradas de terra. Nesse périplo fatídico, o rosto da personagem, o ato de guiar, o chão encascalhado, as curvas meticulosas dos caminhos, o veículo e a paisagem áspera assumem importância que transcende aspectos materiais e físicos e mesmo aparências e funções específicas para - de per si ou reunidos ao conjunto que formam por sua proximidade, contato e integração - comporem elementos ativos e atuantes no contexto do drama humano de que constituem palco.

Procede-se, no caso, proficiente e eficaz associação de realidades humanas e subjetivas com materiais objetivas, numa simbiose ao mesmo tempo dinâmica e angustiante, ambas, contudo, secas e diretas como a exposta aridez da natureza, palco do mistério humano.

Um filme rigoroso e belo, contido e eficiente, no qual gestos, movimentos e palavras articulam-se no ritmo adequado à captação do real, não apenas como concreticidade física ou beleza imagética, mas, também, como puro exercício da subjetividade humana.

Nele, o que importa não são os fatos, mas, a possibilidade e a faculdade humana de tomar decisões em todos os níveis e graus e, no caso, de dispor de seu próprio ser. Ao mesmo tempo, filma-se a fragilidade ínsita nessa capacidade. Contradição, todavia, só aparente, já que configura faces inséctis ou inseparáveis da mesma moeda.
Habitualmente, o propósito e o ato do protagonista quando incidentes na maioria das obras de ficção constitui fuga da solução dos problemas. Aqui, é o problema.

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Guido Bilharinho é advogado atuante em Uberaba, editor da revista internacional de poesia Dimensão de 1980 a 2000 e autor de livros de Literatura (poesia, ficção e crítica literária), Cinema (história e crítica), História do Brasil e regional.

6 de setembro de 2016

Comemorações do dia 07 de Setembro em notícias do Jornal Lavoura e Comércio


Este momento marcou profundamente a vida nacional, com destaques as publicações dos jornais dos anos da ascensão e queda da Era Vargas, em especial, o ano de 1934 que iria promulgar uma nova Constituição e ao período do Estado Novo, quando o Brasil se une aos Aliados contra as potências do Eixo e o Nazifascimo. No contexto da redemocratização, as comemorações da Independência passaram por outra ocasião de profunda crise para com os desígnios do Brasil, o ano de 1954, pois aquele 07 de Setembro se deu dias após o suicídio do Presidente Getúlio Vargas. 

Clique aqui para baixar o texto em PDF: Comemorações Do 7 de Setembro Em Uberaba

1 de setembro de 2016


Filmes do Irã

A CHAVE
Significado e Possibilidades
 * Guido Bilharinho

Abbas Kiarostami

O cinema iraniano contemporâneo é um dos mais vigorosos (e substanciosos) do mundo.
        
Na natureza e na sociedade nada surge pronto e acabado (muito menos em sete dias, mesmo que se não tome essa indicação periodista em seu sentido próprio e estrito), subsistindo razões (ou pelo menos uma razão) para essa performance. Fundamentando-a, impulsionando-a e dando-lhe conveniente substrato, têm-se milênios de civilização estratificada e consolidada.

Se em muitos e importantes aspectos, essa civilização, quanto aos costumes e à tecnologia, não se atualizou, no cinema, ao contrário, atingiu patamar universal, inclusive e principalmente por enraizado e mergulhado em seu pathos profundo.

 Uma de suas características fundamentais reside, pois, no contexto social que embasa e condiciona os cineastas, que não só impõe como outorga à obra sua essência. Além, portanto, da tradição cultural que os forma e informa, encontram em seu meio, na sociedade a que pertencem e que os cerca, conteúdo e sentido. Resta-lhes dar forma estética e captar-lhe natureza e significado, reelaborando-os imageticamente. Sua obra, mercê da captura desses elementos, consiste não em simples recriação ou reflexo de realidade, mas, em criação artística.

Outra das particularidades dessa cinematografia, estreitamente ligada a anterior, traduz-se, ao mergulhar nos estratos e substratos da sociedade, na focalização e articulação de seu cotidiano destituídas de qualquer conotação espetaculosa.

Assim, substância humana e social e atos normais da vida embasam os espécimes mais relevantes desse cinema.

É o caso, entre outros, do filme A Chave (Irã, 1986), de Ebrahim Forouzesh, com roteiro de cineasta Abbas Kiarostami.

Não que o filme seja excepcional ou mesmo muito bom. Contudo, por força das peculiaridades apontadas, integra a linhagem mais significativa do cinema iraniano.

Nada mais simples nem mais, em contrapartida, autêntico do que sua construção ficcional e nem mais adequada a transmiti-la, tal qual se apresenta, do que sua configuração cinematográfica.

À simplicidade da abordagem temática corresponde linguagem apta a narrá-la. À evidência, que essas singularidades impõem limites que impedem ao filme atingir patamares superiores de criação artística. Todavia, no espaço dessa conformação, o filme dimensiona e expõe, conquanto naturalística e mimeticamente – sua restrição fundamental – coordenadas essenciais.

Desprezando a exploração sensacionalista, revela a verdade dos acontecimentos nas possibilidades que abrem por si próprios tanto quanto por seu encadeamento. No cinema comercial, o fato de criança de uns quatro ou cinco anos permanecer com irmão de sete ou oito meses em apartamento fechado, compartilhando esse espaço com panela de pressão num ligado fogão a gás enquanto sua mãe vai às compras, desencadearia certamente sinistros e catástrofes facilmente imagináveis.
         
O grande mérito de A Chave é cingir-se aos atos das crianças, dimensionando-os apenas enquanto tais. Contudo, nesse fazer, formata-os cinematograficamente de conformidade com o que efetivamente são.
         
Na confluência e obediência a essas linhas reside seu grande atributo, já que não deixa que uma se sobreponha a outra, conduzindo-as simultânea e equilibradamente, deflagrando permanente suspense por força de natural apreensão.

A qualidade mais relevante desse e dos filmes iranianos congêneres consiste na fixação dos fatos da vida cotidiana em seu significado e perspectivas, construídos concentrada e artisticamente, de modo a revelar o primeiro e antever as últimas.

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Guido Bilharinho é advogado atuante em Uberaba, editor da revista internacional de poesia Dimensão de 1980 a 2000 e autor de livros de literatura (poesia, ficção e crítica literária), cinema (história e crítica), história do Brasil e regional.

29 de agosto de 2016

Superintendência do Arquivo Público teve acervo consultado para confecção da dissertação: “Os aldeamentos indígenas no Caminho dos Goiases: guerra e etnogênese no sertão do Gentio Cayapó (Sertão da Farinha Podre) séculos XVIII e XIX”


Foi depositado na biblioteca de estudos que versam sobre a história do Triângulo Mineiro da Superintendência do Arquivo Público de Uberaba, a dissertação de mestrado intitulada - “Os aldeamentos indígenas no Caminho dos Goiases: guerra e etnogênese no sertão do Gentio Cayapó (Sertão da Farinha Podre) séculos XVIII e XIX”. O trabalho foi defendido em julho de 2015 por Robert Mori, no Programa de Pós-Graduação em Ciências Sociais da Universidade Federal de Uberlândia – UFU, e contou com a orientação do professor Dr. Marcel Mano. 

Para confecção deste estudo, o pesquisador consultou inúmeros documentos históricos pertencentes à Superintendência do Arquivo Público de Uberaba. O material impresso está disponível para consulta pública nas dependências da instituição arquivística.

À esquerda, os diretores da instituição Pollyana Esteves da Silva e João Eurípedes de Araújo. em seguida, o pesquisador Robert Mori e à direita a Superintendente do Arquivo Público de Uberaba Marta Zednik de Casanova com a dissertação entregue pelo autor.
Segundo o autor o objetivo principal do trabalho de pesquisa foi compreender: 

“(...) a importância histórica dos aldeamentos indígenas do Sertão da Farinha Podre (atuais regiões do Triângulo Mineiro e Alto Paranaíba, no estado de Minas Gerais) criados a partir da reunião de diferentes grupos indígenas da América portuguesa em um território delimitado. O ponto de partida do processo histórico que culminou no surgimento desses aldeamentos se deu em meados do século XVIII, quando aquela região era local de habitação e deslocamento dos índios Kayapó do sul. Com o afluxo de não-índios para o território da capitania de Goiás a partir da delimitação do Caminho dos Goiases pela bandeira do Anhanguera e da descoberta das minas auríferas e diamantíferas, os Kayapó do sul passaram a realizar uma série de ataques aos não-índios, promovendo mortes, incêndios, destruições e a rapinagem de objetos e mantimentos. Para combater os Kayapó do sul, após inúmeras tentativas frustradas, foi contratado o sertanista Antônio Pires de Campos e seu exército de índios composto por Bororo e Paresí, deslocados dos arredores de Cuiabá. A estratégia de guerra idealizada pela Coroa portuguesa e pelo sertanista consistiu na criação de aldeamentos indígenas entre os Rios Grande e Paranaíba (no Sertão da Farinha Podre) ao longo do Caminho dos Goiases. No ano de 1780, quando grupos de Kayapó do sul foram aldeados em Maria I, na capitania de Goiás, os aldeamentos do Sertão da Farinha Podre passaram a perder importância para os não-índios. No início do século XIX, ocorreu um processo contínuo de espoliação das terras pertencentes aos indígenas aldeados com a concessão de sesmarias e a ocupação de não-índios oriundos principalmente das regiões oeste e centro-oeste da capitania de Minas Gerais. A guerra e os aldeamentos indígenas podem ser compreendidos com base na política indigenista vigente durante o período colonial, mas também a partir da relação entre e estrutura e evento proposta por Marshall Sahlins. A relação entre História e Antropologia também se deu a partir da utilização do paradigma indiciário e do uso do método de projeção etnográfica, importantes para a compreensão das fontes arquivísticas dos séculos XVIII e XIX, que foram os materiais básicos da pesquisa”.


Para acessar a dissertação em formato digital, clique aqui e vá ao Repositório de Teses e Dissertações da Universidade Federal de Uberlândia – UFU.